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Você lembra a última vez que sentiu fome de verdade e comeu com calma?
Não o almoço engolido em pé na pia, entre uma tarefa e outra. Fome sentida, comida sem pressa, com você inteira ali. E te digo com carinho: se você teve que pensar muito pra lembrar, tem uma coisa nossa que a gente nunca falou, a mais silenciosa de todas.
Você abandonou o próprio corpo faz tempo. E nem percebeu.
I · O PADRÃO
A mulher que vive do pescoço pra cima
Você virou uma cabeça que arrasta um corpo.
A cabeça pensa, planeja, resolve, antecipa, lembra de tudo. O corpo é só o veículo que leva essa cabeça de uma tarefa pra outra. Você o trata como trata um funcionário: exige que ele funcione, ignora quando ele reclama, e só olha pra ele quando ele para de entregar.
Você bebe água quando lembra, não quando tem sede. Vai ao banheiro quando dá, não quando o corpo pede. Dorme quando sobra tempo, não quando ele precisa. Come o que der, na hora que der.
O corpo avisa baixinho a manhã inteira. A tensão no ombro, a mandíbula travada, o cansaço que já era pra ter virado descanso. E você não escuta. Você aprendeu a passar por cima da própria sensação como quem passa por cima de um pedido inconveniente.
Aí ele grita. Uma crise de gastrite, uma dor nas costas que te trava, uma noite inteira sem sono, um choro que vem do nada no meio do dia.
E você fica surpresa. Como se o corpo tivesse te traído.
Ele não traiu. Ele avisou por meses. Você é que estava do pescoço pra cima, longe demais pra ouvir.
II · A FERIDA
O corpo que virou ferramenta
Em algum momento, você parou de habitar o seu corpo e passou a usá-lo.
Ele deixou de ser você e virou uma coisa a serviço dos outros. Um par de mãos que cozinha, que carrega, que abraça criança, que segura marido, que dá conta. Um corpo-utilidade, avaliado pelo que produz, nunca pelo que sente.
E quando o corpo é só ferramenta, você para de senti-lo por dentro. O prazer de um banho quente vira higiene apressada. O toque vira mais uma demanda no fim do dia. A comida vira combustível. A própria beleza, quando você olha no espelho, você mede pelo que falta, nunca pelo que é.
Repara na frase que você diz sem pensar: "Não tenho tempo pra mim." Como se o seu corpo fosse um item da lista, o último, o que sempre fica pra depois. Como se cuidar de você fosse luxo, e não a base de tudo.
Tem raiz. A menina que você foi aprendeu cedo que o corpo dela era pra servir e agradar, não pra habitar e sentir. Que desejo era perigoso, descanso era preguiça, e cuidar de si era egoísmo. Então ela mudou pra dentro da cabeça, onde é mais seguro. E te deixou aí, morando num só cômodo de uma casa inteira.
Não é falta de disciplina. É desabitar. Você foi expulsa da própria casa devagar, e a chave ficou na sua mão o tempo todo.
Você cuida da casa, do carro, das plantas, de todo mundo. O corpo que carrega você é a única coisa que nunca entrou na lista. |
III · O RESGATE
Voltar a morar em você
O caminho de volta não é uma academia nova nem uma dieta. É mais simples e mais difícil: é voltar a sentir.
Começa pequeno, pelo corpo mesmo, sem projeto grandioso. Uma respiração funda quando a mandíbula travar, só pra lembrar que você tem um corpo abaixo do queixo. Um copo de água tomado devagar, sentindo. Um banho de dois minutos a mais, quente, só seu, sem pressa de sair.
É comer sentada, uma refeição por dia, com você inteira na mesa. É perceber a fome antes dela virar tontura. É deitar quando o corpo pede, e não quando a lista termina, porque a lista nunca termina.
É perguntar, várias vezes ao dia, uma coisa que você desaprendeu: como eu estou agora? Não o que falta fazer. Como eu, aqui dentro, estou.
No começo você não vai saber responder. Faz anos que ninguém pergunta, nem você. A resposta vem devagar, como volta a sensibilidade num membro que estava dormente. Formiga, incomoda, e depois sente de novo.
Vai ter culpa. Toda vez que você parar pra sentir, uma voz vai dizer que tem coisa mais importante pra fazer. Deixa ela falar e continua. Você já provou a vida inteira que dá conta de tudo do pescoço pra cima. Agora você está aprendendo a coisa mais difícil: descer.
Porque o seu corpo não é o transporte da sua vida. Ele é a sua vida. É onde o carinho chega, onde o prazer mora, onde o cansaço avisa, onde a alegria acontece antes de virar pensamento. Sem ele habitado, você assiste à própria vida de longe, pela janela da cabeça.
Volta pra dentro. A casa é sua, sempre foi. E ela sente a sua falta há tempo demais.
O corpo não é a casa que você limpa pros outros. É a casa onde você mora.
Com ternura, Resgate do Feminino
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