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Marta Regina Lopes nasceu em 1963, em União da Vitória, no sul do Paraná, a terceira de cinco filhos de um ferroviário e de uma dona de casa, Iracema. A mãe tinha uma frase pra visita que oferecia ajuda: “Obrigada, mas aqui a gente se vira.”
Na casa dos Lopes, pedir era dar trabalho. Emprestar, não. Iracema emprestava a forma de bolo, a panela grande e a máquina de costura pra rua inteira, e devolvia o prato de quem trazia doce sempre cheio, nunca vazio.
A ROTINA DO ANDAR
No Edifício Araucária, a semana de Marta ganhou um desenho fixo. Terça e sexta, às 8h, rega das sete samambaias do 62. Todo dia, às 17h, ração da Pipoca se o plantão de Camila passasse das 19h.
Entre uma e outra, as caixas. O porteiro, seu Valdir, ligava pelo interfone: “Dona Marta, chegou do 64.” Ela descia, assinava o livro da portaria e subia com a encomenda no colo.
Em 2023, eram tantas caixas de Camila que Marta abriu espaço numa prateleira do armário do corredor. Fralda geriátrica pra mãe dela, areia de gato, uniforme branco, uma luminária comprada em promoção.
No sexto andar, três portas, duas chaves no prego e nenhuma cópia do 63. |
O bloco da geladeira mostra o tamanho da rotina. Entre agosto de 2019 e março de 2025, Marta registrou 412 dias de rega no 62 e 286 encomendas recebidas pro 64.
Ela sabia o nome da farmácia onde seu Osvaldo comprava o remédio de pressão, o dia do aniversário da Pipoca e a senha do wi-fi de Camila, escrita num papel colado atrás do roteador.
Os vizinhos gostavam dela, sem dúvida nenhuma. Seu Osvaldo trazia pinhão cozido em maio. Camila deixou um vaso de lírio-da-paz na porta do 63 no Natal de 2022, com um cartão: “Pra quem segura o nosso andar.”
Marta guardou o cartão na gaveta da cozinha. O lírio, ela mesma regava.
Em quatro anos de convivência, ninguém viu o lado de dentro do 63 sem ela estar em casa. Quando ela saía, a porta ficava trancada com duas voltas, e a única chave ia no bolso da bolsa.
Uma vez, em 2022, Camila comentou no elevador: “A senhora nunca viaja, né?” Marta riu e respondeu que não tinha pra onde ir. Tinha a irmã em Ponta Grossa, a 120 quilômetros, e não ia lá havia seis anos.
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Marta Regina Lopes voltou de Ponta Grossa num domingo de março de 2025, à tarde, com a mala de rodinha e uma sacola de pão caseiro da irmã. Abriu a porta do 63 e sentiu o cheiro de terra seca antes de acender a luz.
O QUE OS DEZ DIAS FIZERAM
As três samambaias da sala, plantadas em 2012, tinham as folhas marrons e quebradiças. A violeta da janela da cozinha, presente da mãe, estava caída no vaso. O lírio-da-paz de Camila tinha sobrevivido, com as folhas murchas.
Na portaria, seu Valdir entregou um aviso dos Correios. Uma encomenda dela, os óculos novos feitos sob medida, voltou pro remetente depois de três tentativas sem ninguém pra assinar.
Naquela semana, ela recebeu duas caixas de Camila e regou as samambaias do 62. As dela, jogou no lixo do condomínio na quinta-feira.
Camila viu os vasos vazios na lixeira e bateu no 63. Perguntou o que tinha acontecido. Marta explicou a viagem.
“Por que a senhora não me pediu? Eu tava de folga quatro dias”, disse Camila. Marta respondeu sem pensar: “Ninguém nunca me pediu, então nunca deixei.”
“Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.” Cora Coralina, Exaltação de Aninha (O Professor), em Vintém de Cobre: Meias Confissões de Aninha, 1983 |
Cora Coralina, doceira e poeta de Goiás Velho, publicou o primeiro livro aos 75 anos. No poema, a professora só fica completa quando também recebe da pessoa a quem ensinou.
Marta conhecia o verso. Tinha colado na parede da sala de aula do Colégio Estadual onde deu aula por 28 anos. Nunca tinha pensado nele fora da escola.
Naquela noite, fez as contas no verso do bloco da geladeira. Em seis anos, tinha dado ao andar 412 regas, 286 caixas e um número que ela não anotou de rações da Pipoca. Do andar, tinha pedido zero.
A conta incomodou por um motivo que ela demorou a nomear. A confiança dela entrava nas casas dos vizinhos, mexia nas gavetas, sabia senha de wi-fi. A confiança deles não tinha porta pra entrar no 63.
Ela ligou pra irmã, Lúcia, e contou das samambaias. Lúcia disse: “Você é igualzinha à mãe. Empresta a panela pra rua inteira e passa fome calada.”
Marta não respondeu. No dia seguinte, desceu pra receber mais uma caixa do 64.
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