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“É a mãe do Lucas? Ele está com febre, a senhora precisa vir buscar”, disse Cida Rocha, secretária da Escola Monteiro Lobato, no Taquaral, em Campinas, numa terça de agosto, às 10h15. Patrícia Lemos Andrade estava no meio de uma reunião de comitê de crédito.
Patrícia tem 38 anos e é analista sênior de crédito numa cooperativa agrícola em Campinas. Naquela terça, apresentava o parecer de um financiamento de R$ 2,4 milhões para uma cooperativa de café de Garça. Pediu licença, desligou a câmera e saiu da sala.
Marcelo Andrade, o marido, é engenheiro de manutenção numa fábrica de autopeças em Hortolândia. Trabalha a 14 quilômetros da escola. Patrícia trabalha a 22. Naquela manhã, ele estava numa parada de linha programada, com o celular no bolso e o volume ligado.
A secretaria não ligou para ele. Na ficha de matrícula, preenchida em janeiro de 2019, quando Lucas entrou no primeiro ano, só havia um telefone: o dela.
Helena, a filha caçula, entrou na mesma escola em 2022. A ficha dela foi copiada da ficha do irmão, linha por linha, no balcão da secretaria. Patrícia assinou sem ler.
Naquela terça, ela dirigiu 22 quilômetros, buscou Lucas, deu antitérmico e voltou para o computador de casa às 13h. O comitê aprovou o financiamento de Garça sem o parecer dela. Outro analista apresentou os slides.
À noite, ela abriu o aplicativo do telefone e contou as chamadas com o número da escola desde fevereiro. Nove ligações no semestre. Febre, uniforme esquecido, um dente de Helena que caiu no recreio, uma briga no futebol, um bilhete de passeio sem assinatura.
Nove ligações, todas em horário de trabalho. Nenhuma para Marcelo. Em quatro delas, ela saiu do escritório. Em duas, saiu de reunião.
Marcelo não sabia de nenhuma. Quando ela contou, ele perguntou por que a escola não ligava para ele. Patrícia não soube responder naquela hora.
A resposta estava num papel de 2019, guardado numa pasta azul da secretaria, que ninguém da família abria fazia seis anos e meio.
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