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Os dez dias que ela vendeu antes de usar
A carta pra quem troca parte das férias pela matrícula da escola e passa o resto cuidando da casa.
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O quadradinho do abono marcado a caneta.
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No formulário de férias do hospital de Sorocaba, existe um quadradinho ao lado da frase "converter um terço do período em abono pecuniário". Simone Aparecida Lopes, quarenta e um anos, auxiliar administrativa do setor de faturamento, marca esse quadradinho todo mês de novembro, com a mesma caneta azul que usa pra assinar as guias dos convênios.
Marcar o quadradinho quer dizer vender dez dos trinta dias de férias. A lei permite, o hospital paga, e o dinheiro cai junto com o adiantamento. No caso de Simone, o abono deste ano deu dois mil quatrocentos e sessenta reais.
O valor tem destino antes de existir. A matrícula da escola particular dos dois filhos, Davi e Manuela, vence na segunda semana de janeiro e custa dois mil e trezentos reais somados. Sobram cento e sessenta, que viram caderno, estojo e uma mochila nova.
Os outros vinte dias ela tira em janeiro, junto com o recesso das crianças. A escola fecha, a vizinha que olha a Manuela à tarde viaja pra praia, e o marido, Rogério, motorista de aplicativo, trabalha mais no verão porque a cidade enche de gente de fora.
Então os vinte dias de férias de Simone viram vinte dias de casa com duas crianças em período integral. Ela lava as cortinas que passaram o ano esperando, descongela o freezer, leva os filhos ao dentista, pinta o portão e organiza o guarda-roupa pra doação. Ela chama esse mês de "adiantar a casa".
Quando volta ao hospital em fevereiro, a colega da mesa ao lado pergunta se ela descansou bastante. Simone responde que sim, porque a resposta verdadeira demoraria mais do que o café da copa.
Os dez dias vendidos aparecem no holerite, com nome, rubrica e valor. Os vinte que sobraram não aparecem em papel nenhum. E é somando os dois, lado a lado na mesma folha, que o padrão fica visível pra quem vive dentro dele.
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I O Padrão
Trinta dias no papel
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A conta de hoje pede dois papéis: o último aviso de férias e o calendário do mês em que você tirou. Pega os dois e coloca lado a lado na mesa da cozinha.
No calendário, pinta cada dia com uma de três cores. Verde pro dia em que você acordou sem hora e fez o que quis por pelo menos meio período. Amarelo pro dia dividido entre casa e descanso. Vermelho pro dia inteiro de serviço doméstico, de fila ou de filho sem escola.
Depois, ao lado, anota os dias que você vendeu e o que o dinheiro pagou. Não o que ele poderia pagar: o boleto exato em que ele entrou.
TRÊS CORES E UM BOLETO
Simone fez a conta num domingo à noite, com o lápis de cor da Manuela. Dos vinte dias de janeiro, catorze saíram vermelhos. Cinco saíram amarelos, quase todos tardes de piscina no clube do sindicato, onde ela ficava de pé na borda contando cabeça de criança.
Verde, um dia só. Um sábado em que Rogério levou os dois filhos pra casa da avó em Itu e ela dormiu até as dez, com a janela aberta.
Na coluna do boleto, a linha estava pronta de memória: dez dias, dois mil quatrocentos e sessenta reais, matrícula de janeiro. Ela nem precisou abrir o extrato.
Trinta dias de férias no papel, um dia verde no calendário. |
Falta a última coluna, a que muda a leitura da folha. Ao lado, escreve quantos anos seguidos você vendeu os dez dias. Simone contou sete, desde que Davi entrou no primeiro ano. Antes, vendia de vez em quando. Depois, virou regra que ninguém chegou a votar.
No hospital, a chefe aprova o abono sem pergunta, porque vender dias é comum no setor. Das doze pessoas do faturamento, oito marcaram o quadradinho no último ano. Seis delas são mulheres com filho em idade escolar.
A folha não mede se Simone é boa de conta. Ela trabalha com faturamento e acha erro de centavo em guia de convênio. A folha mede outra conta: o descanso dela entra no orçamento da família como a única despesa que sempre pode ser cortada, e é cortada antes mesmo de chegar.
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II A Ferida
O dia que vira boleto
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Vamos ser honestas?
Vender os dias tem uma razão boa. Escola particular custa caro, e a matrícula chega no mês em que ninguém tem folga: IPTU, IPVA, uniforme, material. Os dez dias viram a única fonte de dinheiro que não depende de empréstimo nem de cartão. Simone escolheu uma escola boa pros filhos e pagou com o que tinha.
Existe uma segunda razão, mais funda. O dinheiro tem nome e destino, o descanso não tem nenhum dos dois. Quando a família senta pra fechar as contas de janeiro, os dois mil e quatrocentos reais aparecem na planilha. O cansaço de Simone não aparece em coluna nenhuma, então sempre perde a disputa.
Eles dizem que é amor. Nós dizemos que é trabalho não remunerado. Silvia Federici, Salários contra o trabalho doméstico, 1975 |
Federici escrevia sobre o trabalho que a casa não paga. Nas férias de Simone, a conta aparece dos dois lados: dez dias ela vende pro hospital, e vinte ela entrega pra casa sem receber. O mês que era dela sai inteiro com dono.
DE ONDE VEM O QUADRADINHO
O treino tem origem. Dona Cida, mãe de Simone, foi costureira numa confecção de Votorantim e nunca tirou férias inteiras em trinta anos de fábrica. Vendia os dias pra comprar o uniforme dos filhos e, nos que sobravam, pegava costura de encomenda na sala.
Simone cresceu achando que férias de mãe eram a época do ano em que a máquina de costura ficava ligada até mais tarde. Ninguém ensinou a regra em voz alta. Ela aprendeu olhando.
O primeiro estrago é o corpo. Em março, dois meses depois das férias, Simone teve a terceira crise de enxaqueca do ano e faltou dois dias no hospital. A médica do trabalho perguntou quando tinha sido o último descanso de verdade. Ela não soube responder com uma data.
O segundo estrago é o que ela diz de si mesma. Simone repete que "não é de descansar", como quem informa o tipo sanguíneo. A frase protege: se ela não é de descansar, ninguém tirou nada dela.
O terceiro estrago desce pra Manuela, que tem nove anos. No último janeiro, a menina brincou de hospital com as bonecas e, quando uma delas saiu de férias, mandou a boneca limpar a casa. Aos nove anos, Manuela já sabe o que férias de mulher querem dizer.
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