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O corpo só cai quando pode cair
A carta pra quem atravessa o ano inteiro de pé, amanhece doente na primeira manhã de férias e chama o próprio corpo de traidor.
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A mala fechada e a febre do primeiro dia.
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São seis e vinte da manhã do primeiro dia de férias e você acordou antes de um despertador que nem chegou a ser programado. A garganta arde daquele jeito que você já reconhece de olhos fechados.
O termômetro do armário do banheiro marca 38,2. A mala continua fechada no canto do quarto, o mar fica a quatrocentos metros, e alguém pergunta da cozinha a que horas a gente vai descer.
Faz onze meses que você não fica doente. Passou pela semana do fechamento dormindo quatro horas por noite. Passou pela gripe que derrubou a casa inteira em junho e não pegou nada. Passou pelo velório, pela mudança, pelas duas festas que você organizou sozinha.
O ano inteiro de pé, sem um dia de cama. E logo hoje, na primeira manhã em que ninguém precisa de nada de você, o corpo desliga.
Você já sabe a frase que vem em seguida, porque ela sempre vem. Meu corpo me traiu. Logo agora. Você abre o celular e procura por imunidade baixa, por vitamina, por azar de calendário, e enquanto procura toma banho quente e volta pra cama com raiva de si mesma.
Repara que a acusação não faz sentido nenhum se você olhar o intervalo. O vírus não te encontrou no travesseiro da pousada. Ele estava em você fazia dias, talvez uma semana, e não conseguiu passar de porta nenhuma enquanto a sua agenda continuava de pé.
Alguma coisa mudou na madrugada de ontem pra hoje, e não foi a sua imunidade. Foi a permissão.
A carta de hoje não é sobre ficar mais forte, não é sobre suplemento e não é sobre organizar melhor as férias. É sobre a data que o seu corpo escolhe pra cair, e sobre o que a escolha dessa data conta sobre o ano inteiro que veio antes dela.
Antes de qualquer explicação, vale abrir o calendário do celular e olhar as últimas vezes em que você ficou doente de verdade.
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I O Padrão
As datas em que o seu corpo caiu
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Volta doze meses no calendário do celular e marca as cinco últimas vezes em que você ficou doente. Não a indisposição de meio período, a queda de verdade: febre, cama, remédio, dia perdido.
Repara em que dia da semana cada uma caiu. Sexta à noite, sábado de manhã, primeiro dia de recesso, segunda de feriado prolongado. Se aparecer uma quarta-feira comum no meio de uma semana cheia, ela vai ser a exceção da lista.
Repara na distância entre o fim da corrida e o primeiro sintoma. Costuma ser curta: doze horas, vinte e quatro, quarenta e oito. Você entrega na sexta às seis da tarde e acorda no sábado com o corpo doendo.
Repara no que acontece quando alguém da casa adoece. Enquanto a criança está com febre, você não pega nada, e você atravessa cinco noites picadas dando remédio de três em três horas. Você adoece na semana seguinte, quando ela já voltou pra escola.
Repara na frase que você usa nos dias apertados, aquela que sai quase como ordem. Não posso ficar doente agora. Repara também que ela funciona, e que o preço dela nunca aparece no dia em que é dita.
O seu corpo nunca marcou consulta em semana cheia. |
Repara no que você faz quando um sintoma aparece no meio da correria. Toma o comprimido, dobra a dose de café, decide resolver na segunda. E o sintoma obedece: recua, some, espera.
Repara na duração de cada queda. Ela tende a ocupar exatamente o espaço que existia livre. Três dias de folga viram três dias de cama, e você volta ao trabalho na segunda funcionando.
Repara no que você diz depois pra quem pergunta. Férias perdidas. Recesso jogado fora. Nenhuma dessas frases descreve o que aconteceu, todas elas colocam a culpa no corpo.
Repara em quem estava em volta em cada uma das cinco datas. Provavelmente ninguém dependendo de você naquela manhã específica, ou pelo menos ninguém dependendo com a urgência das outras semanas.
Escreve num papel as três datas mais recentes. Do lado de cada uma, escreve o que tinha terminado nas quarenta e oito horas anteriores: a entrega, a viagem da família, a festa, o mês do inventário.
Olha a lista pronta antes de continuar. Se as três colunas da direita estiverem preenchidas com um fim de alguma coisa, você não está diante de uma sequência de azares.
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II A Ferida
O corpo não caiu, ele esperou
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Vamos ser honestas?
Existe uma explicação para o que acontece na primeira manhã de folga, e ela não tem nada a ver com fraqueza sua.
Enquanto a demanda está de pé, o seu corpo trabalha em regime de emergência. O cortisol sobe e fica alto, a inflamação é segurada, a dor fica abafada, o sono encurta e mesmo assim você levanta às seis. É um regime caro e absurdamente eficiente.
Nesse regime você não fica doente porque a resposta que produz o sintoma está suspensa. A febre, o nariz entupido, a garganta inflamada, tudo o que você chama de doença é o seu sistema de defesa entrando em campo. Com o cortisol lá em cima, ele fica sentado no banco.
Hans Selye descreveu o desenho em três fases: alarme, resistência e exaustão. A queda não acontece durante a resistência. Ela acontece quando a resistência é dispensada.
E a dispensa tem hora marcada. No dia em que a última tarefa sai da lista, o nível baixa. Junto com ele desce tudo o que estava sendo segurado, e a defesa que ficou meses no banco entra em campo de uma vez só, com força de estreia.
Não é o estresse que nos adoece, é a nossa reação a ele. Hans Selye, The Stress of Life, 1956 |
Selye não estava falando de férias. Na sua casa, a frase vira técnica de calendário: a conta do ano não é paga durante, é paga depois, e o corpo escolhe o dia em que pagar sai mais barato pra todo mundo.
Repara no nome que você deu pro fenômeno. Traição. E repara no que o nome faz: coloca você contra o único aparelho que te avisa de alguma coisa, e transforma o mensageiro em inimigo.
Repara no que a acusação esconde. A febre da primeira manhã não é a conta das férias. É a conta dos onze meses que vieram antes, apresentada no primeiro balcão que abriu.
E tem a parte mais funda, a que ninguém comenta na mesa. A mulher que atravessa o ano de pé é elogiada justamente por atravessar. Ela é de ferro, ela nunca fica doente, ela não para nunca. A saúde vira reputação, e reputação cobra manutenção.
Reputação de ferro custa caro no detalhe. Você para de comentar sintoma em voz alta, adia o exame que está marcado desde março, engole o comprimido no corredor. O corpo aprende que dentro da semana não existe canal aberto.
E aí ele faz a mesma conta que você faz o tempo todo. Cair na quarta da entrega custa caro pra todo mundo em volta. Cair no sábado de manhã custa só a você. Ele escolheu a data em que o prejuízo era menor, do mesmo jeito que você escolheria.
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