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Nenê aos 42 anos

A carta pra quem detesta o apelido de família e atende por ele há décadas para não criar clima.

Bilhete adesivo amarelo dobrado sobre uma mesa de escritório ao lado de um celular

O bilhete da mamadeira, dobrado duas vezes.

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Na fila do caixa de uma farmácia da Rua Coronel Oliveira Lima, em Santo André, numa sexta-feira de setembro, a prima Kátia Siqueira atravessou a loja acenando e gritou: “Nenê, guarda meu lugar!”. Renata Albuquerque Siqueira, quarenta e dois anos, estava ao lado de Tiago, o caixa mais novo da agência bancária que ela gerencia a duas quadras dali.

Tiago olhou para a chefe e segurou o riso. Renata sorriu, acenou para a prima e respondeu “guardo, sim”, no tom que usa com cliente difícil.

Na segunda-feira, quando chegou à agência, havia um post-it (bloquinho adesivo) amarelo colado no monitor dela: o desenho de uma mamadeira e a palavra Nenê com três pontos de exclamação. Ninguém assumiu a autoria. Ela tirou o papel, dobrou duas vezes e jogou no lixo da copa.

Renata coordena onze funcionários, aprova crédito de até quatrocentos mil reais e despacha com o diretor regional toda quinta. Nos documentos da agência, assina Renata A. Siqueira. No grupo da família no WhatsApp, que reúne trinta e sete parentes, aparece como Nenê em todas as menções.

O apelido nasceu porque ela é a caçula de quatro irmãos. Ela detesta a palavra desde os doze anos. Em trinta anos, nunca pediu a ninguém da família que parasse de usar.

Naquela segunda, contou à terapeuta, Sílvia, que tinha passado o fim de semana com o desenho da mamadeira na cabeça. Sílvia perguntou quantas pessoas da família sabiam que ela não gostava do apelido. Renata pensou um pouco e respondeu que nenhuma.

A resposta incomodou mais que o bilhete. Renata se lembra de muita gente chamando, mas não se lembra de uma única vez em que tenha dito, para um parente, que preferia o próprio nome.

O apelido que ela aceita sem reclamar deixou de ser carinho num dia exato, e esse dia ficou guardado no portão de uma escola estadual.

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I  O Padrão

Trinta e sete parentes no grupo

Renata Albuquerque Siqueira nasceu em 1984, em Santo André, quando a irmã mais velha, Cláudia, já tinha onze anos. A mãe, Lourdes, chamou a recém-chegada de Nenê ainda na maternidade. O pai, Valdir, adotou a palavra no mesmo mês, e os irmãos vieram atrás.

Aos quarenta e dois, o apelido segue em toda parte. No celular da mãe, o contato dela está salvo como Nenê, com um coração. Os seis sobrinhos a chamam de tia Nenê. O bolo dos quarenta anos, encomendado pela irmã do meio, veio com a cobertura escrita “Parabéns, Nenê” em glacê rosa.

O marido, Marcelo, chama a mulher de Rê. Os colegas do banco, de Renata. Os amigos da faculdade de economia, de Siqueira. Só a família usa a palavra que ela detesta, e a família inteira usa.

A CONTAGEM DE SETEMBRO

Depois da conversa com Sílvia, Renata abriu o bloco de notas do celular e passou a registrar cada vez que alguém da família a chamava de Nenê, por mensagem, por telefone ou pessoalmente.

Em trinta dias, anotou sessenta e uma ocorrências. Quarenta e quatro vieram do grupo de WhatsApp, onze de ligações da mãe e seis do almoço de aniversário do sobrinho Davi, no salão de festas do prédio da irmã.

No mesmo período, contou quantas vezes um parente a chamou de Renata: duas. As duas vieram do pai, ao telefone, quando ele quis falar de dinheiro.

Ela atende pelo apelido mais rápido que pelo próprio nome.

A anotação que mais a incomodou foi outra. Em setembro, Renata assinou nove mensagens no grupo como “bjs, Nenê”. Ninguém pediu. Ela escreveu assim porque é como a família a reconhece, e uma assinatura diferente renderia pergunta.

Quando um primo de Campinas perguntou no grupo quem era Renata, porque a tia tinha usado o nome de batismo para marcar a prima numa foto, três pessoas responderam ao mesmo tempo: “É a Nenê”.

II  A Ferida

O portão da escola em 1996

Em março de 1996, Renata tinha doze anos e começava a sexta série na Escola Estadual Doutor Américo Brasiliense, no centro de Santo André. No terceiro dia de aula, a mãe parou o carro no portão, abaixou o vidro e gritou que a Nenê tinha esquecido a lancheira.

Fabrício, um menino da turma, ouviu. Na hora do intervalo, a sala inteira cantava “Nenê, cadê a mamadeira” no ritmo de uma música de torcida. A brincadeira durou o ano letivo todo e só parou quando a turma foi separada na sétima série.

Renata nunca contou em casa. A mãe soube da cantoria trinta anos depois, por ela, numa conversa que aparece mais adiante nesta carta.

O MOTIVO DO SILÊNCIO

Ela tinha um bom motivo para ficar quieta. Em 1993, a irmã Cláudia, então com vinte anos, pediu à família que parasse de chamá-la de Cacau. Valdir respondeu na mesa do jantar que quem renega apelido renega a família, e passou uma semana sem dirigir a palavra à filha mais velha.

A casa inteira ficou tensa naquela semana. Lourdes cozinhava calada. Os irmãos do meio jantavam rápido e subiam para o quarto. Renata, aos nove anos, aprendeu ali que pedir para mudar a forma como a família chama alguém custa sete dias de silêncio.

Cláudia ganhou a troca. Ninguém a chama de Cacau desde 1993. Renata guardou o preço da vitória e esqueceu o resultado.

Nos anos seguintes, Renata testou pequenas saídas sem pedir nada. Aos quinze, passou a assinar os cartões de aniversário só com a inicial R. Aos vinte e dois, no casamento da irmã do meio, apresentou o namorado Marcelo aos tios como “o namorado da Renata”. Os tios responderam “ah, o da Nenê”, e ela desistiu do jeito indireto.

O que há num nome? Aquilo que chamamos de rosa, com qualquer outro nome, teria o mesmo perfume.

William Shakespeare, Romeu e Julieta, 1597

Julieta diz a frase para defender Romeu do peso do sobrenome Montéquio. A rosa não ouve como é chamada. Uma mulher ouve, e cada vez que atende por Nenê confirma para a família que continua sendo a caçula de quem se cuida e a quem não se consulta.

A ferida de Renata mora no acordo silencioso que ela fez aos nove anos: o desconforto dela vale menos que o humor da mesa. Ela engole a palavra para não criar clima e, com a palavra, engole a chance de ser apresentada à família como a mulher que virou.

O custo aparece nos detalhes. Em reunião familiar sobre a reforma da casa dos pais, ninguém pediu a opinião da gerente de banco. Pediram a do irmão Rogério, que é motorista de aplicativo. Renata acha que, para a família, quem decide não se chama Nenê.

 

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III  O Resgate

A mensagem de três linhas

No primeiro sábado de outubro, Renata Albuquerque Siqueira foi sozinha à casa dos pais, na Vila Assunção, levando um pacote de pão de queijo. Esperou o pai sair para a feira e contou à mãe a história do portão, da lancheira e do Fabrício.

Lourdes ouviu calada. No fim, disse que não fazia ideia e pediu desculpa pela lancheira. Depois perguntou por que a filha nunca tinha falado. Renata respondeu com a semana de silêncio de 1993, e a mãe lembrou da semana inteira.

Na mesma tarde, Renata escreveu a mensagem que ia mandar no grupo e mostrou para a mãe antes. Eram três linhas: “Gente, um pedido simples. Daqui pra frente, prefiro ser chamada de Renata ou de Rê. Sem bronca, só me sinto melhor assim”.

TRÊS PASSOS PARA PEDIR O PRÓPRIO NOME

1. Contar primeiro a uma pessoa só da família, de preferência a que criou o apelido, antes de qualquer anúncio no grupo.

2. Escrever o pedido em no máximo três linhas, dizendo como você quer ser chamada, sem explicar a origem da ferida.

3. Corrigir cada deslize com uma frase curta e neutra, “é Renata, tá?”, sem cara feia e sem discussão.

A mensagem foi para o grupo às sete da noite. Em uma hora, vinte e dois parentes reagiram com coração. Cláudia escreveu “finalmente, Rê”. Valdir não respondeu.

No domingo, o pai ligou e começou a frase com “Renata”.

Valdir não comentou o pedido, nem naquele telefonema, nem depois. Mas, nos quinze dias seguintes, usou o nome de batismo da filha em todas as ligações, sete no total, e não usou o apelido nenhuma vez.

Renata manteve a contagem no celular. De dez a vinte e quatro de outubro, registrou catorze vezes Renata ou Rê e nove vezes Nenê, quase todas dos sobrinhos pequenos. Ela corrigiu cada uma com a frase do terceiro passo. Os deslizes dos adultos pararam na segunda semana.

Lourdes foi a última adulta a acertar. Na terceira semana, ainda escapava um Nenê no meio das ligações, e ela mesma se corrigia antes da filha. No dia vinte e dois, salvou o contato no celular como Renata, com o mesmo coração.

Quanto ao post-it da mamadeira, Renata nunca descobriu quem colou e decidiu não investigar. Na agência, ninguém voltou a tocar no assunto, e Tiago passou a chamá-la de Renata como todos os outros.

“Que nome você atende para não criar clima na sua família?”

Teste nesta semana: escolha uma única pessoa da família e diga, numa frase, como prefere ser chamada. Nos sete dias seguintes, anote no celular quantas vezes ela usou o apelido antigo e quantas usou o seu nome. O resultado esperado é o seu nome passar à frente do apelido até o terceiro dia.

 
 
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Quiz da edição

Segundo a contagem que Renata fez em setembro, quantas vezes a família a chamou pelo nome Renata (e não de Nenê)?

A6 vezes, no almoço do sobrinho Davi
B44 vezes, pelo grupo de WhatsApp
C2 vezes, ambas do pai
D11 vezes, em ligações da mãe

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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