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O ombro fora do guarda-chuva
A carta pra quem cobre os filhos na chuva e chega ao carro com a blusa pingando.
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Um guarda-chuva, dois filhos, um ombro de fora.
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"Mãe, seu braço tá pingando", disse Clara, de seis anos, do banco de trás do carro, no estacionamento da Escola Municipal Papa João XXIII, no bairro Boqueirão, em Curitiba. Renata olhou pro ombro esquerdo da blusa. O tecido cinza tinha ficado quase preto até o cotovelo.
Eram cinco e vinte da tarde de uma quinta-feira de junho. A chuva tinha começado às quatro e não dava sinal de parar. O guarda-chuva era um só, azul-marinho, de haste curta, comprado numa banca da rodoviária por vinte e cinco reais.
Na saída do portão, ela fez o gesto de toda tarde de chuva. Pôs Clara colada na perna direita, Davi, de nove anos, na frente, com a mochila de rodinha, e inclinou o guarda-chuva pra cobrir as duas cabeças e as duas mochilas. O braço esquerdo dela ficou pra fora da cúpula, segurando a lancheira do menino.
Foram cento e quarenta metros até o carro, medidos depois no aplicativo do celular. Davi chegou com a barra da calça úmida. Clara chegou seca. As mochilas chegaram secas. Renata chegou com o ombro encharcado, o cabelo grudado na nuca e a sapatilha estalando a cada passo.
Ela ligou o ar quente no máximo, virou a saída de ar pro banco de trás e perguntou se alguém estava com frio. Ninguém estava. Dirigiu os vinte minutos até em casa com a blusa molhada colada nas costas, e só percebeu que tremia quando parou no semáforo da Avenida Marechal Floriano.
Em casa, pendurou as mochilas no varal da área de serviço, pôs os tênis do Davi perto do aquecedor e esquentou a sopa. Trocou de blusa depois do jantar, quando os dois já estavam de pijama.
A frase de Clara no carro ficou sem resposta naquela tarde. Renata disse "não foi nada, filha" e ligou o rádio. A primeira parte abre o caderno em que ela anota as chuvas e mostra quantas vezes o ombro dela ficou fora da cúpula naquele inverno.
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I O Padrão
Onze chuvas, um ombro
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Renata Soares Lima, trinta e nove anos, técnica de enfermagem num posto de saúde do Boqueirão, anota a previsão do tempo num caderno desde que os filhos entraram na escola. Escreve o dia, a chuva e a hora da saída. Naquele inverno, o caderno marcou onze tardes de chuva na hora do portão.
Na noite da blusa molhada, ela folheou as páginas e fez uma conta nova. Em quantas das onze tardes tinha chegado seca ao carro? Nenhuma. Em quantas os filhos chegaram secos? Nove. Nas outras duas, o vento virou o guarda-chuva e todo mundo se molhou igual.
A CÚPULA TEM DONO
O guarda-chuva da família mede noventa centímetros de diâmetro. Cabe um adulto com folga, cabem duas crianças apertadas. Três pessoas não cabem. Renata sabe a medida desde a primeira chuva e nunca comprou um segundo guarda-chuva.
Ela tinha um motivo prático. Um guarda-chuva a mais é um objeto a mais pra esquecer na escola, e Davi já tinha perdido dois no ano anterior. Então a solução ficou sendo o corpo dela, que não se perde.
Onze tardes de chuva, nove chegadas secas das crianças, nenhuma dela. |
O gesto se repete longe da chuva. No carro, o ar quente vai pro banco de trás. Na mesa, o pedaço de frango com mais carne vai pro prato do Davi, que está crescendo. No sofá, o cobertor grande cobre os filhos, e ela fica com a manta fina que era do berço da Clara.
Nenhum desses gestos custou uma decisão. Renata não escolhe ficar fora da cúpula. O braço sai antes de ela pensar, do jeito que o pé procura o freio quando o carro da frente para.
O marido, Fábio, busca as crianças às terças, quando ela pega plantão. Nas terças de chuva do caderno, ele levou o guarda-chuva grande de golfe da empresa e chegou ao carro seco, com os filhos secos. Ninguém em casa achou estranho. A proteção de Fábio incluía o próprio corpo; a de Renata, não.
No trabalho, a conta muda. Quando chove no posto, Renata veste o avental impermeável antes de atravessar o pátio até a ambulância, porque o protocolo manda e porque profissional molhada não atende ninguém direito. A regra que ela segue de branco some quando ela veste a blusa de mãe.
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II A Ferida
A tosse de agosto
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Em agosto, Renata passou onze dias com tosse. Faltou a dois plantões no posto, falta que nunca tinha acontecido em seis anos de trabalho. A médica da própria unidade, doutora Márcia Pacheco, escutou o pulmão, pediu raio X e perguntou se ela andava tomando chuva.
Renata riu e disse que sim, toda tarde de chuva, desde maio. A médica anotou no prontuário: exposição frequente ao frio úmido, sem troca de roupa por horas. O raio X veio limpo. A tosse durou mais uma semana.
O CORPO QUE FICA POR ÚLTIMO
O primeiro estrago é de saúde e cabe num prontuário. Roupa molhada no inverno de Curitiba, por horas seguidas, obriga o corpo a gastar energia pra se aquecer e deixa garganta e peito mais expostos. Renata conhece a regra de cor: é o conselho que ela dá aos pacientes idosos do posto.
O segundo estrago é de hierarquia. Na lista de quem precisa estar seco, quente e alimentado, ela entra por último, quando entra. A blusa trocada depois do jantar mostra a ordem: primeiro a mochila, depois o tênis, depois a sopa, depois ela.
Se havia frango, ela ficava com a coxa; se havia corrente de ar, era ela quem se sentava nela. Virginia Woolf, Profissões para mulheres, 1931 |
Woolf descreveu nessa palestra o Anjo do Lar (a esposa perfeita da poesia vitoriana, que vive pra servir) e contou que precisou se livrar dela pra conseguir escrever. Renata nunca leu Woolf, mas senta na corrente de ar toda tarde de chuva.
O terceiro estrago aparece nos filhos. Numa tarde de setembro, Davi dividiu o guarda-chuva com um colega na saída da educação física. Chegou em casa com as costas molhadas e explicou, orgulhoso, que tinha deixado o amigo coberto e ficado com a beirada.
Renata achou bonito por um minuto. Depois lembrou da tosse de agosto e entendeu de onde o menino tinha tirado o gesto. Ninguém ensinou Davi a ficar na beirada com palavras. Ele aprendeu olhando o ombro da mãe.
Clara voltou ao assunto do carro, dessa vez no banho: por que a mãe sempre fica molhada. Renata respondeu com a verdade que tinha, porque o guarda-chuva não cabe três. Clara pensou um pouco e disse que então faltava um guarda-chuva.
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