In partnership with

Resgate do Feminino   Resgate do Feminino
ED 103

Os parabéns que ela manda

A carta pra quem lembra do aniversário de trinta pessoas e passa o próprio dia olhando o celular em cima da mesa.

Mulher sentada à mesa da cozinha relendo no celular as poucas mensagens que recebeu no aniversário dela

Ela relendo as quatro mensagens do próprio dia.

▼

"Ninguém esqueceu de mim, eu é que não sei o que estava esperando", disse Cleide à filha, na cozinha do apartamento delas em Londrina, com o bolo ainda inteiro em cima da mesa. Eram nove da noite do aniversário dela. O celular tinha tocado quatro vezes no dia inteiro.

Cleide mantém uma agenda de datas no aplicativo do celular desde 2019. São trinta e um nomes com alerta programado pra sete da manhã. Irmãs, cunhados, sobrinhos, três vizinhas, duas colegas do trabalho antigo, a professora do filho, a mulher que corta o cabelo dela há doze anos, a esposa do sócio do marido.

Ela não manda "parabéns" seco. Escreve o nome inteiro da pessoa, lembra de alguma coisa específica do ano que passou, deseja alguma coisa específica pro ano que vem. Leva de quatro a sete minutos por mensagem. Somando os trinta e um, dá perto de três horas por ano digitando alegria alheia com o polegar.

No aniversário dela chegaram quatro mensagens. A filha, de manhã. Uma irmã, às onze. A cabeleireira, que tem a data anotada no caderno de agendamentos. E o alerta automático de uma loja de calçados oferecendo quinze por cento de desconto na semana do cliente.

Cleide releu as quatro várias vezes durante o dia. Entre uma leitura e outra, abriu o aplicativo de mensagens pra conferir se estava tudo funcionando, mandou um bom dia num grupo de família pra ver se alguém lembrava, e não lembrou ninguém.

A conta ela nunca fez em voz alta. Fazer em voz alta pareceria cobrança, e mulher que cobra carinho vira chata na história que a família conta depois. Então ela guardou a conta e continuou mandando os trinta e um do ano seguinte, com o mesmo capricho.

Vale fazer a conta no papel primeiro, sem falar com ninguém, só pra ver o tamanho dela.

Continue lendo ↓

 
 

I  O Padrão

A conta dos parabéns que você manda

O trabalho de hoje leva vinte e cinco minutos e precisa do celular aberto na mão, porque metade da resposta está no histórico das suas conversas. Abre uma página em branco de caderno, ou o verso de um envelope, e escreve no alto a palavra ANIVERSÁRIOS.

Desce a lista de todo mundo pra quem você mandou mensagem de aniversário nos últimos doze meses. Vai pelo calendário do celular, mês por mês, e depois passa pelas conversas do aplicativo procurando as suas mensagens de janeiro em diante. Sobrenome, apelido, vizinha do quarto andar: entra todo mundo que recebeu alguma palavra sua na data.

DUAS COLUNAS E UMA MARCA

A primeira coluna é a pessoa e a data. Escreve o dia e o mês ao lado do nome, exatamente como você sabe de cabeça. Repara em quantos você acertou sem consultar nada: essa memória é trabalho antigo, guardado e nunca contabilizado.

A segunda coluna é a mais desconfortável e a mais importante: o que essa pessoa te mandou no seu último aniversário. Vai lá na conversa e procura. Escreve o que estava escrito, sem melhorar. "Parabéns", "felicidades", uma figurinha de bolo, uma ligação de dois minutos, nada. Nada também é resposta, e escreve nada mesmo, sem inventar desculpa por ela.

Depois das duas colunas, uma marca. Coloca um traço ao lado do nome de quem soube da sua data por conta própria, sem alerta de rede social e sem alguém avisando no grupo. Costumam ser poucos traços, às vezes um, e o número que sobra dessa marca é o mais honesto da página.

A lista não mede quem gosta de você. Mede quantas pessoas guardaram a sua data no lugar onde você guardou a delas.

Cleide fez a conta numa terça de manhã, com café. Trinta e um nomes na primeira coluna. Na segunda, quatro linhas preenchidas e vinte e sete em branco. Na marca, dois traços: a filha e a cabeleireira, que anota tudo no caderno de agendamentos porque é o ofício dela.

Repara ainda numa terceira informação que a página entrega sozinha: quantas dessas trinta e uma pessoas você viu pessoalmente no último ano. Cleide viu onze. Vinte estão numa lista de datas que ela alimenta há sete anos e não estão em lugar nenhum da vida real dela.

Guarda a página. Ela vai servir de novo daqui a pouco, e a leitura que ela pede não é sobre ingratidão alheia. É sobre onde você resolveu colocar a sua atenção e por quê.

 
 

II  A Ferida

O presente que ela embrulha e não abre

Vamos ser honestas?

Lembrar da data de todo mundo é uma forma de ocupar um lugar seguro. Enquanto ela é a que lembra, ela é a boa da família, a atenciosa, a que nunca falha. Existe abrigo real nessa posição, e é um abrigo que muita mulher construiu depois de aprender cedo que ser útil garantia mais afeto do que simplesmente estar ali.

Tem também uma esperança dentro da mensagem, e ela nunca é dita. A esperança de que a atenção seja um empréstimo com data de devolução, que o cuidado guardado renda juros e volte no dia certo. Ninguém combinou nada disso com ninguém. O acordo existe só de um lado, e o lado que não sabe do acordo não tem como cumprir.

A esperança é a coisa mais difícil de curar quando não se admite que ela existe.

Clarice Lispector, A Paixão Segundo G.H., 1964

A cobrança fica presa na garganta por um motivo bem prático: pedir lembrança em voz alta destrói o valor da lembrança. Se ela avisar no grupo que o aniversário é amanhã e as mensagens chegarem, chegaram porque ela pediu, e a prova que ela queria não serve mais. Então ela não avisa, não recebe, e conclui em silêncio uma coisa dura sobre o próprio tamanho na vida das pessoas.

A conclusão silenciosa é onde mora o estrago. Quatro mensagens não provam desamor, provam que vinte e sete pessoas não têm a sua data no celular delas. Mas às nove da noite, com o bolo inteiro na mesa, nenhuma mulher faz essa leitura fria. Ela faz a leitura que dói, guarda a leitura, e passa a semana seguinte um pouco mais dura com quem mora com ela sem saber explicar por quê.

Existe uma segunda cobrança, mais lenta. Três horas por ano de mensagens escritas com capricho é tempo de atenção que sai de algum lugar. Sai do livro parado na cabeceira, da caminhada de sábado, da amiga que ela realmente queria ver e adia há meses porque a agenda está cheia de datas alheias.

Repara no arranjo estranho de olhar de perto: uma mulher com memória afiada pra trinta e uma datas, capricho pra escrever mensagem personalizada, disciplina pra sustentar um alerta de sete da manhã durante sete anos seguidos. A competência está provada trinta e uma vezes na página. Falta apontar uma parte dela pra própria data.

 
 
 

Quem banca a edição de hoje

2 minutes. Your URL. A customer profile worth using.

Most founders can describe their product. They can't describe their customer. Not in a way that actually changes how they sell.

HubSpot for Startups built a free tool to fix that. Paste in your URL, answer a few quick questions, and it generates a structured profile of your best-fit customer. Firmographics, buying triggers, the works.

Takes 2 minutes. No spreadsheet required.

Patrocinadores mantêm a edição gratuita

 

III  O Resgate

O aniversário que você avisa com antecedência

O exercício desta semana não pede que você pare de mandar mensagem, nem que corte gente da lista por mágoa. Pede duas mudanças pequenas, as duas mensuráveis, e a maior parte do trabalho cabe em quinze minutos de celular.

A primeira mudança é avisar. Vinte dias antes da sua data, sem drama e sem preâmbulo, você fala em voz alta na mesa de almoço ou escreve no grupo da família: "dia dezenove é meu aniversário, quero jantar em casa com vocês, tragam sobremesa." Data, formato e pedido concreto, numa frase só. Sem "se der", sem "se vocês quiserem", sem rir no fim pra aliviar.

Aviso não anula lembrança, e essa é a parte que trava quase toda mulher nesse ponto. Quem organiza a própria festa não está mendigando presença, está deixando de terceirizar a organização da própria alegria pra pessoas que nunca receberam a tarefa. A presença que chegar avisada conta igual.

A segunda mudança é enxugar a lista. Pega a página das duas colunas e separa três grupos. Fica com quem você viu pessoalmente no último ano. Fica com quem tem traço na marca. E o restante vira uma mensagem de trinta segundos, curta e afetuosa, sem os sete minutos de capricho.

O tempo que sobrar dessa poda tem endereço marcado, ou ele evapora. Cleide separou os minutos que ganhou e marcou café com uma amiga na segunda semana, presencialmente, com hora marcada na agenda no lugar de um dos alertas antigos que ela apagou.

Você já provou que sabe guardar trinta e uma datas. Falta guardar a sua no calendário de alguém.

Prepara-se pra uma reação estranha em casa, porque ela costuma vir. Alguém vai dizer "nossa, que novidade, agora você marca o próprio aniversário". Responde curto e sem abrir debate: "marquei porque eu quero, e quero vocês lá." Frase de informação, dita de dia, sem justificativa longa, porque justificativa longa convida negociação e não existe nada a negociar.

Prepara-se também pra uma decepção parcial, que é normal e não invalida o exercício. Avisada, a mesa costuma encher pela metade na primeira vez. Gente que não aparece na sua data avisada te dá uma informação limpa, sem sofrimento adivinhado, e informação limpa é o que permite decidir onde investir os seus próximos minutos.

Teste esta semana, e o teste leva quinze minutos: abra a agenda do celular, conte quantos alertas de aniversário alheio você tem programados e anote o número numa linha. Na linha de baixo, escreva quantas pessoas você tem certeza que guardaram a sua data. Vinte dias antes do seu aniversário, mande o aviso de uma frase. No dia, conte as mensagens que chegaram e escreva o número na terceira linha. O resultado esperado é a terceira linha ficar maior que a segunda, e a diferença entre as duas é exatamente o tanto de carinho que estava disponível esperando você abrir a boca.

"Quantas pessoas guardaram a sua data no mesmo lugar onde você guardou a delas?"

 
 

Ebook + app · 8 dias

Capa do ebook
+
O app no celular
1
2
3
4
5
6
7
8

o plano de 8 dias, dentro do app

Em 8 dias, 1 permissão por dia. O ebook ensina, o app cobra.

📖O ebook ensina: O guia de 30 dias que ensina a dizer “agora é a minha vez” sem pedir desculpa.
📱O app treina: 1 permissão por dia no celular, marcado e anotado. Atrasou, o plano espera.
 
Quero o ebook + app →
 
Quiz da edição

Segundo a carta, o que a segunda coluna da lista de aniversários registra?

AA data de nascimento de cada pessoa, dia e mês
BO que essa pessoa mandou pra ela no último aniversário dela
CQuantas vezes ela viu essa pessoa pessoalmente no último ano
DSe essa pessoa sabe da data de aniversário dela sem alerta de rede social

Resultado da última edição: 0% acertaram.

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
Sua avaliação

Como foi a carta de hoje?

🌹🌹🌹🌹🌹  ótima 🌹🌹🌹🌹  boa 🌹🌹🌹  ok 🌹🌹  ruim 🌹  péssima
 
Escolha a próxima edição

Qual carta você quer ver?

1 toque vota. A pauta vencedora vira uma próxima edição.

Voto aberto até 09/09, 15h30

A Os parabéns que ela manda →
B A colher da sobremesa dividida →
C O ventilador no grau dele →
D O perfil que sobrou →
 
Sua jornada
🔥 {{streak_atual | 0}} recorde
{{streak_recorde | 0}}

{{streak_titulo | Comece sua ofensiva hoje}}

sua patente

{{rank_simbolo | ◆}} {{rank_nome | Aprendiz}}

 

faltam {{xp_falta | 5}} de ouro pra {{rank_prox | próxima patente}}

{{edicoes_lidas | 1}}
edições
{{cliques | 0}}
cliques
{{avaliacoes_feitas | 0}}
avaliações
{{moedas | 0}} de ouro na carteira 🏪 loja e missões no hub
{{streak_cta | Começar minha ofensiva}}
Recomendação de Newsletter
Curiosidade do Dia

Curiosidade do Dia

Um assunto novo por dia e você nunca mais fica sem o que contar, em dois minutos. No seu email todo dia às 12:12.

Quero receber →

Volte para você.

RESGATE DO FEMININO

O feminino não precisa ser reconstruído. Precisa ser curado.

Continue lendo

View more
caret-right