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Renata Albuquerque Siqueira abriu a planilha de despesas da casa no notebook da cozinha, depois do jantar. A planilha existia desde o casamento com Fábio, em 2014, e tinha uma aba para cada mês, com as contas em ordem de vencimento.
Ela criou uma coluna nova e marcou com um X todo gasto ligado a aprender alguma tarefa: aula, curso, material, inscrição. Depois somou os últimos 12 meses.
O QUE A PLANILHA MOSTROU
A natação do Davi somava R$ 3.120 no ano. A aula de violão da filha mais velha, Lívia, de 14 anos, custava R$ 180 por mês. O curso de inglês do Fábio, que ela pesquisou e matriculou, aparecia em três parcelas de R$ 400.
Havia ainda o reforço de matemática da Lívia em março, a colônia de férias de robótica do Davi em julho e o curso de cuidadora que ela pagou para a mãe, dona Sueli, depois da aposentadoria.
Somou R$ 7.940 em aprendizados no ano. Nenhuma linha estava no nome dela.
Ela sabia o preço de cada aula da casa. Não sabia o preço da própria. |
Renata conferiu os dois anos anteriores para ter certeza. O desenho se repetia. Em 2024, ela tinha pesquisado um curso de fotografia de quatro sábados por R$ 350 e deixado a aba aberta no navegador por três semanas, até o link expirar.
Em 2025, salvou no celular o contato de uma professora de natação para adultos, indicada por uma colega da cooperativa. Nunca mandou mensagem. O contato continuava na agenda, com o nome “Natação, ver depois”.
Ela notou um segundo padrão, mais incômodo. Todas as matrículas dos outros tinham saído na primeira semana em que ela soube da vaga. As dela ficavam em espera, sempre com o mesmo motivo guardado na cabeça: quando sobrar dinheiro, quando sobrar horário.
O horário existia. A turma de adultos começava no minuto exato da turma do Davi, na piscina onde ela já passava duas noites por semana sentada. E os R$ 210 custavam menos do que a mensalidade do filho, paga por ela sem pensar.
No trabalho, Renata negociava contrato de saca de café com fornecedor do norte do Paraná e fechava compra de seis dígitos numa tarde. Em casa, uma inscrição de R$ 210 no nome dela esperava dois anos por aprovação, e a única pessoa capaz de aprovar era ela.
Antes de dormir, escreveu num post-it e colou na geladeira: por que a matrícula dos outros sai na hora e a minha nunca sai?
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Renata Albuquerque Siqueira achou a resposta em Cambé, cidade vizinha a Londrina, onde passou a infância. O pai, Osvaldo, era motorista de ônibus intermunicipal. A mãe, Sueli, era merendeira numa escola estadual e cuidava dos três filhos.
Em casa, o dinheiro de aprender tinha destino certo. O irmão mais velho, Rogério, fez curso técnico de eletrônica pago com o salário da mãe. A irmã do meio, Patrícia, teve aula de datilografia. Para Renata, a mãe dizia: “Ainda dá tempo”.
O DIA DA BORDA
Aos 12 anos, num domingo de calor, a família foi ao clube dos funcionários da empresa de ônibus. Renata ficou na parte rasa, escorregou no azulejo da borda e afundou. Quem a puxou foi o salva-vidas, um rapaz chamado Jairo.
Na volta para casa, Sueli prometeu uma aula de natação para o verão seguinte. A aula nunca chegou: naquele ano o Rogério precisou de uniforme e ferramentas para o estágio, e a vaga de Renata voltou para a lista do depois.
Ela aprendeu duas lições naquele verão. A primeira, a de que a água era perigosa. A segunda, mais funda, a de que o aprendizado dela era o gasto cortado primeiro quando o dinheiro faltava.
“Uma mulher precisa ter dinheiro e um teto todo seu se pretende escrever ficção.” Virginia Woolf, Um Teto Todo Seu, 1929 |
No ensaio, Woolf argumenta que as mulheres escreveram pouco ao longo da história porque nunca tiveram renda nem tempo próprios. Na casa de Cambé, Sueli tinha salário, mas não tinha verba nem hora para si: tudo seguia para a formação dos filhos.
Sueli só fez um curso aos 61 anos, quando Renata pagou a formação de cuidadora. Mesmo ali, o curso servia para cuidar de outra pessoa, a vizinha acamada que a contratou logo depois.
Renata repetiu o desenho sem perceber. Casada, organizou primeiro o inglês do Fábio, depois a escola dos filhos, depois a mãe. A própria vaga ficou na mesma lista de quando tinha 12 anos, com o mesmo argumento: ainda dá tempo.
A mãe dizia que ainda dava tempo. Renata passou 26 anos acreditando. |
A ferida não aparecia no dinheiro, disponível, nem no horário, coincidente. Aparecia no segundo em que ela pensava em se inscrever e ouvia, por dentro, a voz da mãe no carro de volta do clube.
Naquela semana, Lívia viu o post-it na geladeira e perguntou do que se tratava. Renata contou da borda, do Jairo e do uniforme do Rogério. A filha respondeu com uma frase que a mãe copiou embaixo do post-it: “Então você está guardando a vaga até hoje”.
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