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O cachorro que a família inteira pediu
A carta pra quem ficou sozinha com a coleira de um desejo que era de todos.
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Uma coleira esperando no gancho da porta.
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"Eu juro que passeio com ele todo dia, mãe", disse Gabriel, de onze anos, na frente do cercado da feira de adoção do Parque Halfeld, em Juiz de Fora, num sábado de agosto de 2024. A irmã, Júlia, de catorze, levantou a mão como quem assina contrato. O pai, Rodrigo, completou: "A gente reveza, cada um tem o seu dia".
Cláudia Regina Antunes assinou o termo de adoção. O vira-lata caramelo de seis meses saiu da feira com uma coleira vermelha nova e um nome votado dentro do carro, por três votos a um: Pipoca. O voto contra foi dela, que preferia Tobias.
Na primeira semana, houve escala. Júlia desenhou uma tabela com os dias da semana e colou na geladeira com um ímã de pizzaria. Segunda e quarta, Gabriel. Terça e quinta, Júlia. Sexta, Rodrigo. Sábado e domingo, quem acordasse primeiro.
Na terceira semana, Gabriel pediu para trocar a quarta pela sexta porque tinha treino de futsal. Na quinta semana, Júlia começou a pegar o ônibus da escola às seis e meia e avisou que de manhã não dava. Rodrigo passou a sair tarde do trabalho e chegava com o cachorro já dormindo.
Pipoca, que não lia tabela, continuou acordando às cinco e quarenta e arranhando a porta do quarto do casal. Quem levantava era Cláudia, porque era ela quem dormia do lado da porta.
Dois anos depois, a tabela ainda está na geladeira, desbotada, com o ímã de pizzaria em cima do nome de Rodrigo. Cláudia sai com o cachorro às seis da manhã, de segunda a domingo. Faz o mesmo trajeto de vinte e cinco minutos pela Rua Santo Antônio, com o saquinho no bolso do moletom, e volta a tempo de passar o café antes de alguém acordar.
Ninguém em casa decidiu que seria assim. Ninguém lembra do dia em que a escala acabou, e ela também não lembra. O que Cláudia lembra é da pergunta que uma colega fez no hospital, numa troca de plantão, e que a levou a contar quantos passeios eram dela.
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I O Padrão
A tabela presa na geladeira
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Cláudia Regina Antunes tem quarenta e três anos e é técnica de enfermagem no setor de clínica médica de um hospital no centro de Juiz de Fora, em Minas Gerais. Mora com o marido, Rodrigo, e os filhos, Júlia, hoje com dezesseis, e Gabriel, com treze.
A pergunta veio de Denise, a colega do plantão da tarde, enquanto as duas conferiam a lista de medicação. Denise viu Cláudia bocejar pela terceira vez e quis saber se o cachorro ainda acordava a casa toda. Cláudia respondeu que acordava só ela.
Denise perguntou quem mais passeava com ele. Cláudia abriu a boca para dizer "a gente reveza" e parou no meio da frase.
Naquela noite, ela abriu o aplicativo de passos do celular, que guardava o histórico de caminhadas, e contou setembro inteiro. Foram trinta passeios de manhã, todos dela. À noite, contou mais nove, e sete também eram dela. Gabriel tinha levado o Pipoca duas vezes, as duas num sábado em que queria mostrar o cachorro para um amigo.
O PEDIDO ERA DE TODOS
O cachorro tinha sido pedido em votação, com discurso e promessa. O passeio tinha virado tarefa sem votação nenhuma. Ninguém entregou a coleira para Cláudia; a coleira foi ficando na mão dela, uma manhã de cada vez.
Ela fez a mesma conta com o resto do que o Pipoca exigia. A carteira de vacinação estava na gaveta dela, com as datas anotadas a lápis. O saco de ração de quinze quilos entrava na lista de mercado com a letra dela. A consulta da otite, em março, tinha sido marcada no celular dela e paga no cartão dela.
Quatro votos pelo cachorro, um par de mãos na coleira. |
O que Cláudia viveu tem número no Brasil. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do IBGE, de 2022, mediu que as mulheres gastam 21,3 horas por semana com afazeres domésticos e cuidado de pessoas, e os homens, 11,7 horas. A pesquisa não conta cachorro, mas conta exatamente o tipo de tarefa que entra em casa como desejo de todos e fica com uma pessoa só.
Rodrigo não era contra passear. Os filhos também não. Cada um lembrava das próprias vezes e achava que os outros cobriam o resto.
Faltava entender por que ela nunca tinha reclamado em dois anos.
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II A Ferida
O galinheiro do quintal de Ubá
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A resposta estava em Ubá, na Zona da Mata mineira, a cem quilômetros de Juiz de Fora, no quintal da casa onde Cláudia cresceu. Em 1993, quando ela tinha dez anos, o pai e os três irmãos quiseram criar galinhas. Votaram na mesa do almoço, como a família dela votaria o nome do Pipoca trinta anos depois.
O pai construiu o galinheiro num fim de semana. Os meninos escolheram os nomes das seis galinhas. Em um mês, quem acordava às cinco para soltar as aves, trocar a água e recolher os ovos era a mãe, dona Lourdes Antunes, que trabalhava como merendeira numa escola estadual e saía de casa às seis e quinze.
Cláudia lembra de ver a mãe no quintal, de camisola e chinelo, com o balde de milho na mão, ainda escuro. Nunca ouviu dona Lourdes reclamar. Ouviu, sim, o pai contar para as visitas que os ovos eram "da criação dos meninos".
O OVO TINHA OUTRO DONO
O galinheiro durou onze anos. Em todos eles, os ovos eram da família e o trabalho era da mãe. Dona Lourdes nunca discutiu a divisão, porque discutir significaria admitir que alguém tinha falhado, e ela preferia fazer a ter de cobrar.
Cláudia herdou o gesto inteiro. Na primeira manhã em que Júlia não levantou, ela pensou que era mais rápido ir do que acordar a filha. Na segunda, pensou a mesma frase. Na décima, já não pensava, só calçava o tênis.
Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Simone de Beauvoir, O Segundo Sexo, 1949 |
Beauvoir abriu o segundo volume do livro com essa frase para dizer que o lugar da mulher na casa se aprende, gesto por gesto, desde menina. Cláudia aprendeu no quintal de Ubá que o desejo da família vira tarefa da mãe sem que ninguém precise pedir.
Havia ainda um segundo motivo, que ela só disse depois, para Denise. O passeio das seis era também os únicos vinte e cinco minutos do dia em que ninguém pedia nada a ela. Cláudia gostava daquela rua vazia. Por esse motivo, nunca soube separar o cansaço do passeio da vontade de manter aquele silêncio, e as duas sensações ficaram presas na mesma coleira.
Dona Lourdes, hoje com setenta e um anos, ainda mora em Ubá. O galinheiro virou canteiro de couve em 2004, quando o último filho saiu de casa e ninguém mais quis ovo.
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