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O perfil que sobrou
A carta pra quem paga a assinatura de streaming da família inteira e assiste no perfil sem nome, com a fila de recomendação dos outros.
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Ela no sofá, o perfil cinza aberto na tela.
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"Pode deixar, eu assisto no que estiver aberto", disse Sirlene à filha, na cozinha do apartamento em Londrina, quando a menina perguntou qual dos perfis era dela.
A conta de streaming da casa tem quatro avatares com nome em cima: Ademir, Júlia, Téo e Rafa, o sobrinho que mora com eles desde a faculdade. O quinto quadradinho está lá desde a instalação, com um boneco cinza e a palavra Perfil escrita em fonte de sistema. É nele que ela senta pra ver televisão todas as noites, das nove e meia às onze.
A assinatura sai do cartão dela. Cinquenta e cinco reais por mês, débito automático, mesmo cartão da conta de luz e do mercado. Foi ela quem escolheu o plano, quem trocou de plano quando aumentou, quem digitou o código de verificação quando o sobrinho quis entrar da casa da namorada.
A fila de recomendação do perfil sem nome é uma bagunça dos outros quatro. Documentário de luta livre no topo, porque o Téo maratonou em maio. Três animações abertas pela metade. Uma série de zumbi que a Júlia largou no quarto episódio. A linha Continue assistindo oferece episódios que ela nunca começou, e o algoritmo, depois de dois anos de uso diário, não sabe uma única preferência dela.
Não é falta de saber mexer. O botão Adicionar perfil está na mesma tela, embaixo, e o processo leva vinte segundos. Ela já criou perfil pro sobrinho, já renomeou o do marido quando ele reclamou que estava escrito Ademir 2.
O que trava mora no tamanho do gesto. Abrir um quadradinho com o nome dela parece tomar um lugar que já está distribuído. Parece pedir atenção pra uma preferência que ninguém pediu pra ouvir. Parece obrigar a família a escolher uma foto, comentar, achar graça. Então ela clica no cinza, que resolve em um toque e não muda nada pra ninguém.
Quando alguém pergunta, a resposta sai pronta: "eu vejo o que estiver passando, não sou de série". A frase é curta, tem cara de característica pessoal, e ninguém investiga uma característica pessoal.
Vale medir esse hábito por sete noites, com o controle na mão e um bloco de anotações ao lado.
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I O Padrão
Sete noites anotando quem escolheu o que rodou
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O trabalho de hoje dura sete noites e ocupa dois minutos por vez. Precisa de um bloco pequeno ao lado do sofá ou das notas do celular. No alto da primeira página escreve a palavra TELA e a data de hoje.
Toda noite, depois que a televisão desliga, você anota três informações sobre o que passou ali. Só o que rodou na tela entra, nada de intenção e nada de vontade guardada pra depois.
TRÊS COLUNAS E UM ESPAÇO EM BRANCO
A primeira coluna é o que você teria escolhido se estivesse sozinha na sala, com o controle na mão e ninguém esperando. Título exato, com o nome completo. Não "um filme calmo", mas "o documentário sobre a cantora que eu vi anunciado em março". Se não vier nenhum título à cabeça, anota a folha em branco, que é um dado dos grandes.
A segunda coluna é o que rodou de verdade, e quem apertou o play. Nome de quem escolheu, sem arredondar. "Téo, luta livre." "Ademir, jornal e depois documentário de guerra." "Ninguém escolheu, ficou no que o sistema sugeriu." Essa terceira resposta costuma aparecer mais do que parece.
A terceira coluna é a frase que você disse em voz alta sobre o que queria ver, se disse alguma. Palavra por palavra, sem melhorar depois. Na maior parte das linhas essa coluna fica vazia, porque a boca não entrou na noite em momento nenhum.
O ajuste não aconteceu na hora de escolher o filme. Aconteceu no toque em que você abriu mão de um quadradinho com o seu nome, e ninguém na sala viu você apertar. |
Sirlene fez o registro numa semana comum de agosto. Sete noites, sete linhas. Na primeira coluna, quatro títulos escritos com firmeza e três noites em branco, com a anotação "não lembro do que eu gosto". Na segunda, cinco escolhas de outra pessoa e duas do sistema. Na terceira coluna, nenhuma frase, sete noites, folha limpa.
Repara ainda numa quarta informação que a página entrega sem você procurar: quem paga a conta. Escreve no rodapé da folha de qual cartão sai a assinatura e há quantos meses. Sirlene escreveu vinte e seis meses no cartão dela, cerca de mil e quatrocentos reais gastos até ali, e uma fila de recomendação que aprendeu o gosto de quatro pessoas, nenhuma delas ela.
Guarda o bloco. A leitura que ele pede não trata de família egoísta ocupando o sofá. Trata do lugar onde a sua preferência deixa de ser registrada, inclusive por uma máquina que registra tudo.
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II A Ferida
O gosto que ela chama de não ser de série
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Vamos ser honestas?
Assistir no perfil sobrando tem uma vantagem imediata e verdadeira. Funciona. Custa um toque, não abre conversa, não obriga ninguém a mexer na tela inicial, não exige explicar por que agora ela quer um espaço com nome depois de dois anos sem. O gesto silencioso é eficiente, e a eficiência dele é o que faz o hábito durar vinte e seis meses.
E existe uma segunda vantagem, mais escondida: enquanto ela não abre o próprio perfil, ela nunca precisa responder o que gosta de ver. Perfil com nome pede foto, pede escolha, pede que ela termine uma série e comece outra por vontade própria. O quadradinho cinza dispensa a pergunta, e a pergunta é justamente a que ela vem adiando desde que os filhos nasceram.
Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Simone de Beauvoir, O Segundo Sexo, 1949 |
A conta que ela faz na cabeça tem raiz antiga. Menina que abre mão do lugar bom no carro é chamada de fácil de levar. Menina que insiste no desenho dela ouve que todo mundo já cansou de esperar. A palavra egoísta encosta cedo e fica. Trinta anos depois, com salário próprio e cartão próprio, ela ainda mede o direito ao controle remoto pela cara que alguém fez num domingo de 1997.
O estrago não está no perfil cinza. Está no treino. Uma preferência entregue em silêncio todas as noites, durante anos, para de chegar à consciência como preferência. Ela deixa de sentir "quero ver aquele documentário" e passa a sentir direto "põe o que vocês quiserem". A etapa da escolha some do circuito, e some tão bem que ela jura de coração que não faz questão de nada.
Tem ainda um efeito colateral que quase ninguém liga à sala: a máquina aprende. Sistema de recomendação existe pra devolver mais do que você viu, e o que ela viu foi o gosto dos outros quatro. Cada noite no perfil sobrando ensina o algoritmo a oferecer luta livre e animação, e a tela de segunda-feira chega mais distante dela do que a de domingo. O silêncio dela virou dado, o dado virou fila, e a fila agora argumenta contra ela todas as noites.
Repara no arranjo estranho de olhar de perto. Uma mulher que administra a assinatura inteira, escolhe plano, resolve senha, paga a fatura em dia, e não tem meio metro quadrado de tela com o nome dela em cima. A competência está provada em vinte e seis faturas. O que falta é o caminho entre a primeira coluna e a terceira.
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