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ED 106

O perfil que sobrou

A carta pra quem paga a assinatura de streaming da família inteira e assiste no perfil sem nome, com a fila de recomendação dos outros.

Mulher sozinha no sofá à noite diante da tela de seleção de perfis do streaming

Ela no sofá, o perfil cinza aberto na tela.

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"Pode deixar, eu assisto no que estiver aberto", disse Sirlene à filha, na cozinha do apartamento em Londrina, quando a menina perguntou qual dos perfis era dela.

A conta de streaming da casa tem quatro avatares com nome em cima: Ademir, Júlia, Téo e Rafa, o sobrinho que mora com eles desde a faculdade. O quinto quadradinho está lá desde a instalação, com um boneco cinza e a palavra Perfil escrita em fonte de sistema. É nele que ela senta pra ver televisão todas as noites, das nove e meia às onze.

A assinatura sai do cartão dela. Cinquenta e cinco reais por mês, débito automático, mesmo cartão da conta de luz e do mercado. Foi ela quem escolheu o plano, quem trocou de plano quando aumentou, quem digitou o código de verificação quando o sobrinho quis entrar da casa da namorada.

A fila de recomendação do perfil sem nome é uma bagunça dos outros quatro. Documentário de luta livre no topo, porque o Téo maratonou em maio. Três animações abertas pela metade. Uma série de zumbi que a Júlia largou no quarto episódio. A linha Continue assistindo oferece episódios que ela nunca começou, e o algoritmo, depois de dois anos de uso diário, não sabe uma única preferência dela.

Não é falta de saber mexer. O botão Adicionar perfil está na mesma tela, embaixo, e o processo leva vinte segundos. Ela já criou perfil pro sobrinho, já renomeou o do marido quando ele reclamou que estava escrito Ademir 2.

O que trava mora no tamanho do gesto. Abrir um quadradinho com o nome dela parece tomar um lugar que já está distribuído. Parece pedir atenção pra uma preferência que ninguém pediu pra ouvir. Parece obrigar a família a escolher uma foto, comentar, achar graça. Então ela clica no cinza, que resolve em um toque e não muda nada pra ninguém.

Quando alguém pergunta, a resposta sai pronta: "eu vejo o que estiver passando, não sou de série". A frase é curta, tem cara de característica pessoal, e ninguém investiga uma característica pessoal.

Vale medir esse hábito por sete noites, com o controle na mão e um bloco de anotações ao lado.

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I  O Padrão

Sete noites anotando quem escolheu o que rodou

O trabalho de hoje dura sete noites e ocupa dois minutos por vez. Precisa de um bloco pequeno ao lado do sofá ou das notas do celular. No alto da primeira página escreve a palavra TELA e a data de hoje.

Toda noite, depois que a televisão desliga, você anota três informações sobre o que passou ali. Só o que rodou na tela entra, nada de intenção e nada de vontade guardada pra depois.

TRÊS COLUNAS E UM ESPAÇO EM BRANCO

A primeira coluna é o que você teria escolhido se estivesse sozinha na sala, com o controle na mão e ninguém esperando. Título exato, com o nome completo. Não "um filme calmo", mas "o documentário sobre a cantora que eu vi anunciado em março". Se não vier nenhum título à cabeça, anota a folha em branco, que é um dado dos grandes.

A segunda coluna é o que rodou de verdade, e quem apertou o play. Nome de quem escolheu, sem arredondar. "Téo, luta livre." "Ademir, jornal e depois documentário de guerra." "Ninguém escolheu, ficou no que o sistema sugeriu." Essa terceira resposta costuma aparecer mais do que parece.

A terceira coluna é a frase que você disse em voz alta sobre o que queria ver, se disse alguma. Palavra por palavra, sem melhorar depois. Na maior parte das linhas essa coluna fica vazia, porque a boca não entrou na noite em momento nenhum.

O ajuste não aconteceu na hora de escolher o filme. Aconteceu no toque em que você abriu mão de um quadradinho com o seu nome, e ninguém na sala viu você apertar.

Sirlene fez o registro numa semana comum de agosto. Sete noites, sete linhas. Na primeira coluna, quatro títulos escritos com firmeza e três noites em branco, com a anotação "não lembro do que eu gosto". Na segunda, cinco escolhas de outra pessoa e duas do sistema. Na terceira coluna, nenhuma frase, sete noites, folha limpa.

Repara ainda numa quarta informação que a página entrega sem você procurar: quem paga a conta. Escreve no rodapé da folha de qual cartão sai a assinatura e há quantos meses. Sirlene escreveu vinte e seis meses no cartão dela, cerca de mil e quatrocentos reais gastos até ali, e uma fila de recomendação que aprendeu o gosto de quatro pessoas, nenhuma delas ela.

Guarda o bloco. A leitura que ele pede não trata de família egoísta ocupando o sofá. Trata do lugar onde a sua preferência deixa de ser registrada, inclusive por uma máquina que registra tudo.

II  A Ferida

O gosto que ela chama de não ser de série

Vamos ser honestas?

Assistir no perfil sobrando tem uma vantagem imediata e verdadeira. Funciona. Custa um toque, não abre conversa, não obriga ninguém a mexer na tela inicial, não exige explicar por que agora ela quer um espaço com nome depois de dois anos sem. O gesto silencioso é eficiente, e a eficiência dele é o que faz o hábito durar vinte e seis meses.

E existe uma segunda vantagem, mais escondida: enquanto ela não abre o próprio perfil, ela nunca precisa responder o que gosta de ver. Perfil com nome pede foto, pede escolha, pede que ela termine uma série e comece outra por vontade própria. O quadradinho cinza dispensa a pergunta, e a pergunta é justamente a que ela vem adiando desde que os filhos nasceram.

Ninguém nasce mulher: torna-se mulher.

Simone de Beauvoir, O Segundo Sexo, 1949

A conta que ela faz na cabeça tem raiz antiga. Menina que abre mão do lugar bom no carro é chamada de fácil de levar. Menina que insiste no desenho dela ouve que todo mundo já cansou de esperar. A palavra egoísta encosta cedo e fica. Trinta anos depois, com salário próprio e cartão próprio, ela ainda mede o direito ao controle remoto pela cara que alguém fez num domingo de 1997.

O estrago não está no perfil cinza. Está no treino. Uma preferência entregue em silêncio todas as noites, durante anos, para de chegar à consciência como preferência. Ela deixa de sentir "quero ver aquele documentário" e passa a sentir direto "põe o que vocês quiserem". A etapa da escolha some do circuito, e some tão bem que ela jura de coração que não faz questão de nada.

Tem ainda um efeito colateral que quase ninguém liga à sala: a máquina aprende. Sistema de recomendação existe pra devolver mais do que você viu, e o que ela viu foi o gosto dos outros quatro. Cada noite no perfil sobrando ensina o algoritmo a oferecer luta livre e animação, e a tela de segunda-feira chega mais distante dela do que a de domingo. O silêncio dela virou dado, o dado virou fila, e a fila agora argumenta contra ela todas as noites.

Repara no arranjo estranho de olhar de perto. Uma mulher que administra a assinatura inteira, escolhe plano, resolve senha, paga a fatura em dia, e não tem meio metro quadrado de tela com o nome dela em cima. A competência está provada em vinte e seis faturas. O que falta é o caminho entre a primeira coluna e a terceira.

 

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III  O Resgate

O quadradinho aberto com a família na sala

O exercício desta semana não pede que você tome o controle da casa, nem que abra uma conversa sobre os últimos dois anos de sofá. Pede dois movimentos pequenos, os dois mensuráveis, e os dois cabem numa noite comum.

O primeiro movimento é criar o perfil com o seu nome, na televisão da sala, com todo mundo ali. Não pelo celular, escondida, na fila do banco. Pega o controle, entra em Adicionar perfil, digita o seu nome inteiro, escolhe o avatar que você achar melhor e sai da tela. Vinte segundos com plateia.

O gesto feito às claras vale mais do que o gesto explicado, porque ele mostra o tamanho real da mudança. Ninguém perde nada. A tela inicial ganha um quadradinho e a casa continua exatamente onde estava, o que derruba de uma vez a conta que a sua cabeça vinha fazendo.

O segundo movimento é usar o perfil novo em três noites da semana, começando pelo título que você escreveu na primeira coluna do bloco. Assiste do seu lugar, com o seu nome no canto da tela, e deixa a máquina anotar. Sete dias depois a fila de recomendação já muda: entram títulos que puxam do que você escolheu, e a tela passa a te oferecer você.

A assinatura sai do seu cartão há dois anos. A tela inicial ainda não sabe o seu nome, e virar o jogo leva vinte segundos com a luz acesa.

Prepara-se pra uma reação estranha, porque ela costuma vir. Alguém vai dizer "nossa, agora você tem perfil". Responde curto, sem abrir debate: "tenho, escolhi essa foto". Frase de informação, dita com naturalidade, sem justificativa comprida, porque justificativa comprida convida negociação e não existe nada a negociar sobre um quadradinho numa conta que você paga.

Prepara-se também pra um incômodo na primeira noite, que é normal e passa. Sentar diante de uma fila vazia, sem nenhum Continue assistindo, depois de dois anos vendo a lista dos outros, costuma dar uma sensação esquisita de estar começando do zero na frente da família. Sirlene passou a primeira noite rolando a tela sem decidir, escolheu o documentário da segunda coluna já perto das dez e meia, e riu sozinha no meio dele porque ninguém perguntou nada.

Teste nas próximas sete noites, com o bloco ao lado do sofá: crie o perfil com o seu nome hoje e use ele em três noites, anotando em uma linha o que você escolheu e o que alguém comentou. No fim da semana, conte quantos comentários viraram discussão de verdade e olhe a fila de recomendação do seu perfil. O resultado esperado é zero discussão e pelo menos três títulos novos na fila, e a diferença entre esses números e o peso que você sentiu no dedo antes de apertar mede quantos meses você passou pagando por um lugar que nunca ocupou.

"Quantos meses da sua vida a máquina passou aprendendo o gosto de todo mundo da casa, menos o seu?"

 
 

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Segundo o registro que Sirlene fez no rodapé da própria folha, há quanto tempo a assinatura de streaming sai do cartão dela?

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