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Você esbarra em alguém no corredor e a palavra já saiu: "desculpa". Você faz uma pergunta simples numa reunião e ela vem grudada na frente: "desculpa, só uma dúvida". Você pede um copo de água, discorda de um detalhe, e ali está de novo, "desculpa", "perdão", "foi mal", antes de qualquer erro existir.
E ninguém repara em nada. Pelo contrário. Acham que você é educada, delicada, uma pessoa fina de se conviver. Elogiam a mulher que nunca incomoda, que se encolhe pra não atrapalhar, que pede licença até pra respirar.
Só que embaixo desse "desculpa" não tem gentileza nenhuma. Tem uma menina que aprendeu que a própria presença era um estorvo, um pedido de perdão pendurado em cada gesto, uma certeza silenciosa de que você ocupa espaço demais só por estar aqui.
Hoje a carta chega pra nomear esse reflexo direito. O "desculpa" automático não é educação. É a marca de quem aprendeu cedo que a própria presença precisa ser justificada. Você transformou cada movimento seu num pedido de licença, como se existir no meio dos outros fosse uma falta que precisa ser desculpada antes de acontecer.
O "desculpa" automático não protege ninguém dos seus erros. Ele avisa, o tempo todo, que você acha que é um. Porque quem pede perdão antes de fazer qualquer coisa já decidiu, lá no fundo, que é estorvo. E quem se sente estorvo, se apequena pra caber.
I · O PADRÃO
O desculpa que dispara sozinho
Repara no que acontece no instante exato em que você precisa ocupar um espaço qualquer.
Não tem cálculo. Não tem uma checagem rápida, um "espera, eu errei em alguma coisa?". O "desculpa" já vem montado, colado na frente de qualquer frase, como um pedágio que você paga só pra ter o direito de aparecer. Você esbarra e pede perdão. Discorda e pede perdão. Precisa de algo e pede perdão. O erro nem existiu, e a desculpa já está lá.
Você virou perita nesse encolhimento. Domina o "desculpa incomodar", o "perdão, só uma coisinha", o corpo que já entra na sala meio de lado pra não tomar lugar. Tudo calibrado pra ocupar o mínimo possível. Porque ocupar espaço inteiro, aparecer sem pedir licença, é justamente o que o seu corpo aprendeu a tratar como perigo.
E o efeito colateral chega desse jeito enganoso: você não sente que está se apagando. Sente que está sendo educada, cuidadosa, atenciosa até. Poupando o outro de um incômodo que você nem causou. Chama o "desculpa" automático de boa educação, de não ser abusada, de saber o seu lugar.
Só que existe uma diferença enorme entre lamentar um erro real e pedir perdão por existir. O primeiro é uma reparação, sai depois que você de fato pisou em alguém. O segundo é um reflexo que sai antes, e que pede perdão pela única coisa que você não deveria ter que justificar: estar aqui.
Faz o teste. Passa um dia reparando em quantas vezes o "desculpa" sai da sua boca sem nenhum erro na frente dele. Conta os "perdão" de corredor e os "desculpa incomodar" de mensagem. Cada um deles é um pequeno bilhete que você assina dizendo que a sua presença é um transtorno.
II · A FERIDA
Quando se desculpar era o que te deixava caber
Vamos ser honestas?
Esse "desculpa" automático não nasceu de educação. Ele nasceu de uma conclusão que você tirou muito cedo, e que fazia tanto sentido pra época em que nasceu que virou o seu jeito de estar no mundo.
Talvez você tenha crescido numa casa onde a sua presença pesava. Onde alguém suspirava quando você chegava perto, onde as suas necessidades eram tratadas como excesso, onde você sentia, sem ninguém precisar dizer, que dava trabalho demais. Então você aprendeu a se antecipar: pedir perdão por existir antes que alguém apontasse que você existia demais.
Ou talvez você tenha sido a menina boazinha, a que não dava despesa, a que se orgulhava de ser fácil. Elogiaram tanto o seu jeito de não incomodar que você entendeu que o amor vinha na medida em que você sumia. Quanto menos espaço, mais querida. Então o corpo decorou: pra ser aceita, se encolhe. Pra ficar, pede perdão por estar.
Nos dois casos, o corpo aprendeu a mesma lição: ocupar espaço é uma falta, se desculpar é a licença. Você construiu um jeito de aparecer que já vem pedindo perdão, que já entra abaixando a cabeça, que nunca reivindica um lugar sem antes justificar por que merece. E funcionou. Te fizeram caber. Só que aquilo que te fez caber virou a coleira gentil que hoje te faz sumir de você mesma em cada sala.
Você aprendeu que se encolher te fazia caber no afeto dos outros. Ninguém te contou que o preço era você nunca acreditar que merecia o próprio espaço. |
Tem uma camada mais funda ainda. O "desculpa" antecipado não é só um hábito de fala. Ele é uma frase que o seu corpo repete sobre você o dia inteiro: eu sou demais, eu atrapalho, eu não deveria estar tomando esse lugar. Cada "perdão" solto no ar reforça essa sentença, e você vai acreditando cada vez mais numa versão sua que precisa se desculpar por vir junto.
O preço aparece justo onde você mais precisava de chão. Uma voz que some no meio da frase porque acha que não tem direito ao fim dela. Uma vontade que você nunca reivindica porque parece atrevimento demais. E você, no centro disso tudo, cada vez mais convencida de que existir com todo o seu tamanho é uma indelicadeza que você precisa compensar pedindo desculpa.
III · O RESGATE
Ocupar o próprio espaço sem pedir perdão
A boa notícia: você não precisa virar uma pessoa dura, que nunca se desculpa, pra sair disso. Precisa só devolver ao seu corpo o direito de existir sem antes pedir licença por existir.
O primeiro movimento é o mais simples e o mais difícil: caçar o "desculpa" que não tem erro atrás dele. Da próxima vez que ele for sair, segura por um segundo e pergunta: eu pisei em alguém, ou só apareci? Se não teve erro, troca o "desculpa" por outra palavra. "Com licença" no lugar de "perdão incomodar". "Obrigada por esperar" no lugar de "desculpa a demora".
Depois, ocupa a frase inteira. Quando for pedir algo ou discordar, tira o "desculpa" da frente e vai direto: "eu preciso de", "eu penso diferente", "eu queria". Sem amaciar, sem justificar por que você tem uma vontade. Vai parecer atrevido no começo, porque o reflexo antigo trata reivindicar como abuso. Deixa parecer. Uma frase sua, dita inteira, não é abuso. É você aparecendo do tamanho que sempre foi.
Vai parecer perigoso ocupar espaço sem pedir perdão. Deixa esse medo vir, ele é antigo e faz sentido pra época em que nasceu. Mas você não está mais naquela casa em que a sua presença pesava. Hoje entrar numa sala de cabeça erguida não faz ninguém te expulsar. No máximo, faz alguém finalmente te ver do tamanho real, o que, ao contrário do que o reflexo te ensinou, aproxima as pessoas certas em vez de afastar.
Aprende também a diferença entre lamentar e se apequenar. Lamentar é reparar um erro que você cometeu, e isso é maturidade. Se apequenar é pedir perdão pela sua existência, e é uma ferida falando. A pergunta que separa os dois é simples: eu estou consertando o que fiz, ou pedindo perdão por ser quem eu sou? Se for o segundo, o "desculpa" não é seu. É da menina que aprendeu que precisava sumir pra ser amada.
Pratica também sustentar o silêncio depois de aparecer. Você diz o que quer e o reflexo antigo vai puxar um "mas tanto faz", um "desculpa de novo" pra desmanchar o que você acabou de reivindicar. Segura. Deixa a sua frase existir inteira, sem o pedido de perdão pra amortecer. Porque a vontade que você reivindica e depois retira na mesma respiração, você abandona duas vezes.
Duas coisas vão acontecer quando você começar essa troca. Primeira: algumas pessoas vão estranhar a mulher que já não se encolhe, porque se acostumaram com a versão que pedia licença pra tudo. Deixa. Quem só gostava de você pequena nunca soube conviver com você inteira. Segunda: alguém vai te respeitar mais nesse momento exato, porque finalmente encontrou uma pessoa que ocupa o próprio lugar pra estar do lado, e não um pedido de desculpas ambulante.
Aos poucos você entende uma coisa que muda tudo: o respeito que você diz querer não mora num "desculpa" que sai antes de qualquer erro. Ele mora na coragem de ocupar o seu espaço inteiro, de sustentar a sua voz até o fim da frase, sem pedir perdão pela única coisa que nunca foi falta: você estar aqui.
Você não precisa se desculpar por existir pra ser fácil de amar.
O "desculpa" que sai antes do erro não é educação. É medo de que a sua presença inteira não seja bem-vinda.
O "desculpa" que sai antes do erro não é educação. É medo de que a sua presença inteira não seja bem-vinda.
Com ternura, Resgate do Feminino
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