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Rosângela passou 4 verões em Guarapari sem entrar no mar

A carta pra quem fica na areia com as bolsas da família enquanto todo mundo entra na água.

Cadeira de praia listrada com bolsas e celulares na areia de Guarapari

A cadeira listrada na Praia do Morro.

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“Mãe, fica de olho nas bolsas que a gente já volta”, disse Thiago, o filho mais velho, na areia da Praia do Morro, em Guarapari, às 9h20 de um sábado de janeiro de 2022. Rosângela Duarte tinha 56 anos e acabara de abrir a cadeira listrada.

Thiago entrou no mar com a mulher, Priscila, e os dois netos. O marido, Edson, foi atrás com a prancha de isopor comprada na barraca da esquina. Na cadeira ficaram três bolsas, quatro celulares, a chave do carro e uma sacola com os documentos da família.

A família sai de Contagem, na Grande Belo Horizonte, todo janeiro. São cerca de 530 quilômetros de estrada até o apartamento alugado, a duas quadras da praia.

Rosângela organiza a viagem desde o primeiro verão: reserva o apartamento em setembro, monta a lista do mercado e separa o protetor de cada neto. Na praia, sem ninguém combinar, a cadeira dela virou o posto onde tudo fica guardado.

Naquele sábado, ela ficou das 9h20 às 12h40 sentada. Levantou duas vezes: uma para comprar água de coco, sem tirar os olhos da sacola, outra para chamar o neto Davi, que tinha nadado longe demais.

Em 2023, a cena se repetiu. Em 2024 também. Em janeiro de 2025, Priscila fotografou a família dentro d'água e mandou no grupo do WhatsApp com a legenda “todo mundo reunido”. Rosângela viu a foto no celular, sentada na cadeira, a vinte metros da água.

Ela fez a conta: em quatro verões, 28 dias de praia. Tinha molhado os pés na beira umas seis vezes. Entrado no mar até a cintura, nenhuma.

Ninguém tinha pedido que ela ficasse para sempre. O pedido de Thiago, em 2022, era para dez minutos. A regra nasceu de uma frase solta, e ninguém voltou a ela.

O posto de vigia, porém, começou bem antes da praia, numa casa de Contagem, em 1981.

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I  O Padrão

A cadeira das bolsas

Rosângela Aparecida Duarte aprendeu a vigiar antes de aprender a nadar. Em 1981, aos 15 anos, ela era a mais velha de cinco irmãos numa casa do bairro Eldorado, em Contagem, e a mãe passava o dia numa fábrica de tecidos.

QUEM GUARDA O QUE É DOS OUTROS

Nos domingos de clube, os irmãos corriam para a piscina e Rosângela ficava na mesa de concreto com a sacola do lanche e os chinelos de todos. A mãe a chamava de ajuizada da casa. Ela gostava do elogio e não reparava no preço dele.

Casou em 1988 com Edson Duarte, motorista de ônibus. Os dois filhos nasceram em 1990 e 1993. Nas férias em Guarapari dos anos 1990, ela ainda entrava no mar com os meninos no colo, porque não havia outro jeito de vigiar dois bebês.

Os meninos cresceram e aprenderam a nadar sozinhos. Rosângela recuou um passo para a areia, depois outro para a cadeira. Em 2022, com os netos, o recuo estava completo.

A cadeira das bolsas não foi escolhida num dia: foi herdada de uma mesa de concreto de 1981.

A família tem razões práticas. Em 2019, um primo de Edson teve o celular levado na Praia do Morro enquanto mergulhava. O caso virou aviso em toda viagem: “alguém tem que ficar”.

O alguém nunca foi sorteado. Edson alega não ter paciência de ficar parado. Thiago precisa estar com as crianças na água. Priscila sempre carrega a caçula. Cada um tinha um motivo para entrar, e Rosângela era a única sem motivo para sair da cadeira.

Ela também não pedia. Contou depois que entrar no mar parecia capricho de quem não tem responsabilidade, e a responsabilidade era dela desde os 15 anos.

Em 2024, a neta Laura, de 8 anos, perguntou por que a avó nunca entrava. Rosângela respondeu que não gostava de água fria. A placa do posto de salva-vidas marcava 26 graus naquela manhã.

Laura aceitou a resposta e voltou correndo para a água. Rosângela ajeitou a sacola dos documentos embaixo da cadeira e conferiu, pela terceira vez naquela manhã, se a chave do carro continuava no bolso lateral.

A cena tinha um padrão fixo. A família chegava às 9h, abria o guarda-sol, empilhava as bolsas na cadeira dela e se espalhava pela água. Quando alguém voltava com fome, era ela quem abria o isopor e distribuía os sanduíches.

II  A Ferida

O mar visto da areia

Rosângela Duarte só mediu a renúncia numa noite de fevereiro de 2025, de volta a Contagem, quando abriu no celular a pasta de fotos das quatro viagens.

O QUE AS FOTOS GUARDARAM

Eram 412 fotos de praia. Ela aparecia em 19. Em todas, estava sentada na cadeira listrada, de chapéu, com uma bolsa no colo ou encostada no pé. Em nenhuma estava molhada.

Tentou lembrar o último mergulho inteiro, com a cabeça debaixo d'água. Achou a data numa foto antiga, revelada em papel: janeiro de 2003, Praia da Areia Preta, com o filho caçula de 10 anos.

Vinte e dois anos sem mergulhar, numa cidade aonde ela ia todo verão.

“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher.”

Simone de Beauvoir, O Segundo Sexo, 1949

Simone de Beauvoir, filósofa francesa, escreveu a frase na abertura do segundo volume do livro, dedicado à infância. O argumento: o papel de mulher se aprende em gestos pequenos, repetidos desde menina, até parecer natureza.

O papel de vigia de Rosângela tinha sido aprendido desse modo, numa mesa de concreto aos 15 anos, e repetido em cada verão até ninguém notar que era um papel.

A resposta dada à neta também não era o motivo. A água fria era desculpa. O motivo ela escreveu num caderno de receitas, naquela noite: “Se eu entro, quem cuida?”

Na manhã seguinte, no café, contou as fotos para Edson. Ele se surpreendeu. Lembrava da mulher na cadeira, mas achava que ela preferia assim. Em quatro anos, ninguém tinha perguntado.

Edson perguntou o que ela queria. Rosângela respondeu com uma frase: “Quero entrar no mar com os meus netos, e quero alguém cuidando das bolsas por mim.”

Ele prometeu resolver antes de janeiro. O plano saiu numa conversa no grupo da família, em dezembro de 2025, com Priscila digitando a escala.

Thiago foi o primeiro a responder. Escreveu que nunca tinha pensado na cadeira como lugar de alguém, só como o canto onde as bolsas ficavam. Pediu desculpa à mãe numa mensagem de áudio de dois minutos, que ela ouviu duas vezes na cozinha.

 

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III  O Resgate

O rodízio da cadeira

Rosângela Duarte chegou a Guarapari em janeiro de 2026 com uma compra nova na mala: uma bolsa estanque (a bolsa vedada, que não deixa entrar água), de PVC, paga R$ 59 numa loja de esportes de Contagem.

O ACORDO DA FAMÍLIA

1. Rodízio da cadeira: cada adulto fica uma hora por manhã com as bolsas, numa escala escrita por Priscila no grupo da família.

2. Bolsa estanque: celulares, chave do carro e documentos entram nela, pendurada no pescoço de quem fica na água rasa.

3. Primeira hora livre: Rosângela fica com a primeira hora de mar, das 9h às 10h, e só depois pega o turno dela na cadeira.

Edson resistiu ao rodízio no primeiro dia. Ficou 40 minutos na cadeira e reclamou do sol. No segundo dia levou um rádio de pilha e uma revista de palavras cruzadas, e não reclamou mais.

Bastava uma escala escrita para nenhuma pessoa ficar presa à cadeira a manhã inteira.

No dia 4 de janeiro, às 9h10, Rosângela entrou no mar da Praia do Morro com a neta Laura pela mão. A água bateu na cintura, depois no peito. Ela mergulhou a cabeça uma vez e saiu rindo, com o chapéu esquecido na areia.

Laura perguntou de novo da água fria. A avó contou o motivo inteiro: tinha vigiado a vida toda, e naquele verão a família combinou uma escala para ela poder nadar.

Nos sete dias de praia de 2026, ela entrou no mar em todos. Ficou com as bolsas na hora dela da escala, uma por manhã, como os outros. A bolsa estanque voltou para Contagem com areia nas costuras.

O protetor solar, que antes ela passava só nos braços e no rosto, passou a cobrir as costas também. Priscila comentou no terceiro dia que a sogra estava com marca de maiô pela primeira vez desde que Priscila entrou na família.

Edson, no último dia, pediu para ficar com a hora extra da cadeira. Disse que tinha gostado do rádio e da revista, e que preferia ver a mulher no mar a ouvir a história de como ela não entrava.

A foto que Priscila mandou no grupo naquele janeiro mostra a família toda dentro d'água, com Rosângela no meio. A legenda repetiu a de 2025: “todo mundo reunido”. Desta vez, valia para todos.

Quanto tempo faz desde o seu último mergulho inteiro, com a cabeça debaixo d'água?

Teste hoje: abra a galeria do celular, vá até as fotos da última viagem de família e conte em quantas você aparece. Depois conte em quantas está com as mãos livres, sem bolsa, sacola ou criança alheia no colo. Se a segunda conta der menos da metade da primeira, o esperado é chegar à próxima conversa de família com o assunto pronto, antes de reservar o próximo verão.

 
 
Quiz da edição

Quantos verões seguidos Rosângela passou sentada na cadeira listrada cuidando das bolsas da família, antes do acordo de rodízio?

A2 verões
B3 verões
C4 verões
D6 verões

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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