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O exercício desta semana não pede discurso sobre autoestima nem briga sobre barulho em apartamento. Pede dois movimentos pequenos e mensuráveis, que cabem em cinco manhãs comuns.
O primeiro movimento vale para as próximas cinco manhãs. A regra tem uma linha: uma música escolhida por você, no volume que você escolheu, tocada até o fim, sem a mão na barra quando alguém entrar. Uma música só, três ou quatro minutos, e a porta da cozinha aberta como sempre. Rosana escolheu o mesmo forró na primeira manhã e mudou a faixa na terceira, porque a primeira escolha foi a que a filha tinha posto na playlist.
No papel do armário, uma linha por manhã com três informações: o nome da música, se alguém entrou durante ela e o que a pessoa disse. Rosana registrou cinco manhãs em sete dias, e alguém entrou em três delas. O marido cantarolou o refrão na segunda manhã e seguiu pro banheiro. A filha perguntou o nome da faixa na quarta e pediu o link. A irmã não comentou nada.
O segundo movimento é a frase curta, dita uma vez, de manhã, com horário e território nomeados: "quando eu estiver costurando na cozinha, até o meio-dia, a música é minha". Pedido de tamanho definido, com hora de começar e hora de acabar, porque pedido sem contorno vira negociação diária e negociação diária cansa mais que ceder.
Cinco manhãs, uma música inteira por manhã, três entradas de gente na cozinha e um refrão cantarolado por engano pelo marido. |
Prepara-se para uma reação previsível. Alguém vai dizer "nossa, hoje tá animada". Responde curto, sem subir o tom: "gosto dessa música". Frase fechada, sem justificativa, sem piada de volta e sem oferecer trocar a faixa, porque a piada abre rodada e a rodada devolve a escolha para quem entrou.
Prepara-se também para um desconforto seu nos primeiros segundos, que é normal e passa. Ouvir a chave girar com a música alta dá uma sensação física de flagrante, como se você estivesse fazendo algo escondido em plena luz. Rosana travou a mão duas vezes na primeira manhã e chegou a pegar o celular antes de largar de volta na bancada. Na segunda manhã a mão ficou na tesoura. Na quarta, ela aumentou o volume um dedo depois que a filha saiu.
O que ela ganhou cabe em quatro linhas do papel. Montou uma playlist própria de vinte e duas faixas em seis dias, a primeira que leva escolha dela desde que a filha nasceu. Passou a responder o nome de uma música quando perguntam o que ela quer ouvir no carro. Descobriu que o podcast de novela antiga rende conversa com a irmã, que acompanha o mesmo há um ano em silêncio parecido. As abaixadas caíram de quatorze para quatro numa semana de anotação, e as quatro que sobraram tiveram motivo escrito ao lado: telefone no viva-voz e panela no fogo alto.
Teste nas próximas cinco manhãs, com o papel na porta do armário: escolha uma música sua, ponha no volume que você quer, deixe tocar até o fim com a porta aberta e mantenha a mão longe do celular quando alguém entrar. Anote uma linha por manhã com o nome da faixa, quem entrou e o que a pessoa falou. Na sexta manhã, conte quantos pedidos de silêncio apareceram nas cinco linhas e diga a frase de horário e território para a casa. O resultado esperado é zero pedidos, no máximo um comentário por manhã, e o nome de pelo menos três músicas suas escritas de memória num papel que há uma semana estaria em branco.
"Quantas vezes hoje a sua mão abaixou um som que você escolheu, e quantas dessas vezes alguém pediu?"
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