|
Juliana Prates Moreira abriu a gaveta naquela mesma noite e contou as peças. Eram quatro sutiãs 42, o mais novo de 2019, comprado pela internet porque bastava repetir o número da etiqueta.
Ela tentou lembrar quando tinha se medido pela última vez. A resposta foi 2016, numa loja do centro de Blumenau, três semanas antes do casamento. Desde então, toda compra seguiu a etiqueta da peça velha.
Na primeira gestação, de Bento, em 2018, usou sutiãs de amamentação emprestados da cunhada, sem conferir o tamanho. Na segunda, de Alice, em 2021, comprou dois tops sem aro na farmácia. Quando parou de amamentar, em 2022, voltou para a gaveta antiga, porque as peças pareciam inteiras.
O QUE A GAVETA REGISTRA
Ela decidiu observar por sete noites. Antes do banho, olhava a pele no espelho e anotava no caderno de planejamento de aula três dados: se havia marca vermelha, se o aro tinha deixado desenho e se a pele ardia.
O resultado coube numa página. Marca vermelha nas sete noites. Desenho do aro em cinco. Ardência em três, justamente nos dias em que deu aula em pé por mais de quatro horas seguidas. Nas duas noites de fim de semana, com menos horas de sutiã, a marca sumia antes da meia-noite.
Juliana também passou a contar os ajustes do dia. Puxar a banda para baixo quando ela subia nas costas. Tirar o aro de cima do seio no banheiro da escola, entre uma turma e outra. Soltar a alça que escorregava. Numa única terça-feira, contou onze ajustes.
O corpo mudou duas vezes. A etiqueta, nenhuma. |
Na sala dos professores, comentou o caderno com a colega Patrícia Neves, de matemática. Patrícia, mãe de três, disse que usava o número da faculdade e que a marca era o preço de ter peito. Duas outras professoras na mesa concordaram com a cabeça.
Juliana reparou que nenhuma das três sabia o próprio número atual. Sabiam o número antigo, o da etiqueta, e o repetiam com a segurança de quem cita o próprio CPF.
A conta do caderno mostrou ainda um detalhe que ela não esperava. Os tops sem aro da farmácia, comprados em 2021, eram as únicas peças da gaveta que nunca deixavam marca. Ela os usava só em casa, porque achava que não davam sustentação para a sala de aula.
Ou seja, a peça confortável ficava escondida, e a que machucava saía para trabalhar todos os dias. Juliana fechou o caderno naquela noite com uma anotação na margem: faltava entender por que ela defendia um número que a pele contestava toda noite.
|