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Marta guarda 2 chaves do andar

A carta pra vizinha do 63 que rega as plantas, recebe as encomendas e nunca deixou a própria chave com ninguém.

Duas chaves num prego ao lado de um regador e caixas de encomenda

O corredor do sexto andar, em Curitiba.

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“Pode deixar a chave do 62 comigo, seu Osvaldo”, disse Marta Regina Lopes no corredor do sexto andar do Edifício Araucária, no bairro do Cabral, em Curitiba, numa manhã de agosto de 2019. O vizinho, viúvo de 81 anos, ia passar três semanas na casa do filho em Joinville e não tinha a quem pedir.

Marta tinha 56 anos, era professora aposentada de geografia e morava sozinha no 63 desde 2011. Pegou a chave, prendeu num chaveiro de feltro vermelho e pendurou num prego ao lado da porta da cozinha.

As samambaias do seu Osvaldo eram sete, penduradas na área de serviço. Ela regava terça e sexta, tirava a correspondência da caixinha e abria as janelas por meia hora pra casa não ficar com cheiro de fechada.

O seu Osvaldo voltou de Joinville e não pediu a chave de volta. Ela também não ofereceu. O chaveiro vermelho ficou no prego.

Em 2021, mudou pro 64 a Camila Duarte, enfermeira de UTI do Hospital Cajuru, com plantões de doze horas e uma gata chamada Pipoca. Na segunda semana, bateu na porta do 63 com uma cópia da chave na mão: “A senhora fica em casa, né? Se chegar entrega, pode receber?”

O prego passou a ter dois chaveiros, o vermelho e um azul de plástico, com o nome Pipoca escrito em caneta.

Marta anotava tudo num bloco de notas da farmácia, preso com ímã na geladeira: o dia da rega, a caixa que chegou, o horário da ração da gata quando o plantão de Camila esticava. Em quatro anos, o bloco foi trocado onze vezes.

Nenhum dos dois vizinhos tinha a chave do 63. Ninguém perguntou, e ela nunca falou no assunto.

Em março de 2025, Marta passou dez dias em Ponta Grossa, cuidando da irmã depois de uma cirurgia no joelho. Antes de ir, deixou ração separada pra Pipoca, regou as samambaias do 62 até escorrer e avisou os dois vizinhos da viagem.

Das plantas dela, não falou com ninguém.

O que ela encontrou na volta começou muito antes, numa casa de madeira em União da Vitória, onde aprendeu a regra mais firme da família.

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I  O Padrão

Dois chaveiros no prego da cozinha

Marta Regina Lopes nasceu em 1963, em União da Vitória, no sul do Paraná, a terceira de cinco filhos de um ferroviário e de uma dona de casa, Iracema. A mãe tinha uma frase pra visita que oferecia ajuda: “Obrigada, mas aqui a gente se vira.”

Na casa dos Lopes, pedir era dar trabalho. Emprestar, não. Iracema emprestava a forma de bolo, a panela grande e a máquina de costura pra rua inteira, e devolvia o prato de quem trazia doce sempre cheio, nunca vazio.

A ROTINA DO ANDAR

No Edifício Araucária, a semana de Marta ganhou um desenho fixo. Terça e sexta, às 8h, rega das sete samambaias do 62. Todo dia, às 17h, ração da Pipoca se o plantão de Camila passasse das 19h.

Entre uma e outra, as caixas. O porteiro, seu Valdir, ligava pelo interfone: “Dona Marta, chegou do 64.” Ela descia, assinava o livro da portaria e subia com a encomenda no colo.

Em 2023, eram tantas caixas de Camila que Marta abriu espaço numa prateleira do armário do corredor. Fralda geriátrica pra mãe dela, areia de gato, uniforme branco, uma luminária comprada em promoção.

No sexto andar, três portas, duas chaves no prego e nenhuma cópia do 63.

O bloco da geladeira mostra o tamanho da rotina. Entre agosto de 2019 e março de 2025, Marta registrou 412 dias de rega no 62 e 286 encomendas recebidas pro 64.

Ela sabia o nome da farmácia onde seu Osvaldo comprava o remédio de pressão, o dia do aniversário da Pipoca e a senha do wi-fi de Camila, escrita num papel colado atrás do roteador.

Os vizinhos gostavam dela, sem dúvida nenhuma. Seu Osvaldo trazia pinhão cozido em maio. Camila deixou um vaso de lírio-da-paz na porta do 63 no Natal de 2022, com um cartão: “Pra quem segura o nosso andar.”

Marta guardou o cartão na gaveta da cozinha. O lírio, ela mesma regava.

Em quatro anos de convivência, ninguém viu o lado de dentro do 63 sem ela estar em casa. Quando ela saía, a porta ficava trancada com duas voltas, e a única chave ia no bolso da bolsa.

Uma vez, em 2022, Camila comentou no elevador: “A senhora nunca viaja, né?” Marta riu e respondeu que não tinha pra onde ir. Tinha a irmã em Ponta Grossa, a 120 quilômetros, e não ia lá havia seis anos.

II  A Ferida

As samambaias do 63

Marta Regina Lopes voltou de Ponta Grossa num domingo de março de 2025, à tarde, com a mala de rodinha e uma sacola de pão caseiro da irmã. Abriu a porta do 63 e sentiu o cheiro de terra seca antes de acender a luz.

O QUE OS DEZ DIAS FIZERAM

As três samambaias da sala, plantadas em 2012, tinham as folhas marrons e quebradiças. A violeta da janela da cozinha, presente da mãe, estava caída no vaso. O lírio-da-paz de Camila tinha sobrevivido, com as folhas murchas.

Na portaria, seu Valdir entregou um aviso dos Correios. Uma encomenda dela, os óculos novos feitos sob medida, voltou pro remetente depois de três tentativas sem ninguém pra assinar.

Naquela semana, ela recebeu duas caixas de Camila e regou as samambaias do 62. As dela, jogou no lixo do condomínio na quinta-feira.

Camila viu os vasos vazios na lixeira e bateu no 63. Perguntou o que tinha acontecido. Marta explicou a viagem.

“Por que a senhora não me pediu? Eu tava de folga quatro dias”, disse Camila. Marta respondeu sem pensar: “Ninguém nunca me pediu, então nunca deixei.”

“Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.”

Cora Coralina, Exaltação de Aninha (O Professor), em Vintém de Cobre: Meias Confissões de Aninha, 1983

Cora Coralina, doceira e poeta de Goiás Velho, publicou o primeiro livro aos 75 anos. No poema, a professora só fica completa quando também recebe da pessoa a quem ensinou.

Marta conhecia o verso. Tinha colado na parede da sala de aula do Colégio Estadual onde deu aula por 28 anos. Nunca tinha pensado nele fora da escola.

Naquela noite, fez as contas no verso do bloco da geladeira. Em seis anos, tinha dado ao andar 412 regas, 286 caixas e um número que ela não anotou de rações da Pipoca. Do andar, tinha pedido zero.

A conta incomodou por um motivo que ela demorou a nomear. A confiança dela entrava nas casas dos vizinhos, mexia nas gavetas, sabia senha de wi-fi. A confiança deles não tinha porta pra entrar no 63.

Ela ligou pra irmã, Lúcia, e contou das samambaias. Lúcia disse: “Você é igualzinha à mãe. Empresta a panela pra rua inteira e passa fome calada.”

Marta não respondeu. No dia seguinte, desceu pra receber mais uma caixa do 64.

 

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III  O Resgate

A terceira chave do prego

Marta Regina Lopes levou duas semanas pra decidir. Numa terça de abril de 2025, depois da rega no 62, desceu até o chaveiro da Rua Mateus Leme e pediu duas cópias da chave do 63. Pagou R$ 24.

Subiu com as cópias no bolso e bateu primeiro no 64. Camila estava de folga, de pijama, com a Pipoca no colo. Marta estendeu a chave e disse: “Vou pra Ponta Grossa em maio. Você rega as minhas plantas?”

Camila pegou a chave e respondeu: “Até que enfim, dona Marta.”

A chave do 63 levou seis anos pra sair do bolso da bolsa.

A segunda cópia foi pro 62. Seu Osvaldo, então com 87 anos, guardou numa caixinha de madeira em cima da geladeira, ao lado do chaveiro de feltro vermelho com a chave dele mesmo, que Marta devolveu no mesmo dia pra ele ter uma reserva em casa.

COMO O ANDAR FICOU

1. A rega das plantas do 62 ganhou dia fixo de Camila nas semanas em que Marta viaja, anotado no bloco da geladeira.

2. As encomendas de Marta passaram a ter destinatário reserva na portaria: “Na ausência, entregar no 64”.

3. Camila deixou na porta do 63 uma lista com os horários de plantão do mês, pra Marta saber quando pedir.

4. Marta comprou samambaias novas e pendurou na sala, agora com um bilhete preso no vaso: “Terça e sexta, até escorrer.”

Em maio de 2025, Marta passou doze dias em Ponta Grossa. Na volta, as samambaias novas estavam verdes e o pacote dos óculos, refeito pela ótica, esperava na prateleira do armário de Camila.

Camila tinha anotado no bloco da geladeira do 63, com a letra miúda de quem escreve prontuário: “Rega terça e sexta. Recebi 1 caixa. Tudo certo.”

Em dezembro de 2025, Marta passou o Natal com a irmã, pela primeira vez em oito anos. Seu Osvaldo regou o lírio-da-paz. Camila recebeu duas caixas e deu ração pra Pipoca na própria casa.

No prego da cozinha do 63, hoje, só ficou o chaveiro azul da Pipoca. A chave de Marta mora em duas casas do andar.

De quem é a chave reserva da sua casa, e quem já pediu a sua ajuda sem nunca receber o seu pedido?

Teste hoje: escreva num papel os nomes das pessoas para quem você fez um favor neste mês e, ao lado, os nomes das pessoas a quem você pediu um. Peça uma ajuda pequena (regar uma planta, buscar uma encomenda, guardar uma chave) a um nome da primeira coluna até domingo. O esperado: a pessoa aceitar em menos de um minuto de conversa, e a segunda coluna deixar de ficar vazia.

 
 
Quiz da edição

Segundo o bloco de notas preso na geladeira de Marta, quantas regas ela registrou nas samambaias do 62 entre agosto de 2019 e março de 2025?

A286
B120
C412
D28

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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Dia 6 de 7 · a temporada de outubro fecha 31/10

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