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Marlene Aparecida Souza e Valdir Souza chegaram ao escritório de seu Ademir naquele sábado de outubro, com a loja fechada de propósito e o caderno azul dentro da bolsa dela.
TRÊS PASSOS PARA O TRABALHO VIRAR DIREITO
1. Entrar no contrato social como sócia, com pró-labore mensal declarado, para que a loja recolha a contribuição dela todo mês.
2. Juntar o caderno, as notas assinadas e declarações de clientes antigos, e pedir ao INSS o reconhecimento dos anos de balcão.
3. Abrir uma conta bancária no nome dela, onde cai o pró-labore, separada do caixa da loja.
Valdir resistiu ao primeiro passo por dez minutos. Perguntou quanto custaria. Ademir mostrou: sobre o pró-labore de um salário mínimo incide 11% de contribuição ao INSS, descontados da retirada dela, e a loja segue no Simples Nacional (o regime simplificado de impostos das pequenas empresas).
Valdir assinou a alteração do contrato na mesma manhã. Marlene passou a ter 30% das cotas da Souza Materiais de Construção. A primeira contribuição no nome dela sai em novembro.
Pela primeira vez em onze anos, o trabalho de Marlene ganhou uma linha assinada por ela num documento oficial. |
O segundo passo vai demorar. Seu Ademir separou o caderno azul em pastas, uma por ano, de 2014 a 2025. Marlene conseguiu cinco declarações de clientes, entre elas a de dona Iracema, que compra na loja desde a inauguração.
O pedido de reconhecimento ainda não foi protocolado, e ninguém sabe quantos dos onze anos o INSS vai aceitar. Ademir avisou que pode ser todos, nenhum ou só uma parte, e que a resposta pode levar meses. Os meses aceitos terão de ser pagos com juros, e o casal separou a reserva do caminhão novo para cobrir a conta.
O terceiro passo foi o mais rápido. Marlene abriu a conta numa cooperativa de crédito a duas quadras da loja, na segunda-feira seguinte. Guardou o cartão na carteira, longe do cartão da loja.
Na volta, encostou o caderno azul na gaveta das notas e começou um caderno novo, de capa vermelha, com uma coluna só: o mês e o valor que caiu na conta dela.
Quantos anos do seu trabalho no negócio da família têm o seu nome em algum papel?
Teste hoje: entre no aplicativo Meu INSS, abra o extrato de contribuições e conte quantos anos aparecem no seu CPF. Anote ao lado quantos anos você trabalhou de fato. Se a segunda conta passar da primeira em dois anos ou mais, o esperado é sair do aplicativo com uma pergunta pronta para levar a um contador ainda nesta semana.
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