In partnership with

Resgate do Feminino   Resgate do Feminino
ED 143
{{saudacao | Bom te ver por aqui.}} {{saudacao_nome | }}
              
{{ofensiva_curta | comece hoje}}
Ver ofensiva →

Você escolhe a carta de amanhã: a votação está no fim desta edição.

Lúcia, síndica há 3 anos sem nenhum concorrente

A carta pra quem ocupa o cargo sem disputa, porque já faz o serviço sozinha e sem receber nada.

Pasta azul de atas aberta na mesa de uma cozinha à noite

As atas de eleição do Edifício Aroeira.

▼

Na assembleia de março, no salão de festas do Edifício Aroeira, em Curitiba, seu Osmar Pires, do apartamento 702, resumiu a eleição em voz alta: “A Lúcia faz tão bem que nem precisa votar.” Os outros riram, ninguém levantou a mão contra, e a ata registrou a terceira reeleição seguida por aclamação (aprovação sem contagem de votos).

Lúcia Helena Ferraz tem 51 anos, é contadora numa cooperativa de crédito e mora no 401 desde 2009. Ela assinou a ata, empilhou as cadeiras de plástico com a zeladora e subiu às 22h40. No elevador, o celular já vibrava com a primeira mensagem do grupo do prédio, sobre o barulho da reforma no 1103.

O grupo “Moradores Aroeira” tem 64 participantes. Lúcia respondeu a mensagem do barulho, depois uma sobre a lâmpada queimada da escada B e outra sobre o portão da garagem, travado aberto desde as nove. A última resposta dela saiu às 23h06. Ela apagou a luz da sala às 23h20.

O cargo de síndica no Aroeira não tem salário. A convenção do prédio, aprovada em 1998, prevê só a isenção da cota condominial, e Lúcia recusou o desconto no primeiro mandato porque achou feio cobrar dos vizinhos. Sob a responsabilidade dela ficam 48 apartamentos, um contrato de elevador, uma zeladora, uma empresa de limpeza e uma caixa-d’água de 30 mil litros.

Em três anos, nenhum morador se candidatou. Nas eleições de 2024 e 2025, a administradora mandou edital com prazo de inscrição de 15 dias, e a única ficha entregue nas duas foi a dela.

Naquela noite, antes de dormir, ela fez um cálculo simples no bloco de notas do celular. Somou as horas da semana gastas com o prédio: mensagens, vistorias, ligações para fornecedor, a ida ao banco para assinar o cheque da obra do telhado. Deu 11 horas. Ela olhou o número e não soube dizer em que momento tinha aceitado um segundo emprego.

A explicação começava nas próprias atas do Aroeira, guardadas numa pasta azul no armário do 401.

Continue lendo ↓

 
 
 

Quem banca a edição de hoje

Unify Your Teams and Tech Stack With HubSpot

Connect your customer data, teams, and tools without the hassle of complex integrations or lengthy setups. One easy platform gives marketing, sales, and service teams a unified customer view and the tools to turn it into growth.

Why HubSpot and what's new
• Generate leads and automate marketing with Marketing Hub
• Build your pipeline and close more deals with Sales Hub
• Scale customer support and drive retention with Service Hub
• Keep customer data clean, connected, and actionable with one, unified platform

Join 306,000+ in over 135 countries using HubSpot to grow their businesses.

See what a more connected approach to growth can do for you and your team. Get setup quickly and start checking off your hardest tasks.

Patrocinadores mantêm a edição gratuita

 

I  O Padrão

A pasta azul do 401

Lúcia Helena Ferraz abriu a pasta azul no sábado de manhã, na mesa da cozinha, e leu as quatro atas de eleição em ordem. O texto se repetia quase igual: “Não havendo outros candidatos, a síndica atual foi reconduzida por aclamação.” Em 2024, 2025 e 2026, a mesma linha, com a mesma letra da secretária da assembleia.

O CARGO SEM CONCORRENTE

A primeira ata, de março de 2023, contava a origem. O síndico anterior, Haroldo Vieira, tinha renunciado depois de onze anos no posto, alegando dor na coluna. A administradora pediu um voluntário. Houve quatro minutos de silêncio, anotados na ata como “breve intervalo”, e Lúcia levantou a mão porque ninguém mais levantava.

Haroldo morava no 1201 e também tinha sido eleito sem concorrente, em 2012, depois de dona Marlene Assis ficar oito anos no cargo. Em 25 anos de prédio, o Aroeira teve três síndicos, e nenhuma eleição teve dois nomes na cédula.

O padrão aparecia também no grupo do celular. Lúcia exportou a conversa dos últimos 30 dias para um arquivo e contou as mensagens com o nome dela: 312, contra 41 do segundo morador mais ativo. Das 312, 207 eram respostas a pedidos. Mais da metade saiu depois das 20h.

Em 25 anos, três síndicos e nenhuma eleição com dois nomes na cédula.

Os pedidos tinham um formato fixo. Alguém escrevia “Lúcia, você sabe se…” ou marcava o nome dela numa foto de vazamento. Quase ninguém escrevia para a administradora, que tinha email, telefone e uma funcionária paga para atender o prédio.

Na segunda, ela ligou para a administradora. A gerente de contas, Simone Albuquerque, confirmou: o Aroeira era um dos prédios da carteira com menos chamados. “Os moradores resolvem direto com a síndica”, disse. Para a empresa, o prédio dava pouco trabalho. Para Lúcia, dava 11 horas por semana.

Ela ainda perguntou quanto custaria um síndico profissional (administrador contratado e pago pelo condomínio). Simone passou o valor cobrado em Curitiba para um prédio daquele porte: R$ 3.200 por mês. Lúcia fazia o mesmo serviço sem receber nada, e recusava até a isenção prevista na convenção.

Ficou claro, na mesa da cozinha, por que ninguém se candidatava: o serviço já saía pronto, de graça, até as onze da noite. Faltava entender por que a mão dela subia sempre primeiro.

II  A Ferida

A filha mais velha da rua Balduíno Taques

A mão começou a subir em Ponta Grossa, em 1983. Lúcia tinha 8 anos e era a mais velha de quatro irmãos. O pai, Ademir Ferraz, dirigia caminhão de grãos e passava semanas na estrada. A mãe, Nair, costurava para fora na sala da casa da rua Balduíno Taques.

A MENINA DO PODE DEIXAR

Quando a mãe pedia ajuda, Lúcia respondia “pode deixar” antes de a frase terminar. Trocava a fralda do caçula, esquentava a janta e conferia o dever dos irmãos. Aos 10 anos, já atendia as clientes da costura no portão e anotava as medidas num caderno de espiral.

Nair elogiava a filha para as vizinhas: “A Lúcia é a minha mão direita.” As vizinhas repetiam a frase na igreja e na quitanda. A menina aprendeu cedo como ganhar lugar na casa: resolver o problema antes do pedido virar briga.

O preço aparecia nos detalhes. Lúcia queria aprender piano com dona Celeste, professora da paróquia, que dava aula de graça aos sábados. Foi a três aulas. Na quarta semana, a mãe pegou uma encomenda grande de vestidos de formatura, e alguém precisava cuidar dos três irmãos. Lúcia não voltou à paróquia nos sábados.

Ninguém proibiu o piano. Ninguém perguntou também se ela queria continuar. A ajuda dela virou parte da casa, igual à máquina de costura, e o elogio chegava no lugar do sábado livre.

“Eles dizem que é amor. Nós dizemos que é trabalho não pago.”

Silvia Federici, Wages Against Housework (Salários contra o Trabalho Doméstico), 1975

Federici, filósofa italiana radicada nos Estados Unidos, escreveu o texto para a campanha internacional por salário para o trabalho doméstico, iniciada em 1972. O argumento dela: o serviço feito por afeto some das estatísticas da economia justamente porque ninguém paga por ele, e assim parece não custar nada.

Lúcia leu o texto numa coletânea emprestada pela irmã do meio, Rosana, e reconheceu o 401. O cargo de síndica repetia a sala da rua Balduíno Taques. Alguém pede, ninguém se oferece, Lúcia diz “pode deixar”, e todos elogiam.

Os vizinhos não deixavam de concorrer por preguiça ou má vontade. Eles não concorriam porque a vaga já tinha dona e não custava nada a ninguém, só a ela. Ninguém disputa uma vaga com dona e sem custo nenhum.

No domingo, ela ligou para Rosana e perguntou se lembrava do piano. Rosana lembrava. Contou que, naquele ano, ouvia a irmã treinar escala num teclado desenhado a caneta na mesa da cozinha, depois da janta, com os dedos batendo na madeira sem som.

 

Quem banca a edição de hoje

Yes, that Arnold Schwarzenegger.

He has a newsletter on beehiiv. So do Codie Sanchez, Jay Shetty, David Begnaud, Colin & Samir, and Joanna Stern.

They could publish just about anywhere. They chose beehiiv to build a direct connection with the people who want to hear from them most. And you can do the same, whether you’re world-famous or just at the start of your plan for world domination.

Patrocinadores mantêm a edição gratuita

 

III  O Resgate

Uma eleição com duas fichas

Lúcia Helena Ferraz escreveu um plano na última folha da pasta azul. O mandato atual vai até março de 2027, e ela decidiu usar o tempo para o prédio voltar a ter eleição disputada.

TRÊS PASSOS PARA DEVOLVER O CARGO AO PRÉDIO

1. Fechar o horário: avisar no grupo que assunto do prédio seria respondido só entre 8h e 20h, e urgência só vazamento, elevador parado e portão travado.

2. Mandar o pedido para o canal pago: responder cada pedido fora da lista com o telefone da administradora, sem resolver no lugar dela.

3. Dividir o cargo em pedaços: criar comissões de dois moradores para obras, festas e cobrança de atraso, com prazo e nome na ata.

Ela postou o aviso numa terça de abril, às 19h. Seu Osmar respondeu com um polegar. Patrícia Nogueira, do 903, perguntou se estava tudo bem com a saúde dela. Lúcia respondeu que sim, e que o horário valia a partir daquela noite.

Na primeira semana, chegaram 19 mensagens depois das 20h. Ela não respondeu nenhuma. Duas viraram ligação para a administradora, e Simone resolveu as duas na manhã seguinte. O portão não travou nenhuma vez.

O prédio funcionou à noite sem a síndica, e ninguém notou a ausência.

A comissão de obras ganhou dois nomes na assembleia extraordinária de junho: Patrícia, engenheira civil, e Diego Pires, filho de seu Osmar. Eles assumiram o orçamento do telhado. Em três semanas, trouxeram três propostas, e a escolhida saiu R$ 4.800 mais barata do que a primeira.

Na contagem de setembro, as horas de Lúcia com o prédio caíram de 11 para 4 por semana. As mensagens com o nome dela no grupo, nos mesmos 30 dias de comparação, caíram de 312 para 96.

Em setembro, Patrícia pediu à administradora o modelo da ficha de candidatura para março de 2027. O resultado da eleição ainda não se sabe, porque o prazo de inscrição só abre em fevereiro. Se a ficha dela chegar, o Aroeira terá dois nomes na cédula pela primeira vez em 25 anos.

As noites de terça passaram a ter outro destino: aula de piano numa escola de música do bairro Água Verde, das 19h30 às 20h20. A primeira peça que Lúcia aprendeu inteira foi a valsa “Lua Branca”, de Chiquinha Gonzaga, tocada num piano de cauda da escola.

“Qual cargo na sua vida ninguém disputa porque você já faz de graça?”

Teste hoje: abra o grupo do prédio, da família ou do trabalho e conte as mensagens com o seu nome nos últimos sete dias. Depois, por uma semana, responda só entre 8h e 20h. No domingo, conte de novo: o esperado é ver pelo menos um terço dos pedidos resolvidos por outra pessoa ou por quem recebe para resolver.

 
 
Quiz da edição

Quantos moradores participam do grupo 'Moradores Aroeira' no WhatsApp do prédio?

A48
B64
C41
D312

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
Sua avaliação

Como foi a carta de hoje?

🌹🌹🌹🌹🌹  ótima 🌹🌹🌹🌹  boa 🌹🌹🌹  ok 🌹🌹  ruim 🌹  péssima
 
Escolha a edição de amanhã

Qual carta você quer ver amanhã?

Voto aberto até 18/10, 15h30

A Os 800 reais do colega →
B A mesa da cozinha desmontada →
C O prato que veio errado →
D A viagem de amigas adiada →
 
Sua ofensiva
🔥 {{streak_atual | 0}} {{streak_titulo | Comece sua ofensiva hoje}} recorde {{streak_recorde | 0}}
Seus últimos 6 dias e hoje
{{ouro_linha | Cada edição vale 10 de ouro: voto, quiz e clique.}}

missão de hoje

📨 Mandar seu link pra 1 pessoa (1x por dia) +10
WhatsApp   Copiar link

Confirmou? +100 de ouro: entra no seu ouro à noite.

{{streak_cta | Começar minha ofensiva}}
{{rank_simbolo | Ⅰ}} {{rank_nome | Aprendiz}} · {{moedas | 0}} de ouro · loja e missões →
 
Recomendação de Newsletter
Conspiração do Dia

Conspiração do Dia

Uma teoria por dia, contada como você nunca ouviu: onde nasceu e por que pegou, em dois minutos. No seu email todo dia às 20:20.

Quero receber →

Volte para você.

RESGATE DO FEMININO

O feminino não precisa ser reconstruído. Precisa ser curado.

Continue lendo

View more
caret-right