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Cristiane Albuquerque Nogueira nasceu em 1981, em Londrina, a primeira dos dois filhos de Aurélio, bancário aposentado, e de Dirce, professora primária. Fábio veio quatro anos depois.
COMO A LISTA VIROU FUNÇÃO
Aos 12 anos, ela já anotava os remédios da avó materna num caderno de capa azul, porque a mãe dava aula em dois turnos. Aos 20, pagava as contas da casa enquanto o pai ficou internado por uma pneumonia.
Em 2019, na cirurgia de vesícula da mãe, foi ela quem passou a noite na sala de espera do Hospital Evangélico, com a pasta dos exames no colo. Fábio mandava mensagem de Curitiba perguntando se precisava de ajuda. Ela respondia que estava tudo sob controle.
A família aprendeu o caminho. Quando faltava um documento, ligavam para Cristiane. Quando um primo casava, era ela quem tinha o endereço de todo mundo para o convite.
Na família Nogueira, a pergunta “quem resolve?” tinha uma resposta só. |
No velório, o padrão apareceu inteiro. O funcionário da funerária entrou na capela e perguntou “quem é a responsável?”. Três tios apontaram para ela ao mesmo tempo.
Ela fez as 23 tarefas daquela quarta-feira sozinha. A lista ficou salva no celular, com hora: café às 6h30, certidão de óbito às 6h40, flores às 6h55, telefonema ao padre da Catedral às 9h para marcar a missa de sétimo dia.
Fábio chegou às 11h e foi direto abraçar a mãe, trazida pela vizinha. Ficou ao lado do caixão o resto do dia, recebendo os amigos do pai. Ninguém pediu tarefa a ele.
Cristiane ficou perto da porta. Dali ela via quem chegava, apontava a mesa do café, explicava onde ficava o banheiro e marcava quem ainda faltava avisar.
O enterro foi às 17h. Na volta, no carro, a mãe perguntou se ela tinha lembrado de encomendar o santinho da missa (o cartão com a foto e uma oração, entregue a quem vai à igreja). Tinha. A gráfica entregava na segunda.
Os dias seguintes repetiram a quarta. Na quinta, cartório e banco. Na sexta, a pensão no INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) e a conta de luz no nome do pai. No sábado, a lista de convidados da missa, marcada para a terça seguinte, às 19h30.
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Cristiane Albuquerque Nogueira contou as mensagens no domingo à noite, sentada na cama, sem sono. Abriu o WhatsApp e foi conversa por conversa, desde a madrugada da quarta.
O QUE AS MENSAGENS PERGUNTAVAM
Eram 63 mensagens de parentes e amigos da família. Quarenta e uma pediam informação: horário, endereço da capela, quadra do túmulo, dia da missa. Doze eram condolências prontas, com figurinha de vela ou de pomba. Dez pediam a chave PIX para dividir as flores.
Nenhuma das 63 perguntava por ela.
Ela reconheceu o próprio jeito nas respostas. Para a tia Neusa, que quis saber se precisava levar algo para a missa, escreveu “não precisa, tia, já está tudo certo”. Para a prima Luciana, que mandou “força, Cris”, respondeu com o horário da missa.
Nas respostas dela, o pai também não aparecia. Nenhuma frase sobre ele. Só horários, endereços e valores.
“A vida muda rápido. A vida muda num instante. Você se senta para jantar, e a vida que você conhece acaba.” Joan Didion, O Ano do Pensamento Mágico, 2005 |
Joan Didion, escritora norte-americana, escreveu o livro depois de perder o marido, o escritor John Gregory Dunne, de forma súbita, em dezembro de 2003. Ela conta que, naquela noite, cuidou de papéis e ligações com tanta calma que o assistente social do hospital a chamou de “a pretty cool customer” (uma pessoa muito controlada).
Cristiane conhecia o elogio. Na capela, uma prima comentou com outra, perto do café, que a Cris era “muito forte”. Ela ouviu e sentiu orgulho. No domingo, com o celular na mão, entendeu o recado: forte queria dizer “não precisa perguntar”.
A soma da semana estava no bloco de notas: 23 tarefas na quarta, 14 entre quinta e sábado, 86 abraços, 63 mensagens. Choro, nenhum. Desde a ligação do hospital, ela não tinha chorado uma vez.
Ela tentou lembrar a última vez em que alguém da família tinha perguntado como ela estava. Não lembrou. A pergunta, na casa dos Nogueira, sempre ia para a mãe, para o pai doente ou para Fábio, que morava longe.
Na segunda de manhã, buscou os santinhos na gráfica. Na foto, o pai sorria de camisa xadrez. Cristiane conferiu a grafia do nome, pagou e guardou a caixa no porta-luvas sem olhar de novo.
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