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Na próxima compra, um item entra no carrinho por escolha sua, provada na hora. Um só. Se for o café, melhor ainda, porque ele volta todo dia e cobra resposta.
O primeiro passo é ir até a prateleira do café e não pegar o pacote conhecido. Fica ali parada com o carrinho ao lado. Trinta segundos, olhando as outras opções, sem justificar pra ninguém por que você está parada num corredor.
O segundo passo é escolher por um critério que seja seu. Pode ser o mais escuro, pode ser o de moagem grossa, pode ser aquele da embalagem que você sempre achou bonita e nunca teve motivo pra levar. Motivo bobo serve, motivo bobo é motivo.
O terceiro passo é comprar sem tirar o outro. O café da casa continua na compra, porque isso não é troca nem protesto. São dois pacotes na despensa, e a existência dos dois é o ponto inteiro do exercício.
O quarto passo é usar o seu na primeira manhã depois da compra. Não guardar pra um dia especial, não esperar visita. Você passa, você toma, e presta atenção na resposta do seu corpo antes de pensar qualquer coisa.
Escolher errado ainda é escolher. Um pacote de café que você não gostou custa doze reais e devolve uma informação que nove anos de acerto automático nunca deram. |
Pode acontecer de você não gostar. É um resultado ótimo, e vale dizer com todas as letras: você descobriu uma preferência sua, com dado próprio, e o dado só existe porque você provou.
E tem o outro resultado, o que costuma pegar de surpresa. Você gosta, gosta bastante, e vem junto uma tristeza esquisita no meio da manhã. É o preço da conta, e ela aparece porque o gosto que voltou passa recibo do tempo que ficou fora.
Não faz nada com essa tristeza além de deixar ela existir até o fim do café. Ela não pede reparação de ninguém, não pede conversa dura, não pede mudança de vida. Ela só marca a data em que você voltou a ser consultada.
A regra que faz o exercício funcionar é uma só: não pedir permissão nem anunciar. Não avisar em casa que agora você tem o seu café, não perguntar se alguém se importa. Um item comprado com aviso prévio volta a ser um item negociado.
Se alguém perguntar sobre os dois pacotes na despensa, a resposta cabe em cinco palavras: quis provar um café diferente. Sem defesa, sem explicação longa, porque explicação longa é pedido de permissão em outro formato.
Na compra seguinte, repete com outro item. Um por semana, sem meta e sem lista de resgate. Em três meses são doze itens da sua casa que passaram por você, e a contagem de E do inventário muda de patamar sem nenhum confronto.
E tem a descoberta que só chega depois do terceiro ou quarto item. Não é sobre café, sobre queijo nem sobre sabonete. É que a sua opinião voltou a ser um dado disponível, dentro de uma casa que tinha aprendido a rodar sem ela.
"Se ninguém em casa te impede de escolher, o que você escolheria na próxima compra?"
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