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O exercício desta semana não pede discurso sobre autocuidado nem briga sobre divisão de tarefa. Pede dois movimentos pequenos e mensuráveis, que cabem em três manhãs comuns.
O primeiro movimento vale para as próximas três manhãs, sejam elas de trabalho, de folga ou de sábado. A regra tem uma linha: vinte minutos seus marcados no despertador antes do resto da casa acordar, usados no corpo e em nada além. Cabelo lavado e seco, unha, creme no pé, banho demorado, sua escolha. Solange marcou cinco e quarenta e escreveu o horário num papel colado no espelho do banheiro, porque horário combinado na véspera segura melhor que horário decidido no susto da manhã.
No papel da geladeira, uma linha por manhã com três informações: o que você fez com os vinte minutos, se a casa reclamou e quantos minutos de celular em pé sobraram no dia. Solange anotou três manhãs em oito dias. Ninguém reclamou nas duas primeiras. Na terceira, o filho perguntou se tinha acabado o café, achou a garrafa cheia atrás da fruteira e serviu sozinho.
O segundo movimento é a frase curta sobre a louça, dita uma vez, com tarefa nomeada e horário: "a louça do jantar é sua a partir de hoje, até as nove da noite". Pedido de tamanho definido, dito de manhã com todo mundo acordado, porque pedido feito às onze da noite na frente da pia vira discussão sobre quem está mais cansado.
Três manhãs, vinte minutos marcados no despertador, um comentário da casa em oito dias e uma louça que passou a ser de outra pessoa. |
Prepara-se para uma reação previsível. Alguém vai dizer "nossa, tá arrumada hoje". Responde curto, sem subir o tom: "lavei o cabelo, tava com vontade". Frase fechada, sem justificativa e sem piada de volta, porque piada abre rodada e a rodada devolve a decisão para a casa.
Prepara-se também para um desconforto seu nos primeiros minutos, que é normal e passa. Ficar vinte minutos no banheiro com a casa dormindo dá uma sensação física de atraso, como se você estivesse devendo tempo a alguém. Solange secou o cabelo na primeira manhã com a porta entreaberta, ouvindo o corredor, e desligou o secador duas vezes para escutar melhor. Na segunda manhã fechou a porta. Na terceira, ligou o rádio.
O que ela ganhou cabe em quatro linhas do papel. Descobriu que o cabelo dela ondula na altura da orelha quando seca solto, respondendo uma pergunta de seis anos com um secador que já morava no armário. Passou a dizer o corte que quer quando a cabeleireira pergunta. Cortou os dezenove minutos de celular em pé para sete, porque o despertador mais cedo empurrou a manhã inteira. A louça do jantar saiu da coluna dela em seis das oito noites.
Teste nas próximas três manhãs, com o papel na geladeira: marque vinte minutos seus antes da casa acordar, gaste os vinte no seu corpo, e anote uma linha por manhã com o que você fez, o comentário que apareceu e os minutos de celular em pé que sobraram. Na quarta manhã, some as três linhas e diga a frase de uma linha sobre a louça com horário e nome. O resultado esperado é nenhum comentário nas duas primeiras manhãs, no máximo um na terceira, e uma resposta clara sobre o seu próprio corpo que estava sem resposta há anos, medida em minutos que você já gastava de pé com o celular na mão.
"Quantos minutos você gastou hoje com o seu próprio corpo, e quantos gastou esperando alguém da sua casa acordar?"
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