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Alguém pergunta como você está. E antes de qualquer coisa passar por dentro de você, a resposta já saiu: "tô bem". Duas sílabas, prontas, macias, no reflexo. Você nem consultou o corpo. A frase se antecipou a você.
E ninguém desconfia de nada. Pelo contrário. As pessoas gostam da mulher que está sempre bem. Chamam de leve, de tranquila, de fácil de conviver.
Só que embaixo dessas duas sílabas tem um dia inteiro que ninguém viu. Uma noite mal dormida, uma preocupação que você carrega sozinha, um cansaço que você nem se deu ao direito de sentir por completo. Tudo empacotado num "tô bem" que sai antes de você respirar.
Hoje a carta chega pra nomear esse hábito direito. Tô bem não é leveza. É a forma mais educada de você não aparecer. Você aprendeu, muito cedo, que a resposta certa era a que não incomodava, e transformou a pergunta mais banal do mundo numa oportunidade de sumir sem que ninguém percebesse.
O "tô bem" automático não mente pros outros. Ele mente pra você primeiro. Porque a frase sai tão rápido que nem você chega a saber como estava de verdade. E o que não é sentido, não é cuidado.
I · O PADRÃO
A resposta que chega antes de você
Repara no que acontece no instante exato em que alguém pergunta como você está.
Não tem pausa. Não tem uma checagem interna rápida, um "deixa eu ver como eu tô". A resposta já vem montada, "tô bem", "tá tudo certo", "tranquilo", como se fosse um botão apertado por fora. A pergunta entra por um ouvido e a resposta sai pela boca sem passar pelo meio, sem passar por você.
Você virou perita nesse atalho. Domina o sorriso que acompanha a frase, o tom leve que desarma qualquer preocupação alheia, a rapidez que faz a conversa seguir pra outro assunto antes que alguém insista. Tudo calibrado pra não gerar uma segunda pergunta. Porque a segunda pergunta, aquele "não, sério, como você tá?", é justamente a que você não sabe responder.
E o efeito colateral chega desse jeito enganoso: você não sente que está escondendo nada. Sente que está sendo prática, educada, generosa até. Poupando o outro de um peso que é seu. Chama o silêncio de não fazer drama, de não sobrecarregar ninguém, de ser uma pessoa leve de estar por perto.
Só que existe uma diferença enorme entre estar bem e dizer que está bem no automático. A primeira é um estado que você sentiu. A segunda é um reflexo que te dispensa de sentir. E quanto mais você usa o reflexo, menos você sabe o estado.
Faz o teste. Da próxima vez que alguém perguntar como você está, segura a resposta por dois segundos antes de deixar sair. Repara no incômodo que esses dois segundos geram. Esse incômodo é o tamanho da distância entre a frase que sai pronta e a verdade que você nunca deixa chegar até a boca.
II · A FERIDA
Quando dizer que estava bem era mais seguro
Vamos ser honestas?
Esse "tô bem" automático não nasceu de leveza. Ele nasceu de um cálculo que você fez ainda muito cedo, e que faz tanto sentido pra idade em que nasceu que virou parte de você.
Talvez você tenha crescido numa casa em que o seu não estar bem não cabia. A mãe já estava esgotada demais pra segurar a sua dor também. O pai não sabia o que fazer com lágrima, então lágrima virava constrangimento, ou pior, virava bronca. Você aprendeu rápido: dizer que estava bem era o que mantinha a paz, e a paz valia mais que a sua verdade.
Ou talvez o seu não estar bem já tenha sido usado contra você. Você abriu uma vez, mostrou a fissura, e o que voltou foi minimização, "imagina, não é nada disso", ou julgamento, "você é muito sensível". Então o corpo tirou a conclusão óbvia: mostrar como estou de verdade dói mais do que engolir. Melhor dizer que estou bem e guardar o resto.
Nos dois casos, o corpo decorou a mesma lição: a verdade sobre como você está é um risco, o "tô bem" é o abrigo. Você construiu uma resposta padrão que nunca falha, que nunca gera segunda pergunta, que nunca te expõe. E funcionou. Protegeu. Só que aquilo que te protegeu virou a mordaça gentil que hoje separa você de qualquer pessoa que gostaria de te ver de verdade.
Você aprendeu que dizer "tô bem" mantinha todo mundo confortável. Ninguém te contou que o preço era você nunca saber como estava. |
Tem uma camada mais funda ainda. Pra alguém te conhecer de verdade, você precisa deixar ela ver como você está, inclusive nos dias em que não está bem. O "tô bem" automático fecha essa porta antes mesmo dela se abrir. Então as pessoas convivem com uma versão sua que está sempre bem, e essa versão, por mais querida que seja, não é você. É o reflexo que aprendeu a te substituir.
O preço aparece justo onde deveria ter mais colo. Parceiros que juram que está tudo tranquilo porque você nunca disse o contrário. Amigas que se surpreendem quando descobrem, tarde demais, o quanto você estava sozinha na sua dor. E você, no meio disso tudo, cada vez mais convencida de que sentir de verdade é um luxo que a sua vida não comporta.
III · O RESGATE
Deixar a resposta atravessar o corpo
A boa notícia: você não precisa despejar a sua vida inteira em cima de quem pergunta como você está pra sair disso. Precisa só devolver ao seu corpo o direito de responder antes da frase pronta.
O primeiro movimento é o mais simples e o mais difícil: criar uma pausa. Da próxima vez que alguém perguntar como você está, não deixa o "tô bem" sair na hora. Respira uma vez. Deixa a pergunta descer até o peito, até a barriga, e pergunta pra si mesma, de verdade: como eu tô agora? Só essa pausa já quebra o automático e devolve você pra dentro da própria resposta.
Depois, testa uma verdade pequena, de baixo risco, com alguém seguro. Não é o desabafo inteiro. É trocar o "tô bem" reflexo por um "hoje tô meio cansada" honesto, sem justificar, sem enfeitar com um "mas tá tudo certo" logo em seguida. Observa o que acontece. Na maior parte das vezes, a pessoa não recua. Ela chega mais perto.
Vai parecer perigoso deixar a verdade aparecer. Deixa esse medo vir, ele é antigo e faz sentido pra época em que nasceu. Mas você não está mais naquela casa em que a sua dor não cabia. Hoje um "não tô tão bem hoje" não te deixa desamparada no mundo. No máximo, deixa alguém saber onde você está de verdade, o que, ao contrário do que o reflexo te ensinou, aproxima em vez de afastar.
Aprende também a diferença entre estar bem e responder que está bem. Estar bem é um estado que você conferiu por dentro. Responder que está bem no automático é um botão que te dispensa de conferir. A pergunta que separa os dois é simples: se eu parasse pra sentir agora, a resposta ainda seria essa? Se você não sabe, é porque a frase saiu sem você. E o que sai sem você não te representa.
Pratica também sentir sem precisar contar pra ninguém. Nem todo "tô bem" precisa virar confidência. Às vezes o resgate é só interno: perceber, no meio do dia, que você está tensa, ou triste, ou no limite, e deixar esse estado ser verdade dentro de você mesma, sem apagar com a frase pronta. Porque o que você não deixa nem você sentir, você abandona duas vezes.
Duas coisas vão acontecer quando você começar essa troca. Primeira: algumas pessoas vão estranhar a mulher que já não está sempre bem, porque se acostumaram com a versão leve e disponível. Deixa. Quem só suportava a sua versão sem peso nunca soube conviver com você inteira. Segunda: alguém vai se aproximar mais nesse momento exato, porque finalmente encontrou uma pessoa real pra estar do lado, e não uma resposta pronta.
Aos poucos você entende uma coisa que muda tudo: a leveza que você diz querer não mora num "tô bem" que sai sem você. Ela mora na paz de não precisar mentir sobre como você está, nem pros outros, nem pra você.
Você não precisa estar bem o tempo todo pra ser fácil de amar.
Tô bem não é leveza. É a forma mais educada de você não aparecer.
Tô bem não é leveza. É a forma mais educada de você não aparecer.
Com ternura, Resgate do Feminino
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