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O livro de Renata parou na página 34 em abril

A carta pra quem lê toda noite em voz alta pra alguém e não abre o próprio livro há meses.

Romance fechado com um recibo de marcador numa mesa de cabeceira

O recibo na página 34, desde abril.

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“Mãe, você pulou uma página”, disse Theo, de sete anos, da cama de baixo do beliche, no apartamento da família na Tijuca, no Rio de Janeiro, numa terça de setembro. Renata Albuquerque Lima voltou a folha, pediu desculpa e leu de novo, devagar, fazendo a voz de cada personagem.

Theo conhece o livro de cor. É o terceiro volume de uma coleção de aventuras que os dois começaram no outono, e ele corrige a mãe quando ela troca uma palavra. Renata lê todas as noites, das 20h40 às 21h, sentada no chão, com as costas apoiadas na escada do beliche.

Ela tem 39 anos e é analista de compras numa rede de farmácias. Sai de casa às 7h15, volta às 18h30, e a noite segue um roteiro fixo: banho, janta, dever de casa, dente escovado e história. A história é a parte de que ela mais gosta.

Na mesa de cabeceira do quarto dela, a três metros do beliche, está Torto Arado, romance de Itamar Vieira Junior. O marcador é um recibo de farmácia dobrado em quatro, enfiado na página 34. Está lá desde abril.

Renata comprou o livro numa feira em Botafogo, no feriado de Tiradentes. Leu as primeiras páginas no mesmo fim de semana, numa rede da casa da irmã, e gostou. Na segunda-feira, voltou ao trabalho, e o romance voltou para a cabeceira.

Naquela terça de setembro, depois de apagar a luz do quarto do filho, ela passou pela mesa e reparou na poeira da capa. Pegou o livro, abriu no recibo e leu a primeira linha da página 34. Não lembrava de nada das 33 anteriores.

Deitada, abriu o calendário do celular. Desde abril, tinha lido em voz alta para Theo três livros inteiros e começado o quarto. Para ela mesma, nenhuma página nova. Quis saber quantas noites eram, e quanto tempo tinha passado lendo.

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I  O Padrão

Cento e quarenta e seis noites

Renata Albuquerque Lima contou no calendário as noites desde o feriado de Tiradentes. Deu 155. Em nove delas, Theo dormiu na casa da avó paterna. Nas outras 146, ela leu para ele, sempre por uns 20 minutos.

Multiplicou. Eram quase 49 horas de leitura em voz alta em menos de seis meses. Mais de 600 páginas, contando os três volumes da coleção e a metade do quarto. Na mesma conta, o livro dela tinha avançado zero páginas.

ONDE A LEITURA DELA ACONTECE

Para entender o desenho, Renata listou tudo o que tinha lido até o fim naquele ano. A lista saiu rápida. As histórias do Theo. O roteiro da peça da escola, lido em voz alta para ensaiar as falas com ele. As bulas dos remédios do pai, lidas pelo telefone toda vez que o médico trocava a receita.

Leu também o contrato do aluguel novo da irmã, linha por linha, numa chamada de vídeo, porque a irmã tinha medo de assinar algo errado. E os comunicados do grupo de pais da escola, que ela resumia para o marido, Caio, na hora do jantar.

Todo texto da lista tinha um ouvinte. Nenhum era só dela.

Em seis meses, ela leu 600 páginas para outras pessoas. Para si mesma, nenhuma.

Renata reparou num segundo detalhe. Ler para o filho nunca exigiu decisão. O horário estava marcado, o lugar também, e havia alguém esperando. Se ela atrasasse cinco minutos, Theo aparecia na porta da cozinha com o livro na mão.

O romance da cabeceira não tinha ninguém esperando. Às 21h, quando a luz do beliche apagava, sobravam a louça, a mochila do dia seguinte e o celular. Às 22h30, ela dormia com a tela ainda acesa na mão.

No trabalho, Renata era quem lia os contratos dos fornecedores inteiros, até as notas de rodapé. Os colegas mandavam o arquivo para ela antes de assinar. A leitura atenta existia, e era farta. Só tinha sempre um destinatário.

Antes de dormir, ela escreveu no bloco de notas do celular uma pergunta: quando eu passei a ler só quando alguém precisa ouvir?

II  A Ferida

As cartas da avó Dalva

Renata achou a resposta em Campos dos Goytacazes, no norte do estado do Rio, em 1994, quando tinha sete anos. A avó materna, dona Dalva Albuquerque, não sabia ler. Trabalhou desde menina no corte de cana e nunca frequentou a escola.

Naquele ano, Renata aprendeu a ler, e a avó descobriu uma leitora dentro de casa. Passou a guardar para a neta as cartas do filho que morava em São Paulo, as contas de luz e o boletim da igreja. Toda tarde, depois da escola, Renata lia tudo em voz alta na varanda.

A LEITORA DA CASA

A avó pagava em elogio. Dizia às vizinhas que a neta lia melhor do que o padre. Renata sentia o orgulho no peito e pedia mais papel. Aos nove anos, já lia também a correspondência de duas vizinhas, que chegavam com o envelope fechado e um pacote de biscoito.

Os livros da menina tinham outro tratamento. Quando a avó a pegava lendo um gibi sozinha no quarto, perguntava se não tinha nada mais útil para fazer. A leitura em silêncio parecia preguiça. A leitura em voz alta, para alguém, era trabalho bem feito.

Dona Dalva viveu até 2009. Nos últimos anos, já em Niterói, pedia que Renata lesse as cartas do tio pelo telefone, toda semana, mesmo quando a carta era curta.

“Uma mulher precisa ter dinheiro e um teto todo seu se quiser escrever ficção.”

Virginia Woolf, Um Teto Todo Seu, 1929

Woolf falava da escrita e de um quarto com chave, numa palestra para estudantes de Cambridge que virou livro. Renata reconheceu na frase a falta dela: um tempo todo seu para ler, sem ouvinte e sem utilidade. Na casa da avó, esse tempo não existia. Na casa da Tijuca, ela tinha repetido a regra sem perceber.

Lida em voz alta, a página tinha dono. Lida em silêncio, parecia roubada.

Renata viu o mesmo gesto na mãe, dona Sônia, que lê o jornal de domingo inteiro para o marido, que enxerga bem. E viu na irmã, que comprou quatro livros de receita no ano e cozinha de todos para a família, sem ter terminado um romance desde a faculdade.

No almoço de domingo, perguntou à mãe qual tinha sido o último livro que ela leu sozinha. Dona Sônia pensou um pouco e respondeu que foi na gravidez da Renata, em 1987. Era um romance de banca. Ela não lembrava o final.

 

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III  O Resgate

Vinte minutos antes do beliche

Renata Albuquerque Lima decidiu tratar o livro da cabeceira como tratava a história do Theo: com hora marcada, lugar fixo e alguém sabendo. Na quarta-feira seguinte, contou ao filho que a mãe também tinha um livro e ia ler antes dele.

Theo quis saber se o livro tinha figura. Não tinha. Ele pediu para ver a página 34 e achou muita letra junta. Depois perguntou se podia ficar no quarto enquanto ela lia, desde que não falasse. Renata aceitou.

TRÊS PASSOS PARA A SUA LEITURA VOLTAR

1. Marcar a hora: escolher 20 minutos fixos antes da leitura dos outros, enquanto a noite ainda tem atenção sobrando.

2. Avisar alguém: contar a uma pessoa da casa o horário e o nome do livro, para a leitura ter testemunha e ninguém interromper.

3. Anotar a página: escrever no fim de cada sessão o número onde parou, num papel guardado dentro do próprio livro.

Na primeira noite, às 20h20, Renata sentou no chão do quarto do filho com Torto Arado. Recomeçou da primeira página, porque não lembrava das 33 anteriores. Theo montou peças de encaixe ao lado, em silêncio, e olhou para o relógio duas vezes.

Ela leu até a página 22. Às 20h40, fechou o livro, anotou o número no recibo de farmácia e abriu a coleção de aventuras do filho. A história dele saiu no horário de sempre.

Na terceira noite, passou da página 34 sem perceber. Ficou presa na história das duas irmãs do sertão baiano, Bibiana e Belonísia, e só parou na 51, quando Theo avisou que já eram 20h40.

A página 34 esperou cinco meses. Caiu na terceira noite.

Na primeira semana, o recibo ganhou seis números escritos à caneta. Renata somou 112 páginas em seis noites. Theo passou a avisar o pai, às 20h15, que estava na hora da mãe ler.

Caio estranhou na segunda semana e perguntou se ela não andava cansada. Renata respondeu que andava menos. A louça passou para depois da história, e o celular ficou carregando na cozinha a partir das 20h.

Ela terminou o romance num sábado de outubro, 24 dias depois da primeira noite. Mandou uma foto da última página para dona Sônia. A mãe respondeu no fim da tarde com outra foto: um livro de capa azul, aberto na página 1, em cima da mesa da cozinha.

“Quando foi a última página que você leu sem ninguém ouvindo?”

Teste hoje: antes de ler ou resolver qualquer tarefa para alguém, sente com o seu livro por 20 minutos, com um alarme marcado. Anote a página onde começou e a página onde parou. O resultado esperado é um número de páginas maior do que dez, escrito no marcador até o fim da semana.

 
 
Quiz da edição

O que Renata usava como marcador na página 34 do livro parado desde abril?

AUm bilhete de ônibus
BUma página de caderno rasgada
CUm recibo de farmácia dobrado em quatro
DUm cartão de visita

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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