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“Não preciso de nada, gente, sério”, disse Cláudia na cozinha da irmã, Rosângela, em Joinville, na noite de 14 de março de 2023, enquanto cortava o bolo de fubá dos 50 anos dela.
Dez dias antes, o marido, Valdir, tinha perguntado o que ela queria ganhar. Os dois filhos perguntaram por mensagem. A resposta foi a mesma pros três, e o grupo “Família Mattos” combinou o resto sem ela. Ninguém insistiu, porque ela tinha dito a mesma frase em todos os aniversários desde os 40.
No dia, a caixa veio embrulhada em papel dourado. Dentro, um ferro de passar a vapor, prateado, com base antiaderente e cabo giratório, com a nota fiscal colada no fundo “pra caso precise trocar”.
Cláudia agradeceu, passou a mão na caixa e guardou o ferro na lavanderia. O antigo ainda funcionava. Ela estreou o novo na segunda-feira, nas camisas do Valdir, e achou bom.
Em março de 2024, ela repetiu a frase na mesma cozinha. Ganhou um conjunto de 24 potes de vidro com tampa de bambu. Os potes foram direto pro armário de cima da pia, com arroz, feijão e farinha.
Em março de 2025, aos 52, a pergunta veio de novo, agora da nora, Bianca. Cláudia respondeu igual. Ganhou um aspirador vertical sem fio, com três bocais e suporte de parede.
Naquela noite, depois de lavar a louça da festa, Cláudia sentou no degrau da lavanderia. Na prateleira, as três caixas, guardadas porque ela guarda caixa de tudo, formavam uma pilha: ferro, potes, aspirador.
Nenhum dos três presentes era ruim. Os três tinham sido escolhidos com cuidado, pesquisados em site de comparação de preço, pagos à vista. E nenhum dos três era pra ela.
A pilha tinha uma lógica, e Cláudia levou meia hora pra enxergar. Quando ela não diz o que quer, a família compra o que a vê fazendo. A conta começou ali, no verso de uma fatura de luz.
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