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Juliana não pega o volante na estrada há 13 anos

A carta pra quem sabe dirigir, tem carteira há anos e entrega a chave na estrada sem ninguém ter pedido.

Chave do carro sobre o console num posto de estrada

Chave no console no posto de Registro.

▼

No posto Graal da Régis Bittencourt, em Registro, numa sexta de julho, às 6h40, Ricardo Moreira estendeu a mão para a chave antes de terminar o café e disse: “Deixa, a estrada eu pego.” Juliana Ferraz Moreira entregou a chave e foi para o banco do passageiro.

Ricardo tem 44 anos, é técnico de manutenção numa fábrica de embalagens em Barueri e gosta de dirigir. Nunca reclamou da viagem. Para sempre na mesma lanchonete de Registro, pede o mesmo pastel de palmito e calcula a chegada pelo relógio do painel.

Juliana tem 41 anos e é coordenadora de logística numa rede de farmácias em Osasco. Tirou a carteira em 2007, aos 22, de primeira. Dirige todo dia: 34 quilômetros entre casa e trabalho, ida e volta, pela avenida dos Autonomistas.

A viagem de julho se repete há treze anos: São Paulo a Itajaí, 610 quilômetros, até a casa da sogra, Lurdes. Ricardo dirige os 610. Juliana cuida do lanche, da playlist e das duas filhas no banco de trás, Clara, de 13 anos, e Beatriz, de 9.

Ninguém decidiu. Não houve conversa, nem briga, nem pedido. Ricardo dirigiu a primeira viagem, e depois a seguinte, e a outra.

Naquela sexta, no posto de Registro, Juliana olhou a chave passando de mão e fez uma conta pela primeira vez. Treze idas e treze voltas. Perto de 15.800 quilômetros de estrada com a família, nenhum deles com ela ao volante.

Na cidade, ela estaciona de ré em vaga apertada no subsolo da farmácia. Na estrada com a família, desde 2013, não fez uma ultrapassagem sequer.

Clara, do banco de trás, perguntou naquela manhã: “Mãe, você sabe dirigir na estrada?” Juliana disse que sabia. Depois ficou quieta até Cajati, tentando lembrar a última vez.

Não lembrou no carro. Lembrou que sabia trocar pneu, que fazia baliza de primeira na autoescola e que gostava de serra. Do resto, nada.

A conta começava num carro de 2013, com um bebê de quatro meses no banco de trás e uma regra que ninguém escreveu.

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I  O Padrão

Uma rota sem dono escrito

Juliana Ferraz Moreira organiza a entrega de remédios de 46 farmácias na Grande São Paulo. Monta a escala de 18 motoristas, decide rota e corta trecho que não compensa. Em 2024, refez as rotas da zona oeste e tirou 2.300 quilômetros por mês da frota.

COMO O TRECHO MUDOU DE MÃO

No inverno de 2013, a viagem a Itajaí foi a primeira com Clara. Juliana sentou atrás, ao lado da cadeirinha, porque a menina chorava se perdesse a mãe de vista. Ricardo dirigiu os 610 quilômetros com duas paradas.

Fazia sentido naquele ano. Ninguém revisou no seguinte, quando Clara já dormia sozinha na cadeirinha. Juliana voltou para o banco da frente, ao lado dele, e a chave ficou onde estava.

Ninguém falou de chave naquele ano. Ricardo pegou o carro, guardou as malas e sentou ao volante, como tinha feito no inverno anterior. Juliana conferiu o cinto das meninas e fechou a porta do passageiro.

Em 2017 nasceu Beatriz, e o arranjo ganhou um motivo novo. Em 2020, as duas meninas já viajavam sem ajuda, e o motivo sumiu. O arranjo ficou.

Na escala dela, nenhum motorista dirige mais de quatro horas seguidas. Na estrada da família, Ricardo dirige oito.

Ricardo nunca pediu o trecho. Juliana nunca o ofereceu. Uma vez, em 2019, ela comentou que ele devia estar cansado. Ele respondeu “tô tranquilo” e aumentou o rádio. Ela entendeu o assunto como encerrado.

O arranjo se estendeu sem anúncio. Viagem para Campos do Jordão, em 2021: Ricardo. Casamento de uma prima em Ribeirão Preto, em 2023: Ricardo. Na cidade, o carro é dela de segunda a sexta. Na rodovia, ela nem cogita.

Ela mesma ajudou a manter. Arrumava o lanche na noite anterior, baixava a playlist, levava o travesseiro de pescoço dele. Eram tarefas de passageiro, e ela as fazia bem.

Na farmácia, toda rota tem dono escrito na planilha, e a planilha é revista a cada trimestre. A rota da família nunca foi escrita, e por nunca ter sido escrita ninguém a revisou em treze anos.

II  A Ferida

A Páscoa de 2011 na Fernão Dias

A resposta à pergunta de Clara estava na Páscoa de 2011. Juliana Ferraz Moreira dirigiu sozinha de São Paulo a Pouso Alegre, 200 quilômetros pela Fernão Dias, para visitar a irmã, Renata. Ultrapassou caminhão na subida da serra, parou uma vez em Atibaia e chegou em três horas.

O QUE O DESUSO LEVOU

Em agosto deste ano, depois da viagem, ela foi sozinha a Sorocaba, 90 quilômetros pela Castello Branco, para um treinamento da empresa. Ficou na faixa da direita o caminho inteiro, a 90 por hora, atrás de um caminhão de gás.

Duas vezes, ligou a seta para ultrapassar e desligou. As mãos suavam no volante. Chegou 25 minutos depois do previsto e disse aos colegas que o trânsito estava pesado. Não estava.

Na volta de Sorocaba, ela passou mais um caminhão sem conseguir. Ficou atrás dele até o pedágio de Itu, contando os minutos, irritada consigo mesma e sem contar a ninguém em casa.

Em 2011, ela ultrapassava caminhão na serra. Em 2026, ligou a seta duas vezes e desistiu nas duas.

Habilidade que fica anos sem treino não some, mas perde a fluidez. O corpo lembra o pedal e o câmbio. O que enfraquece é a leitura rápida da pista: a distância do carro que vem, o espaço para voltar à faixa, o tempo da ultrapassagem.

A cena mais dura tinha acontecido em julho, na volta de Itajaí. Perto de Garuva, ainda em Santa Catarina, Ricardo teve uma enxaqueca forte e parou num posto. Juliana ofereceu dirigir. Ele disse que esperava o remédio fazer efeito.

Ficaram 1h50 no estacionamento. As meninas assistiram desenho no celular. Juliana olhou a chave no painel e não insistiu, porque não tinha certeza de que conseguiria subir a serra até Curitiba. Foi a primeira vez que a dúvida vinha dela, e não do arranjo.

“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher.”

Simone de Beauvoir, O Segundo Sexo, 1949

Simone de Beauvoir era filósofa em Paris e escreveu O Segundo Sexo para mostrar como o papel feminino se forma por hábito, repetido até parecer natureza.

O arranjo da estrada fez o mesmo em escala doméstica. Um motivo real em 2013, repetido sem motivo por doze anos, acabou parecendo gosto. No almoço de Itajaí, Lurdes comentou com a vizinha que a nora “não gosta de estrada”. Juliana ouviu da cozinha e não corrigiu.

No estacionamento de Garuva, Clara perguntou de novo: “Mãe, por que você não dirige?” Juliana respondeu que o pai já estava melhorando. Na segunda, em Osasco, abriu o aplicativo de mapas e mediu a distância até Jundiaí pela Bandeirantes.

 

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III  O Resgate

Quatro caminhões na Serra do Azeite

Juliana Ferraz Moreira tratou a estrada como trata uma rota nova da farmácia: com treino, dono escrito e regra combinada antes da saída. Escreveu três passos no bloco de notas do celular, na mesma tela do mapa até Jundiaí.

TRÊS PASSOS ANTES DO FERIADO

1. Treinar sozinha em três sábados de manhã, pela Bandeirantes até Jundiaí e de volta, 120 quilômetros por sábado, com uma ultrapassagem a mais a cada semana.

2. Pedir o trecho antes da viagem, na sala de casa, com o lugar dentro da frase: “Na ida, do posto de Registro até Curitiba é meu.”

3. Combinar com Ricardo uma regra só para o trecho dela: ele cuida do mapa e não comenta a direção.

No primeiro sábado, ela fez uma ultrapassagem. No terceiro, fez quatro. Na quarta seguinte, depois do jantar, disse a frase do passo 2. Ricardo perguntou se ela tinha certeza. Ela disse que tinha treinado três sábados. Ele disse “tá bom” e foi lavar a louça.

No feriado de 12 de outubro, a família voltou a Itajaí para os 70 anos de Lurdes. Às 6h50, no mesmo posto de Registro, Juliana estendeu a mão para a chave. Dirigiu cerca de 210 quilômetros até Curitiba.

Na Serra do Azeite, ela ligou a seta quatro vezes e terminou as quatro ultrapassagens.

Ricardo dormiu 40 minutos no banco do passageiro. Acordou perto de Campina Grande do Sul e perguntou onde estavam. Clara filmou a mãe na serra e mandou o vídeo para a avó.

Em Curitiba, no posto da entrada da cidade, Juliana desceu do carro, alongou as costas e devolveu a chave a Ricardo, como tinham combinado na sala. Ele assumiu o resto, até Itajaí, e não comentou a direção dela em nenhum momento da viagem.

Na volta, ele dirigiu tudo, e ela não pediu. Juliana ainda não sabe se o trecho de Registro vira dela em toda viagem ou se ficou num feriado só. A conversa sobre a viagem de dezembro não aconteceu, e ela decidiu que vai abrir o assunto em novembro, sem esperar ele oferecer.

Em Itajaí, Lurdes viu o vídeo e não repetiu a frase sobre a nora e a estrada. Disse que também tinha carteira desde 1979 e que não dirigia fora de Itajaí desde o casamento.

“Qual trecho você entregou num ano em que fazia sentido e nunca pediu de volta?”

Teste nesta semana: escolha uma tarefa que você sabia fazer e passou para outra pessoa sem combinar, e faça uma vez, inteira, sem ajuda. Dê uma nota de 0 a 10 para a hesitação da mão no primeiro minuto e outra no último. O esperado é a segunda nota sair pelo menos três pontos abaixo da primeira.

 
 
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A2005
B2009
C2007
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