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ED 110

O episódio seis que ela guardou seis dias

A carta pra quem segura o próprio prazer esperando companhia, descobre que a companhia foi sozinha, e responde que está tudo bem.

Mulher sozinha no sofá da sala à noite, manta dobrada ao lado e o brilho da televisão no rosto

A manta dobrada numa quinta sem conversa.

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"Guardei o episódio seis pra gente ver junto", disse Silvana Kroetz ao marido, na cozinha do apartamento da rua São Paulo, em Blumenau, com o controle da televisão ainda na mão.

A série tem oito episódios e entrou na casa em julho. Os dois combinaram quinta-feira às nove da noite, depois que a filha dorme, com a manta no sofá e o café passado na hora. Cumpriram o combinado cinco quintas seguidas, e nas cinco ela esperou o dia certo mesmo nas noites em que acordou disposta e sem sono.

Na terça, Silvana abriu o aplicativo pra conferir quanto faltava do episódio e encontrou a barra cheia, com a marca de assistido e quarenta e sete minutos registrados às onze e dez da noite. O perfil era o dele. Ela conferiu duas vezes, fechou o aplicativo e foi dormir.

Na quinta, ele sentou no sofá, puxou a manta e perguntou onde tinham parado. Silvana respondeu que estava cansada. Viu o episódio sozinha na sexta, de fone, enquanto ele dormia no quarto ao lado. Não comentou nada no sábado, nem no domingo no almoço da sogra, nem na semana seguinte.

O prejuízo material é pequeno. Quarenta e sete minutos de um programa que ela pode rever quando quiser, num serviço que a casa paga por mês de qualquer jeito. O que pesa é o formato do arranjo: ela segurou um prazer por seis dias para dividir, ele consumiu quando deu vontade, e nenhum dos dois tratou o assunto em voz alta.

Esse formato raramente aparece sozinho. Quem guarda episódio guarda também a notícia boa do trabalho até o jantar, a foto da filha até ele chegar, o bolo de chocolate até domingo. A espera vira o jeito de demonstrar afeto, e o afeto medido por espera só funciona quando alguém do outro lado também espera.

Vale escrever num papel, por duas semanas, quantas vezes você adiou um prazer seu aguardando companhia e quantas vezes a companhia apareceu no dia combinado.

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I  O Padrão

O caderno na mesa de centro com duas colunas

O trabalho de hoje leva dez minutos no primeiro dia e trinta segundos por dia depois. Precisa do histórico do aplicativo de streaming, da galeria de fotos do celular e de um caderno pequeno deixado embaixo do controle, na mesa de centro.

Começa pelo histórico. Abre o perfil dele e o seu, desce até o primeiro dia do mês passado e anota duas listas: o que você viu sozinha e o que ele viu sozinho. Circula cada título que estava dentro de uma combinação de assistir junto. Silvana levou vinte minutos e chegou a três títulos circulados no perfil dele e nenhum no dela.

DUAS SEMANAS, DUAS COLUNAS

Depois do histórico, volta na galeria de fotos. Procura as imagens que você tirou e não mandou pra ninguém, guardando pra mostrar pessoalmente. Silvana encontrou onze fotos da filha no ensaio da escola, tiradas numa terça, mostradas no sábado. Encontrou também o vídeo de quarenta segundos da menina lendo em voz alta, que ela segurou por nove dias esperando o momento em que ele estivesse sem o celular na mão.

Agora o caderno. Por duas semanas, uma linha por dia, duas colunas. Na primeira, o que você adiou naquele dia esperando alguém. Na segunda, o que aconteceu com o item adiado: virou encontro, virou prazer sozinha depois, ou evaporou. Dia sem adiamento entra como "nenhum", porque o dia sem adiamento também é dado e você vai querer contar quantos foram.

Três títulos vistos por ele fora da combinação, onze fotos guardadas por ela até o sábado, e nenhuma conversa sobre a regra que só uma pessoa estava cumprindo.

Repara no que o caderno responde sem você perguntar: quem na casa consome quando dá vontade e quem consome quando a agenda do outro permite. Silvana procurou no histórico um único título que ele tivesse segurado esperando por ela. Encontrou um, uma partida de futebol gravada em agosto que ele assistiu sozinho na manhã seguinte, seis horas depois.

O caderno também mede o custo do adiamento. Dos onze itens que Silvana anotou nas duas semanas, quatro viraram encontro, dois ela fez sozinha dias depois, e cinco evaporaram: a notícia do trabalho envelheceu, o bolo acabou, o vídeo da menina perdeu a graça de ser recente.

Guarda o caderno embaixo do controle. Ele não registra egoísmo do seu marido nem generosidade sua. Registra o ponto exato em que uma regra de convivência passou a valer para uma pessoa só, sem que a outra tenha sido informada de que a regra existia.

II  A Ferida

A espera que virou o jeito de demonstrar amor

Vamos ser honestas?

Guardar tem uma vantagem imediata e verdadeira. A espera transforma um programa comum em acontecimento. A quinta-feira ganha contorno, a manta na sala vira cenário, o café passado na hora tem função. Silvana chega na quinta com um encontro marcado dentro da própria casa, e essa expectativa carrega a semana inteira dela.

Existe uma segunda vantagem, mais escondida. Enquanto ela guarda em silêncio, ela nunca escuta o tamanho do interesse dele. Dizer "eu esperei seis dias por você" obriga a ouvir uma resposta com todas as letras, e a resposta pode ser um pedido de desculpa curto seguido de nada. O silêncio mantém de pé a possibilidade de que ele valorize o encontro tanto quanto ela.

O amor é aquilo que o amor faz. O amor é um ato de vontade.

bell hooks, Tudo Sobre o Amor, 2000

A palavra companheirismo faz um trabalho pesado nessa casa. Os dois repetem que fazem tudo juntos, e a prova citada é a noite de quinta no sofá. A noite de quinta existe porque uma pessoa organiza a agenda dela em torno dela. Ele aparece quando aparece, e nas semanas em que aparece a prova se confirma. A conta fecha porque uma das partes cobre todas as faltas.

O treino começa cedo. Menina que espera todo mundo se servir antes ouve que tem boas maneiras. Adolescente que guarda a última fatia do bolo pro irmão ouve que é um doce de pessoa. Menino que come a fatia sem perguntar ouve que estava com fome. Vinte e cinco anos depois, ela calcula o horário de três pessoas antes de decidir a própria noite de sexta, e não sabe dizer qual filme ela quer ver.

O estrago mora na segunda camada. Quem guarda por meses para de saber o que quer sem consultar a agenda alheia. Silvana parou de propor cinema porque a sessão que serve aos dois é a de domingo à tarde. Deixou de ler à noite porque a luz do abajur incomoda quem dorme cedo. Passou a responder "tanto faz" quando a filha pergunta qual série colocar na tarde de sábado. O adiamento começou num episódio e chegou na resposta automática.

Repara no arranjo estranho de olhar de perto. Uma mulher que organiza o calendário de três pessoas, lembra do aniversário dos sogros e marca o dentista da filha com três meses de antecedência atravessa uma semana sem dizer uma frase de oito palavras sobre um episódio de televisão. O que falta é a conversa de dois minutos que ninguém começou.

 

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III  O Resgate

Duas semanas sem segurar o próximo episódio

O exercício desta semana não pede cobrança pelos seis dias nem conversa sobre respeito. Pede dois movimentos pequenos, os dois mensuráveis, e os dois cabem numa quinzena comum.

O primeiro movimento dura duas semanas e tem uma regra só: você consome quando der vontade. Episódio novo, você assiste. Notícia boa do trabalho, você conta na hora, por mensagem. Foto da filha, você manda no minuto em que tira. Nada de aviso prévio, porque anúncio solene vira debate sobre a mudança e adia a mudança.

No caderno da mesa de centro, uma linha por dia com três informações: o que você consumiu na hora, quantas horas antes do combinado, e se alguém na casa comentou. Silvana anotou quatro itens na primeira semana e cinco na segunda. O marido comentou no décimo dia, quando abriu a série e encontrou o episódio sete marcado como assistido, e perguntou se ela tinha visto sem ele.

O segundo movimento é a frase curta, dita uma vez, com número: "eu guardei o episódio seis por seis dias esperando você, e prefiro que a gente combine só o que os dois vão cumprir". Informação e pedido de tamanho definido, sem a lista das onze fotos e sem a história do vídeo da menina, porque a lista comprida abre debate sobre quem se dedica mais e enterra o pedido.

Seis dias de espera dela, quarenta e sete minutos de consumo dele, e o pedido que resolve cabe numa frase com a palavra combinar dentro.

Prepara-se para uma reação previsível. Alguém vai responder "eu não sabia que você estava esperando". Responde curto, sem subir o tom: "agora você sabe, a nossa noite de quinta continua de pé?". Pergunta fechada, porque acordo sem resposta clara volta pro seu colo na semana seguinte, e você passa outro mês medindo interesse por dedução.

Prepara-se também para um desconforto seu nos primeiros dias, que é normal e passa. Apertar o play sozinha às dez da noite dá uma sensação física de traição pequena, como se o prazer estivesse sendo roubado de alguém. Silvana assistiu o episódio sete numa terça, sentada na poltrona e não no sofá, conferiu o celular três vezes durante a exibição, e no dia seguinte percebeu que tinha dormido mais cedo do que nas quintas de espera.

O que ela ganhou cabe em três linhas do caderno. Contou a promoção da chefe às quatro da tarde, por mensagem, no dia em que recebeu. Mandou o vídeo da filha lendo quatro minutos depois de gravar, e recebeu de volta um áudio dele rindo dentro da fábrica. Viu dois episódios sozinha e um com ele na quinta, e a quinta rendeu conversa sobre a série pela primeira vez desde julho.

Teste nas próximas duas semanas, com o caderno embaixo do controle: consuma na hora tudo que você costuma guardar para dividir, e anote uma linha por dia com o item, as horas que você teria esperado e se alguém na casa comentou. Na terceira semana, conte quantos comentários apareceram e diga a frase de uma linha sobre a combinação de quinta. O resultado esperado é nenhum comentário na primeira semana, um comentário entre o oitavo e o décimo dia, e pelo menos três itens que você teria perdido se tivesse esperado, o que mede em número quanto da sua semana estava sendo organizada em torno de um acordo que só você assinou.

"Quantas horas você guardou esta semana um prazer seu esperando alguém, e quantas horas alguém guardou um prazer esperando você?"

 
 

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Quiz da edição

Na terça-feira, ao abrir o aplicativo só pra conferir quanto faltava do episódio seis, o que Silvana encontrou?

AO episódio sete já marcado como assistido no perfil dela
BA barra cheia, marca de assistido e quarenta e sete minutos registrados às onze e dez da noite, no perfil dele
CUm aviso de que a assinatura do streaming tinha vencido
DO episódio ainda zerado, sem nenhum minuto assistido

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