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O exercício desta semana não pede discurso sobre merecimento nem briga sobre a divisão da conta. Pede dois movimentos pequenos e mensuráveis, que cabem em três saídas comuns.
O primeiro movimento vale para os próximos três jantares fora, seja restaurante, padaria ou lanchonete de shopping. A regra tem uma linha: nome do prato primeiro, valor por último. Escolhe pelo que dá vontade, confere o preço depois e só troca se o prato passar do teto que você definiu antes de sair de casa. Marisa definiu noventa reais e escreveu o número num papel dentro da carteira, porque teto combinado em casa segura melhor que teto decidido na mesa.
No caderno da bolsa, uma linha por saída com três informações: o prato que você pediu, o valor, e se alguém na mesa comentou a sua escolha. Marisa anotou três saídas em doze dias. Ninguém comentou nas duas primeiras. Na terceira, uma amiga perguntou se era aniversário dela, e Marisa respondeu que estava com vontade de camarão, quatro palavras, sem explicação depois.
O segundo movimento é a frase curta sobre a conta, dita uma vez, com número: "vamos pagar cada um o seu hoje, na última divisão por igual eu paguei setenta e seis por um prato de quarenta e dois". Informação e pedido de tamanho definido, dito antes do garçom trazer a maquininha, porque pedido feito depois da soma vira discussão sobre quem bebeu mais.
Três jantares, um teto de noventa reais escrito na carteira, um comentário na mesa em doze dias, e nenhuma pessoa incomodada com a conta. |
Prepara-se para uma reação previsível. Alguém vai dizer "nossa, que chique hoje". Responde curto, sem subir o tom: "eu estava com vontade, tá ótimo". Frase fechada, sem justificativa e sem piada de volta, porque piada abre rodada e a rodada entrega a decisão para a mesa.
Prepara-se também para um desconforto seu nos primeiros minutos, que é normal e passa. Falar o nome do prato caro em voz alta dá uma sensação física de exagero, como se você tirasse comida de alguém. Marisa pediu o risoto numa terça, releu o preço três vezes antes do garçom chegar e comeu os primeiros bocados olhando para o prato. No meio da porção o desconforto tinha ido embora e ela pediu uma taça de vinho branco.
O que ela ganhou cabe em quatro linhas do caderno. Descobriu que gosta mesmo de camarão, respondendo uma pergunta de vinte e sete anos por sessenta e nove reais. Passou a dizer o nome do vinho quando o garçom pergunta. Pagou item por item em duas das três saídas, e gastou no mês quarenta e um reais a mais do que no mês anterior. Nas três noites, a mesa seguiu conversando sem tratar do assunto.
Teste nas próximas três saídas, com o caderno na bolsa: leia o cardápio pelo nome dos pratos, escolha antes de olhar o valor, respeite o teto que você escreveu em casa e anote uma linha por noite com o prato, o preço e o comentário que apareceu na mesa. Na quarta saída, conte quantos comentários você recebeu e diga a frase de uma linha sobre pagar cada um o seu. O resultado esperado é nenhum comentário nas duas primeiras noites, no máximo um na terceira, e uma resposta clara sobre um gosto seu que estava sem resposta há anos, o que mede em reais o tamanho do desconto que você vinha aplicando na sua própria vontade.
"Quanto você economizou este mês cortando uma vontade sua, e quem na sua mesa economizou cortando a dele?"
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