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O sutiã 42 de 2016

A carta pra quem usa o número de sutiã de antes dos filhos e vê a marca vermelha embaixo do seio toda noite.

Fita métrica enrolada sobre um sutiã bege antigo numa penteadeira

A fita métrica na cabine 3, num sábado de setembro.

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Na cabine 3 da loja Lingerie Aurora, no Shopping Mueller, em Joinville, a vendedora Rosana Teixeira passou a fita métrica pelas costas da cliente e disse, sem tirar os olhos dos números: “Você está usando dois números a menos na banda, a faixa elástica que passa por baixo do seio”.

A cliente era Juliana Prates Moreira, professora de geografia de 38 anos, mãe de Bento, de 7, e de Alice, de 4. Tinha entrado na loja num sábado de setembro para comprar meia-calça para a filha e aceitou a medição só porque a fila do caixa estava parada.

O sutiã que ela vestia naquele dia era um 42 bege, comprado em 2016, ano do casamento, quando ainda não havia gestação nenhuma naquele corpo. Na gaveta havia mais três iguais, de cores diferentes, todos 42, todos da mesma loja de Blumenau.

Toda noite, às nove, quando tirava a peça para dormir, Juliana via a linha vermelha embaixo dos seios. Em alguns dias, o aro, a haste de metal que sustenta o bojo, deixava o próprio desenho gravado na pele. Ela passava creme, apagava a luz e vestia a mesma peça na manhã seguinte.

Achava a marca normal. A mãe tinha a mesma, a tia também, e a avó reclamava das alças cavando o ombro nos almoços de domingo, como quem comenta o tempo.

Em nove anos, Juliana tinha trocado o colchão, o carro, o sofá da sala e o número dos sapatos dos dois filhos tantas vezes que perdeu a conta. O dela ficou parado no 42, como se o corpo tivesse sido medido uma única vez, aos 29 anos, e o resultado valesse para a vida inteira.

Rosana anotou num papel de bloquinho: banda 46, bojo C. Juliana riu e disse que só podia haver erro na fita.

Não havia. O corpo dela carregou duas gestações, amamentou por quase três anos somados e seguia, todo dia, dentro de um molde costurado para outra mulher. O papel do bloquinho foi para a carteira, e a primeira prova veio da gaveta de casa.

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I  O Padrão

A marca das nove da noite

Juliana Prates Moreira abriu a gaveta naquela mesma noite e contou as peças. Eram quatro sutiãs 42, o mais novo de 2019, comprado pela internet porque bastava repetir o número da etiqueta.

Ela tentou lembrar quando tinha se medido pela última vez. A resposta foi 2016, numa loja do centro de Blumenau, três semanas antes do casamento. Desde então, toda compra seguiu a etiqueta da peça velha.

Na primeira gestação, de Bento, em 2018, usou sutiãs de amamentação emprestados da cunhada, sem conferir o tamanho. Na segunda, de Alice, em 2021, comprou dois tops sem aro na farmácia. Quando parou de amamentar, em 2022, voltou para a gaveta antiga, porque as peças pareciam inteiras.

O QUE A GAVETA REGISTRA

Ela decidiu observar por sete noites. Antes do banho, olhava a pele no espelho e anotava no caderno de planejamento de aula três dados: se havia marca vermelha, se o aro tinha deixado desenho e se a pele ardia.

O resultado coube numa página. Marca vermelha nas sete noites. Desenho do aro em cinco. Ardência em três, justamente nos dias em que deu aula em pé por mais de quatro horas seguidas. Nas duas noites de fim de semana, com menos horas de sutiã, a marca sumia antes da meia-noite.

Juliana também passou a contar os ajustes do dia. Puxar a banda para baixo quando ela subia nas costas. Tirar o aro de cima do seio no banheiro da escola, entre uma turma e outra. Soltar a alça que escorregava. Numa única terça-feira, contou onze ajustes.

O corpo mudou duas vezes. A etiqueta, nenhuma.

Na sala dos professores, comentou o caderno com a colega Patrícia Neves, de matemática. Patrícia, mãe de três, disse que usava o número da faculdade e que a marca era o preço de ter peito. Duas outras professoras na mesa concordaram com a cabeça.

Juliana reparou que nenhuma das três sabia o próprio número atual. Sabiam o número antigo, o da etiqueta, e o repetiam com a segurança de quem cita o próprio CPF.

A conta do caderno mostrou ainda um detalhe que ela não esperava. Os tops sem aro da farmácia, comprados em 2021, eram as únicas peças da gaveta que nunca deixavam marca. Ela os usava só em casa, porque achava que não davam sustentação para a sala de aula.

Ou seja, a peça confortável ficava escondida, e a que machucava saía para trabalhar todos os dias. Juliana fechou o caderno naquela noite com uma anotação na margem: faltava entender por que ela defendia um número que a pele contestava toda noite.

II  A Ferida

O número que ela defendia

A resposta de Juliana Prates Moreira veio devagar, ao longo de duas semanas sem voltar à loja. O 42 nunca tinha sido só medida. Era o número da mulher de 29 anos que corria no calçadão da Beira-Rio três vezes na semana e entrou no vestido de noiva sem ajuste.

Aceitar o 46 significava aceitar que aquela mulher tinha ido embora. Juliana dizia a si mesma que o motivo da demora era dinheiro, que quatro sutiãs novos custariam caro e que os velhos ainda funcionavam. O caderno das sete noites dizia o contrário.

A HERANÇA DO APERTO

A avó dela, dona Iracema, costureira em Gaspar, apertava cinta nas filhas antes de festa de casamento. A mãe de Juliana contava que, aos 15 anos, voltou de uma festa com a costela marcada e ouviu da avó que mulher bonita aguenta.

Juliana cresceu ouvindo que roupa folgada era desleixo. Quando a calça apertava, a ordem da casa era fechar a boca, nunca trocar a calça. O corpo devia voltar ao molde; o molde nunca ia até o corpo.

“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher.”

Simone de Beauvoir, O segundo sexo, 1949

Beauvoir escreveu sobre como a sociedade ensina à menina, passo a passo, o que uma mulher deve ser. Na casa de Juliana, a aula veio pela roupa: a peça que aperta ensinava, todo dia, que desconforto fazia parte de estar arrumada.

O custo apareceu no humor. Juliana notou no caderno que, nos dias de ardência, perdia a paciência com Bento na hora do dever de casa, entre as seis e as sete da noite, quando o aro já tinha passado onze horas no mesmo lugar.

Apareceu também na postura. A banda estreita subia nas costas, o peso do seio descia para as alças, e o ombro direito, o da bolsa, ganhou um sulco. A fisioterapeuta da escola, Carla Bittencourt, mostrou a marca no espelho numa avaliação de rotina em agosto e perguntou desde quando Juliana usava aquele tamanho.

Juliana respondeu que desde antes dos filhos. Contou que trocava o sapato de Bento e de Alice a cada seis meses sem pensar duas vezes e travava diante de um sutiã de oitenta reais.

Carla respondeu numa frase: “Você acompanha a troca de quem está crescendo, só que também mudou, e ninguém marca a sua altura na porta”.

Ninguém marca na porta a altura da mãe.

A frase da fisioterapeuta ficou com Juliana pelo resto da semana. Na porta interna do guarda-roupa havia, a lápis, as marcas de altura de Bento e Alice desde que cada um aprendeu a ficar em pé. Nenhuma marca era dela.

 

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III  O Resgate

A fita métrica na cabine 3

Num sábado de outubro, Juliana Prates Moreira voltou à Lingerie Aurora com o papel de Rosana e o caderno das sete noites. Experimentou nove modelos em quarenta minutos. Saiu com dois sutiãs 46C, um bege e um preto, e um top sem aro firme o bastante para dar aula.

Rosana explicou o teste que a loja usa na cabine. A banda certa fica reta nas costas, na altura do bojo, e deixa passar dois dedos por baixo. O aro abraça o seio sem pousar em cima dele. A alça só equilibra; quem carrega o peso é a banda.

TRÊS PASSOS PARA TIRAR O CORPO DO MOLDE ANTIGO

1. Medir com fita, na loja ou em casa, a volta logo abaixo do seio e a volta na parte mais cheia, e anotar os dois números com a data.

2. Separar na gaveta toda peça comprada antes da última grande mudança do corpo: gestação, amamentação, cirurgia, menopausa ou dez quilos a mais ou a menos.

3. Provar a peça nova no colchete mais largo, porque o elástico cede com as lavagens e os colchetes mais apertados ficam de reserva para os meses seguintes.

Na primeira semana com o 46C, Juliana repetiu o caderno. Marca vermelha em uma noite de sete, a do dia em que vestiu um 42 antigo por falta de peça lavada. Desenho do aro em nenhuma. Ardência em nenhuma. Ajustes na terça-feira: dois.

Na terça seguinte, ela deu cinco aulas sem levar a mão às costas.

Os quatro sutiãs 42 foram para uma sacola. Ela pensou em doar e desistiu, porque elástico cedido e aro torto não servem a ninguém. Levou tudo ao ponto de coleta de tecidos do Shopping Mueller e guardou só um, o bege de 2016, na caixa do vestido de noiva.

Patrícia Neves pediu o endereço da loja na sala dos professores. Foi num sábado com a filha mais velha, de 17 anos, e as duas saíram medidas. Voltou contando que a banda dela também tinha subido dois números desde a faculdade.

Juliana colou o papel de Rosana na porta interna do guarda-roupa, ao lado das marcas de Bento e Alice, e escreveu a lápis embaixo: “Mãe, outubro de 2026, 46C”. Pela primeira vez, a porta registra a medida dela também.

“Qual peça do seu armário ainda veste a mulher que você era antes da última mudança do seu corpo?”

Teste hoje à noite: antes do banho, olhe no espelho a pele embaixo do seio e nas costas, onde passa a banda. Anote por sete noites se há marca vermelha, desenho do aro ou ardência. Se a marca aparecer em quatro noites ou mais, o resultado esperado é um sinal claro de que a etiqueta ficou para trás, e cinco minutos com uma fita métrica dão o número novo.

 
 

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Qual foi a medida de banda que a vendedora Rosana anotou no papel para Juliana?

A42, a mesma da etiqueta do sutiã antigo
B44
C46
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6 avaliações · 3 leitores · 26/09 a 09/10

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1 leitor escolheu As três peças no provador na urna de 27/09. Saiu em 30/09, na carta 125.

 
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