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Quatorze no grupo, duas respondem
A carta pra quem sustenta o grupo da família sozinha, manda foto, responde todo mundo, e recebe retorno de duas pessoas em quatorze.
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Quatorze no grupo, duas respondem.
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"Eu mando porque, se eu não mandar, ninguém manda", disse Cleide à atendente, na fila da farmácia em Marília, com o celular ainda aberto na conversa do grupo.
O grupo da família tem quatorze pessoas. Ela, as duas irmãs, os três cunhados, a mãe, cinco sobrinhos, um genro e uma prima que entrou em 2023 e nunca escreveu uma linha. O grupo foi criado por Cleide num domingo de 2019, depois de uma internação da mãe, pra todo mundo saber da glicose sem precisar de quatro ligações.
De segunda a segunda, ela abre a conversa às sete e doze, antes do primeiro café, e escreve alguma coisa: a foto da mãe tomando o remédio, o resultado do exame, o aviso de que a consulta mudou de horário, a lembrança do pagamento do plano.
Das quatorze pessoas, duas respondem. Uma irmã responde quase sempre, com uma frase curta e um emoji. Um sobrinho de dezenove anos responde quando a foto é da avó. As outras onze leem, porque a conversa aparece lida no visor, e seguem o dia.
O grupo não está morto. Na semana da festa de quinze anos da sobrinha, ele encheu de áudio, foto de vestido, discussão de bolo e piada de tio. Cleide contou oitenta e duas mensagens em dois dias. Passada a festa, voltou ao normal: ela escreve, o visor confirma a leitura, e o silêncio fecha o assunto.
O celular fica virado pra cima ao lado do prato no almoço e ao lado do travesseiro à noite. Ela confere o grupo umas doze vezes por dia, em geral entre uma senha e outra no guichê do cartório, e na maior parte das vezes a tela mostra a própria mensagem da manhã parada no fim da conversa.
Quando alguém comenta, a resposta dela sai pronta: "todo mundo trabalha, eu que tenho mais tempo". Cleide trabalha oito horas num cartório e cuida da mãe em dia alternado com uma cuidadora.
Vale contar as mensagens desse grupo por escrito, uma por uma, durante quatro semanas comuns.
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I O Padrão
A fita métrica passada na barra do armário
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O trabalho de hoje leva doze minutos no primeiro dia e dois minutos por dia depois disso. Precisa do próprio celular, da conversa do grupo aberta e de um caderno pequeno guardado na gaveta da cozinha.
Escolhe uma segunda-feira e volta quatro semanas pra trás na conversa. Rola até o começo do período e desce devagar, contando três números. O primeiro é quantas mensagens você escreveu no grupo. O segundo é quantas mensagens as outras pessoas escreveram no total. O terceiro é quantas pessoas diferentes escreveram pelo menos uma vez. Anota os três em algarismo, sem arredondar.
QUATRO SEMANAS, TRÊS NÚMEROS
Cleide levou quarenta minutos e contou o seguinte: cento e onze mensagens dela, trinta e quatro de todo o resto da família junto, e cinco pessoas diferentes escrevendo ao menos uma linha em vinte e oito dias. Das trinta e quatro do resto, dezenove foram na semana da festa, e nove foram a irmã respondendo à foto do remédio.
Agora separa as mensagens por tipo, com um traço no caderno pra cada uma. Aviso prático (consulta, remédio, pagamento). Foto ou vídeo. Pergunta feita a alguém. Resposta a alguém. Parabéns e datas. Conversa solta. Você vai ver depressa em qual coluna a sua contagem se acumula e em qual ela é zero.
Quatorze pessoas no grupo, cento e onze mensagens dela em quatro semanas, e duas pessoas escrevendo de volta com alguma regularidade. |
Nos sete dias seguintes, marca uma linha por dia com uma informação só: quanto tempo passou entre a sua mensagem da manhã e a primeira resposta de alguém. Se ninguém respondeu até a noite, escreve "nenhuma". O caderno de Cleide naquela semana saiu com quatro "nenhuma", duas respostas em mais de seis horas e uma em oito minutos, no dia em que a mãe passou mal.
Repara na pergunta que a contagem faz sozinha no fim das quatro semanas: quem mais está fazendo esse trabalho. Cleide procurou uma segunda pessoa que tivesse escrito um aviso prático no período. Não achou nenhuma. Achou duas irmãs que respondem, três cunhados que leem, cinco sobrinhos que reagem com figurinha no aniversário e uma prima que nunca escreveu.
Guarda o caderno na gaveta. O que ele registra não é desamor da família nem falta de educação de ninguém. É o ponto exato onde o cuidado de uma casa inteira virou tarefa de uma pessoa só, sem que nenhuma reunião tivesse decidido isso.
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II A Ferida
A palavra organização cobrindo a conta
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Vamos ser honestas?
Sustentar o grupo sozinha tem uma vantagem real e imediata. Funciona todo dia. A informação circula, a mãe toma o remédio na hora, ninguém perde consulta, e nenhuma conversa difícil precisa acontecer. O arranjo é eficiente, e a eficiência dele explica por que ele já dura sete anos.
Existe uma segunda vantagem, mais escondida. Enquanto Cleide escreve as cento e onze mensagens, ela nunca precisa descobrir o que aconteceria se parasse. Parar obriga a ver quantos dias a família levaria pra notar, e quantas pessoas escreveriam primeiro. A pergunta tem uma resposta possível que ela não quer ouvir, e o grupo ativo mantém a pergunta fora do ar.
O amor é um ato de vontade, uma intenção e uma ação ao mesmo tempo. bell hooks, Tudo Sobre o Amor, 2000 |
A palavra unida faz um trabalho pesado nessa família. Todo mundo repete que a família é unida, e a prova que citam é o grupo cheio de foto da avó. A foto é de Cleide. O aviso da consulta é de Cleide. A lembrança do aniversário do cunhado é de Cleide. A união existe no visor de quatorze celulares e é digitada pelos dedos de uma pessoa antes do café.
O treino começa cedo. Menina que lembra do nome de todo mundo na festa é chamada de carinhosa. Menina que manda o recado da avó pra tia ganha um afago na cabeça e um "você é a mais responsável". Menino que esquece o mesmo recado ouve que é distraído, e distraído não é defeito grave. Trinta anos depois, ela tem na cabeça as datas de quatorze pessoas, e duas dessas pessoas têm a data dela.
O estrago mora na segunda camada. Quem escreve por sete anos pra um grupo que responde pouco começa a escrever pensando na resposta. Escolhe a foto que tem mais chance de arrancar um emoji, evita o assunto que ninguém comenta, para de contar a própria semana porque a própria semana morre no silêncio com mais dor do que a foto do remédio. O grupo, que existia pra cuidar da mãe, virou o lugar onde ela aprendeu a não falar de si.
Repara no arranjo estranho de olhar de perto. Uma mulher que organiza escala de cuidadora, resolve plano de saúde, acompanha exame, lembra data de quatorze pessoas e mantém a informação circulando numa família inteira, e que, no aniversário dela em março, recebeu três mensagens. A competência está provada em sete anos de operação. O que falta é a conversa de cinco minutos que nunca aconteceu.
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