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O avental azul na pia da sogra
A carta pra quem leva a sobremesa pronta e passa o domingo lavando a louça dos outros.
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O avental azul no gancho da cozinha.
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Na cozinha de azulejo amarelo de uma casa da Vila Arens, em Jundiaí, às duas e quinze de um domingo de setembro, Neusa Mendes falou alto para a sala inteira ouvir: “Deixa a louça com a Juliana, ela gosta”. Juliana Prado Mendes, trinta e quatro anos, já estava com as mãos dentro da pia.
Ela tinha chegado ao meio-dia com um pavê de chocolate numa travessa de vidro, montado no sábado, das dez da noite até quase uma da manhã, na cozinha do apartamento dela em Campinas.
O almoço reuniu doze pessoas: os sogros, os dois cunhados, as esposas deles, quatro crianças, o marido de Juliana, Diego, e ela. A macarronada e o frango assado saíram do forno de Neusa. O pavê saiu da geladeira de Juliana.
Às duas da tarde, o São Paulo entrou em campo contra o Palmeiras. Diego, o sogro Antônio e os cunhados levaram as cadeiras para a frente da televisão. Ninguém pediu nada a Juliana. Ela levantou, empilhou os pratos e foi para a pia.
Num gancho ao lado do fogão fica pendurado um avental florido azul que Neusa comprou numa feira de Atibaia. Juliana vestiu sem pensar, como veste há oito anos de domingos.
Lavou trinta e um pratos, dezoito copos, duas formas e a travessa do próprio pavê. Secou e guardou tudo nas portas certas do armário, que ela sabe de cor numa casa onde nunca morou. Passou um café. Varreu o chão da cozinha.
Quando fechou a torneira, eram quatro e quarenta. O jogo tinha terminado empatado, e Diego perguntou da sala se ela já estava pronta para ir embora.
No carro, na Rodovia dos Bandeirantes, Juliana tirou do pulso o elástico de cabelo encharcado de detergente e percebeu que não tinha comido uma colher do próprio pavê. O avental que ninguém pediu para ela vestir vem de um roteiro que se repete todo domingo, e esse roteiro tem data de início.
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I O Padrão
O pavê na travessa de vidro
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Juliana Prado Mendes casou com Diego Mendes em abril de 2018 e, desde o primeiro domingo de casada, almoça na casa dos sogros em Jundiaí, a quarenta minutos de Campinas. Ela é enfermeira da UTI de um hospital particular e faz plantões de doze horas, três por semana.
No primeiro almoço, levou um pudim. Neusa elogiou na frente de todos e anunciou que, dali em diante, a sobremesa era da nora. Juliana entendeu como carinho. Em oito anos, chegou sem sobremesa duas vezes, as duas por causa de plantão.
O roteiro do domingo nunca foi combinado com ninguém. Ela chega, cumprimenta, entrega a travessa e pergunta à sogra se precisa de ajuda. Neusa responde que está tudo pronto. Dez minutos depois, Juliana está cortando a salada.
Em plantão, Juliana passa doze horas em pé entre leitos, troca curativos e mede pressão de hora em hora. No domingo, o corpo dela pede cadeira. Mesmo assim, é ela quem levanta primeiro quando o último garfo desce no prato.
O CADERNO DE SETEMBRO
Em setembro, ela anotou num caderno de capa vermelha o que fez nos quatro domingos na casa dos sogros. Os quatro registros seguem a mesma ordem: sobremesa, salada, mesa posta, pratos, pia, café, chão.
Somou as horas em pé na cozinha da sogra: dez horas e quarenta minutos no mês. Somou também as horas sentada com a família: uma hora e vinte, quase todas durante o almoço.
As duas cunhadas, Patrícia e Larissa, ajudaram a tirar a mesa em dois desses domingos e voltaram para a sala com as crianças. Nenhum homem entrou na cozinha, exceto Antônio, para buscar cerveja na geladeira.
No domingo do dia 21, o pavê acabou antes de Juliana sair da pia. Uma das crianças raspou a travessa com a colher e trouxe para ela lavar.
Ela leva a sobremesa pronta e sai devendo a tarde. |
Diego nunca pediu que ela lavasse a louça da mãe dele. Quando Juliana mostrou o caderno, ele disse, sincero, que achava que ela preferia ficar na cozinha, porque estava sempre lá.
Juliana não soube dizer se preferia. Sabia só que, quando sentava no sofá com a pia cheia, sentia um aperto no estômago, como quem esqueceu o fogão aceso numa casa que não é a sua.
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II A Ferida
A avó que comia de pé
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A avó materna de Juliana, Zulmira Prado, foi casada cinquenta e um anos com um ferroviário de Rio Claro, no interior de São Paulo. Nas festas da família, Zulmira comia de pé, encostada no balcão, com o prato numa mão e a colher na outra.
Juliana lembra de um Natal, aos nove anos, em que perguntou por que a avó não sentava. Zulmira respondeu: “Mulher que senta em casa de parente fica com fama de folgada”. A mãe de Juliana, Sônia, riu e foi ajudar a servir.
Sônia levou a regra para a casa da própria sogra. Juliana cresceu vendo a mãe chegar aos almoços da família com um bolo de fubá e voltar com as mãos vermelhas de detergente.
Nos aniversários da família em Rio Claro, as mulheres comiam por último, na cozinha, o que sobrava nas travessas. Os homens comiam primeiro, na mesa da sala, servidos por elas. Juliana nunca ouviu ninguém chamar esse arranjo de regra, porque ninguém precisava.
O TURNO QUE NINGUÉM CONTA
O IBGE mediu esse peso na PNAD Contínua (a pesquisa nacional que visita domicílios o ano todo) de 2022: as mulheres brasileiras gastaram em média 21,3 horas por semana com afazeres domésticos e cuidado de pessoas, e os homens, 11,7.
A conta do IBGE registra a casa onde a pessoa mora. A cozinha da sogra, a pia do aniversário da tia e a mesa do almoço de domingo ficam fora da pesquisa, e é nelas que a regra da avó Zulmira continua valendo.
Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Simone de Beauvoir, O Segundo Sexo, 1949 |
Simone de Beauvoir escreveu a frase para dizer que boa parte do que se espera de uma mulher é aprendida, gesto por gesto. Vestir o avental na casa alheia é um desses gestos: ninguém ensina com palavras, a menina aprende olhando a avó comer de pé.
A ferida de Juliana mora no estômago. O aperto no sofá vem do medo antigo da fama de folgada, herdado de Zulmira por meio de Sônia. Lavar trinta e um pratos nunca foi um gosto dela.
Neusa também aprendeu a regra, com a mãe dela. Serve todo mundo e só senta quando o café está na mesa. Num domingo de setembro, Juliana perguntou à sogra quando ela descansava. Neusa respondeu que descansava na segunda-feira, quando a casa ficava vazia.
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