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O violão de Helena esperou 9 anos em Blumenau

A carta pra quem deixou o próprio talento num endereço antigo e promete buscar na próxima visita.

Violão numa capa preta encostado atrás de uma porta de madeira

A capa preta atrás da porta do quarto antigo.

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Na porta da casa de Blumenau, num domingo de setembro, dona Marlene Duarte segurou o portão e disse à filha: “Leva o violão desta vez, Helena, está ocupando o armário”. Helena Duarte Moraes respondeu do carro, já com o cinto afivelado: “Na próxima, mãe. Hoje não cabe”.

Cabia. O porta-malas levava uma caixa de pinhão, duas sacolas de roupa da filha e um pote de doce de abóbora. O banco de trás tinha a cadeirinha da Clara, de seis anos, e um espaço vazio junto dela, do tamanho exato de uma capa de violão.

Helena tem 36 anos e é enfermeira da UTI de um hospital em Joinville. Trabalha em plantão de 12 horas, três vezes por semana. Uma vez por mês, pega a BR-101 com o marido, Tiago, e a filha, e passa o domingo na casa onde cresceu.

O violão está lá desde 2017, ano do casamento. É um Giannini de tampo claro, comprado aos 15 anos com o dinheiro de presente de aniversário e de seis meses dando aula de reforço para os vizinhos. Fica numa capa preta de náilon, encostado atrás da porta do quarto antigo dela.

Na mesma visita de setembro, antes do almoço, Helena abriu a porta do quarto para pegar um cobertor. A capa estava no lugar de sempre. Ela tocou o zíper, ouviu a mãe chamar da cozinha e fechou a porta sem abrir.

Na estrada, Clara perguntou do banco de trás se a mãe sabia tocar aquele violão grande da vó. Tiago riu e disse que sabia, e muito. Helena ficou olhando a pista e não acrescentou nada.

Em casa, depois de pôr a filha para dormir, ela abriu a agenda do celular. Queria saber quantas vezes tinha prometido o violão para a próxima visita. As viagens a Blumenau estavam todas lá, com o mesmo nome: “Mãe”.

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I  O Padrão

Cinquenta e quatro domingos

Helena Duarte Moraes contou as viagens marcadas na agenda desde o casamento, em 2017. Deu 54 domingos em Blumenau. Em nenhum deles o violão entrou no carro na volta.

Ela não tinha anotado as promessas, mas lembrava do roteiro. A mãe falava do armário, ela dizia “na próxima” e alguém mudava de assunto. A frase tinha virado parte da despedida, como o beijo no portão e o pote de comida embrulhado em pano de prato.

O QUE VOLTOU NO PORTA-MALAS

Para entender o tamanho do adiamento, Helena listou o que tinha trazido de Blumenau nesses nove anos. A lista foi longa. Trouxe a máquina de costura da avó, desmontada em duas caixas. Trouxe o berço de madeira, quando Clara nasceu, e depois devolveu.

Trouxe os álbuns de foto da infância, um aquário de 40 litros para a filha e uma poltrona de vime, amarrada no teto do carro com corda de varal. Nenhum desses objetos coube com facilidade. Todos couberam.

O violão pesa menos de dois quilos e mede pouco mais de um metro. Cabe no banco de trás com o cinto passado por cima da capa.

O carro levou uma poltrona de vime. Não levou dois quilos de violão.

Helena reparou num segundo desenho, mais difícil de admitir. Em Joinville, o apartamento tinha espaço para o talento dos outros. A estante da sala guardava os troféus de corrida do Tiago. A parede do corredor tinha os desenhos da Clara, emoldurados por ela mesma.

O que era dela ficava em outro endereço. O violão, o caderno de cifras (as letras de música com os acordes escritos em cima) e a pasta com as três canções que compôs aos 17 anos estavam todos no quarto antigo, em Blumenau.

No hospital, Helena era conhecida por resolver na hora. Trocava escala de colega, enfrentava médico apressado e decidia em segundos o que fazer com paciente instável. Na própria casa, uma decisão de dois quilos esperava nove anos.

Antes de dormir, ela escreveu no bloco de notas do celular: o que eu ganho deixando o violão lá?

II  A Ferida

O conselho do pai em 2008

Helena achou a resposta na mesa da cozinha de Blumenau, em 2008, quando tinha 18 anos. Ela tocava desde os 13, cantava no grupo da escola e tinha passado na prova específica (o teste prático de música exigido pela faculdade) de um curso de licenciatura em música em Florianópolis.

O pai, seu Arno Duarte, era torneiro mecânico numa fábrica têxtil da cidade. Ouviu a notícia em silêncio e respondeu com palavras guardadas por Helena até hoje: “Música é bonito, filha, mas não paga aluguel”.

A MATRÍCULA TROCADA

Na mesma semana, Helena se inscreveu no vestibular de enfermagem. Passou. A mãe ficou aliviada e comprou uma capa nova para o violão, a preta de náilon, com a frase: “Agora ele fica guardado para os fins de semana”.

Durante a faculdade, o violão ainda saía da capa. Helena tocava em aniversário de colega e em luau de formatura. Depois vieram os plantões, a residência e o emprego no hospital. Os fins de semana encolheram, e o instrumento passou meses sem ser afinado.

Quando casou, a mudança para Joinville foi decidida por ela, com lista e etiqueta em cada caixa. O violão não entrou na lista. Na época, Helena disse a Tiago que o apartamento era pequeno. Hoje sabe a razão verdadeira: levar o violão era assumir de novo o que tinha desistido de ser.

“Vai carregar bandeira. Cargo muito pesado pra mulher, esta espécie ainda envergonhada.”

Adélia Prado, Com Licença Poética, Bagagem, 1976

No poema, Adélia aceita o peso da vocação de escritora sem pedir licença a ninguém, depois de anos dando aula e criando filhos em Divinópolis. A bandeira dela era a palavra. A de Helena era um violão de tampo claro.

Deixado em Blumenau, o instrumento não cobrava nada. Ninguém perguntava se ela ainda tocava, ninguém esperava ouvir. O talento ficava protegido do julgamento, e também da prática.

Guardado longe, o violão não pedia nada. Por esse motivo ficava lá.

Helena reconheceu o gesto em outras mulheres da família. A mãe bordava toalhas de enxoval e parou de bordar quando os filhos nasceram. A agulha e os riscos de bordado continuavam numa lata de biscoito, no mesmo armário onde estava o violão.

Na visita de outubro, Helena perguntou à mãe sobre a lata. Dona Marlene respondeu que um dia voltava a bordar, quando tivesse tempo. Tinha 68 anos e estava aposentada havia dez.

 

Quem banca a edição de hoje

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III  O Resgate

As cordas novas de Helena

Helena Duarte Moraes decidiu tratar o violão como tratava um paciente transferido: com data, responsável e anotação no prontuário. Marcou na agenda a visita seguinte com outro nome. No lugar de “Mãe”, escreveu “Mãe e violão”.

No domingo marcado, chegou a Blumenau e foi direto ao quarto antigo, antes do café. Abriu a capa. As cordas estavam oxidadas, duas delas soltas, e a tampa tinha uma mancha clara de umidade perto do cavalete (a peça de madeira colada no corpo do violão, onde as cordas se prendem).

TRÊS PASSOS PARA TRAZER O TALENTO DE VOLTA

1. Buscar com data: escrever na agenda o dia exato da retirada, com o nome do objeto no título do compromisso, e avisar quem mora na casa antiga.

2. Dar um lugar visível: escolher em casa um ponto onde o instrumento, o material ou o caderno fique à vista, fora de armário e de caixa fechada.

3. Medir o retorno: anotar na primeira semana quantos minutos usou o que trouxe e o que conseguiu fazer de novo pela primeira vez.

Tiago passou o cinto de segurança por cima da capa no banco de trás. Clara viajou com a mão em cima do violão. Dona Marlene acenou do portão e disse que o armário ia ficar vazio.

Em Joinville, Helena levou o instrumento a um luthier (o artesão que constrói e conserta instrumentos de corda) do centro, seu Osni. Ele trocou as cordas, ajustou o braço e cobrou R$ 120. Disse que a madeira estava boa e que violão parado perde a voz, não a madeira.

O violão ganhou um suporte de chão na sala, entre a estante dos troféus e a janela. Na primeira noite, Helena demorou 20 minutos para lembrar a sequência de acordes de uma canção dela, a segunda das três da pasta.

Nove anos atrás da porta. A primeira música voltou em 20 minutos.

Os dedos da mão esquerda doeram por quatro dias. Na primeira semana, ela anotou 95 minutos de violão, em cinco noites, sempre depois do jantar. Clara pediu para aprender e ganhou a primeira aula no tapete da sala.

A canção completa saiu no sábado seguinte, com duas estrofes erradas. Helena gravou no celular e mandou para a mãe. Dona Marlene respondeu com um áudio de três segundos, em que só se ouvia uma risada, e depois uma foto: a lata de biscoito aberta em cima da mesa da cozinha, com a agulha e os riscos de bordado.

“Qual talento seu está guardado hoje num endereço onde você já não mora?”

Teste hoje: escreva o nome de um objeto do seu talento que ficou em outra casa e marque na agenda o dia da retirada, com o nome do objeto no título. Depois de trazer, conte os minutos de uso na primeira semana. O resultado esperado é um número maior do que zero, anotado até o domingo seguinte.

 
 
Quiz da edição

Quantas visitas a Blumenau Helena contou na agenda desde o casamento, em 2017?

A36 visitas
B40 visitas
C54 visitas
D68 visitas

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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