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ED 153
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Ninguém perguntou a Cristiane como ela estava no velório

A carta pra filha que virou secretária do próprio luto e não teve tempo de chorar o pai.

Garrafas térmicas e copinhos sobre uma mesa de toalha branca numa capela

A mesa do café na capela, em Londrina.

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A tia Neusa perguntou na porta da capela do Cemitério São Pedro, em Londrina, às 7h50 de uma quarta-feira de março de 2025: “Cris, o café já chegou?” Cristiane Albuquerque Nogueira olhou o relógio do celular e respondeu que a padaria entregava às 8h.

Fazia 14 horas que o pai dela, Aurélio Nogueira, tinha partido no Hospital Evangélico, aos 76 anos, de insuficiência cardíaca. Cristiane, de 44 anos, a filha mais velha, ainda usava a blusa da véspera.

Na madrugada, ela tinha montado uma lista no bloco de notas do celular. Quarenta nomes de parentes, separados por cidade: Londrina, Cambé, Maringá, Curitiba e dois primos em Presidente Prudente.

Avisou cada um entre 1h e 6h da manhã. Para os mais velhos, ligação. Para os primos, áudio. Para o lado da família da mãe, uma mensagem só, copiada e colada 17 vezes, com o horário do velório e o endereço da capela.

Às 7h, já tinha escolhido o caixão com o funcionário da funerária, assinado a autorização do sepultamento e pagado as flores por PIX. O irmão, Fábio, vinha de carro de Curitiba e chegava às 11h. A mãe, Dirce, dormia em casa, sedada, com a vizinha ao lado.

O café chegou às 8h05: três garrafas térmicas, dois pacotes de copinhos e 120 pães de queijo, encomendados por ela às 6h30 na padaria da esquina de casa.

Ao longo do dia, passaram pela capela 86 pessoas. Cristiane contou depois, pelo livro de presença. Cada uma abraçou, disse “meus sentimentos” e quis saber um detalhe: o horário do enterro, onde estacionar, se a missa de sétimo dia seria na Catedral.

Nenhuma perguntou como ela estava.

A pergunta só chegou no quinto dia, por telefone, de alguém fora da família. Até lá, Cristiane seguiu fazendo o papel que ocupava na casa havia mais de 30 anos, desde um caderno de capa azul.

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I  O Padrão

A filha da lista

Cristiane Albuquerque Nogueira nasceu em 1981, em Londrina, a primeira dos dois filhos de Aurélio, bancário aposentado, e de Dirce, professora primária. Fábio veio quatro anos depois.

COMO A LISTA VIROU FUNÇÃO

Aos 12 anos, ela já anotava os remédios da avó materna num caderno de capa azul, porque a mãe dava aula em dois turnos. Aos 20, pagava as contas da casa enquanto o pai ficou internado por uma pneumonia.

Em 2019, na cirurgia de vesícula da mãe, foi ela quem passou a noite na sala de espera do Hospital Evangélico, com a pasta dos exames no colo. Fábio mandava mensagem de Curitiba perguntando se precisava de ajuda. Ela respondia que estava tudo sob controle.

A família aprendeu o caminho. Quando faltava um documento, ligavam para Cristiane. Quando um primo casava, era ela quem tinha o endereço de todo mundo para o convite.

Na família Nogueira, a pergunta “quem resolve?” tinha uma resposta só.

No velório, o padrão apareceu inteiro. O funcionário da funerária entrou na capela e perguntou “quem é a responsável?”. Três tios apontaram para ela ao mesmo tempo.

Ela fez as 23 tarefas daquela quarta-feira sozinha. A lista ficou salva no celular, com hora: café às 6h30, certidão de óbito às 6h40, flores às 6h55, telefonema ao padre da Catedral às 9h para marcar a missa de sétimo dia.

Fábio chegou às 11h e foi direto abraçar a mãe, trazida pela vizinha. Ficou ao lado do caixão o resto do dia, recebendo os amigos do pai. Ninguém pediu tarefa a ele.

Cristiane ficou perto da porta. Dali ela via quem chegava, apontava a mesa do café, explicava onde ficava o banheiro e marcava quem ainda faltava avisar.

O enterro foi às 17h. Na volta, no carro, a mãe perguntou se ela tinha lembrado de encomendar o santinho da missa (o cartão com a foto e uma oração, entregue a quem vai à igreja). Tinha. A gráfica entregava na segunda.

Os dias seguintes repetiram a quarta. Na quinta, cartório e banco. Na sexta, a pensão no INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) e a conta de luz no nome do pai. No sábado, a lista de convidados da missa, marcada para a terça seguinte, às 19h30.

II  A Ferida

Sessenta e três mensagens

Cristiane Albuquerque Nogueira contou as mensagens no domingo à noite, sentada na cama, sem sono. Abriu o WhatsApp e foi conversa por conversa, desde a madrugada da quarta.

O QUE AS MENSAGENS PERGUNTAVAM

Eram 63 mensagens de parentes e amigos da família. Quarenta e uma pediam informação: horário, endereço da capela, quadra do túmulo, dia da missa. Doze eram condolências prontas, com figurinha de vela ou de pomba. Dez pediam a chave PIX para dividir as flores.

Nenhuma das 63 perguntava por ela.

Ela reconheceu o próprio jeito nas respostas. Para a tia Neusa, que quis saber se precisava levar algo para a missa, escreveu “não precisa, tia, já está tudo certo”. Para a prima Luciana, que mandou “força, Cris”, respondeu com o horário da missa.

Nas respostas dela, o pai também não aparecia. Nenhuma frase sobre ele. Só horários, endereços e valores.

“A vida muda rápido. A vida muda num instante. Você se senta para jantar, e a vida que você conhece acaba.”

Joan Didion, O Ano do Pensamento Mágico, 2005

Joan Didion, escritora norte-americana, escreveu o livro depois de perder o marido, o escritor John Gregory Dunne, de forma súbita, em dezembro de 2003. Ela conta que, naquela noite, cuidou de papéis e ligações com tanta calma que o assistente social do hospital a chamou de “a pretty cool customer” (uma pessoa muito controlada).

Cristiane conhecia o elogio. Na capela, uma prima comentou com outra, perto do café, que a Cris era “muito forte”. Ela ouviu e sentiu orgulho. No domingo, com o celular na mão, entendeu o recado: forte queria dizer “não precisa perguntar”.

A soma da semana estava no bloco de notas: 23 tarefas na quarta, 14 entre quinta e sábado, 86 abraços, 63 mensagens. Choro, nenhum. Desde a ligação do hospital, ela não tinha chorado uma vez.

Ela tentou lembrar a última vez em que alguém da família tinha perguntado como ela estava. Não lembrou. A pergunta, na casa dos Nogueira, sempre ia para a mãe, para o pai doente ou para Fábio, que morava longe.

Na segunda de manhã, buscou os santinhos na gráfica. Na foto, o pai sorria de camisa xadrez. Cristiane conferiu a grafia do nome, pagou e guardou a caixa no porta-luvas sem olhar de novo.

 

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III  O Resgate

A pergunta de Marta

Marta Siqueira, colega de Cristiane Albuquerque Nogueira no setor financeiro de uma cooperativa agrícola de Londrina, ligou na segunda à tarde, o quinto dia depois do enterro.

Cristiane atendeu já explicando: a missa seria na terça, às 19h30, na Catedral, e não precisava levar nada. Marta deixou a amiga terminar e disse: “Eu não liguei pra saber da missa. Liguei pra saber de você.”

Cristiane ficou calada no telefone por alguns segundos. Depois disse a primeira frase sobre si mesma em seis dias: “Eu não sei. Eu não parei.”

Uma pergunta feita por inteiro abriu o que 63 mensagens deixaram fechado.

Marta pediu para ouvir o que ainda faltava para a missa. Cristiane leu a lista em voz alta. Eram cinco itens. Marta propôs uma troca: Cristiane ficaria com um só, o mais difícil de largar, e passaria os outros quatro adiante ainda naquela tarde.

O QUE ELA PASSOU ADIANTE

1. O café depois da missa: foi para a prima Luciana, que tinha oferecido ajuda por mensagem no sábado.

2. Os santinhos na porta da Catedral: foram para Fábio, com a caixa do porta-luvas e a instrução de entregar um por pessoa.

3. As ligações aos parentes de fora: ficaram com a tia Neusa, que recebeu a lista de nomes por mensagem.

4. A oferta da missa: Marta levou o envelope à secretaria da paróquia na terça cedo.

O quinto item ficou com ela: ler o agradecimento da família no fim da missa. Era o único da lista com o nome do pai no meio.

Na terça, às 19h30, Cristiane sentou no primeiro banco, ao lado da mãe, sem o celular na mão. Quando o padre leu “Aurélio Nogueira” entre os nomes lembrados da semana, ela chorou pela primeira vez desde a ligação do hospital. Chorou a missa inteira.

No fim, subiu ao microfone e leu o agradecimento com a voz falhando. Na saída, Fábio entregava os santinhos. Luciana servia o café no salão paroquial.

A tia Neusa se aproximou com um copinho na mão. Perguntou, pela primeira vez naqueles sete dias: “E você, Cris, como está?” Cristiane respondeu sem pensar na lista: “Cansada, tia. E com saudade dele.”

Naquela noite, ela abriu o bloco de notas e apagou a lista de tarefas. No lugar, escreveu uma linha só: “Pai tomava café sem açúcar.”

Quem, na sua família, pergunta por quem organiza tudo?

Teste hoje: abra o WhatsApp e conte, nas últimas 20 mensagens trocadas com a família, quantas pediam uma tarefa sua e quantas perguntavam por você. Depois passe um item da sua lista a alguém que já ofereceu ajuda. O esperado: até o fim da semana, ouvir pelo menos uma vez “e você, como está?” e responder com uma frase sobre você.

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, quando alguém finalmente perguntou a Cristiane como ela estava?

ANo mesmo dia do velório, quando o irmão Fábio chegou de Curitiba
BNo domingo à noite, enquanto ela contava as mensagens do WhatsApp
CNo quinto dia depois do enterro, por telefone, de uma colega de trabalho
DNo dia da missa de sétimo dia, na Catedral

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Dia 4 de 7 · a temporada de outubro fecha 31/10

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