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Juliana estava salva como mãe do Téo em 3 celulares

A carta pra quem virou função na agenda das outras mães e esqueceu de dizer o próprio nome.

Celular sobre o banco de madeira ao lado de um campo de futebol infantil

O banco da escolinha no Taquaral.

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“Liga pra Renata do meu? Meu celular morreu”, pediu Patrícia, mãe do Gabriel, no banco de madeira da escolinha de futebol do bairro Taquaral, em Campinas, às 17h40 de uma quinta-feira de agosto de 2025. Juliana Prates Moura desbloqueou o aparelho e entregou sem pensar.

Patrícia digitou o número de cabeça. Renata atendeu no segundo toque, com a voz alta de quem está no carro: “Oi, mãe do Téo! Tá tudo bem com ele?”

Patrícia riu, explicou que era ela falando do celular emprestado e combinou a carona do sábado. Desligou, devolveu o aparelho e comentou, ainda rindo, que também tinha salvado Juliana daquele jeito.

Juliana pediu para ver. Na agenda de Patrícia estava escrito “Mãe do Téo Sub-9”. Logo abaixo vinham “Mãe do Gui”, “Mãe da Lara Goleira” e “Pai do Davi”, este último com o nome do pai entre parênteses.

No caminho para casa, com Téo, de 9 anos, no banco de trás, ela fez a mesma pergunta para mais uma mãe da turma, por mensagem. Cláudia respondeu com um print: “Téo mãe”. Sem sobrenome, sem Juliana.

Três agendas conferidas até a noite, três registros pela função. No grupo de pais do futebol, com 31 participantes, ninguém usava o nome dela nas conversas. Quando alguém a marcava, a frase começava por “a mãe do Téo pode levar os coletes?”.

Juliana tinha 38 anos naquele agosto. Era fisioterapeuta formada pela PUC de Campinas, com 11 anos de clínica antes de o filho nascer. Nenhuma das mães do banco sabia dessa parte.

Na hora do jantar, ela abriu o próprio celular e procurou as outras mães da turma. Tinha salvado sete delas. Seis estavam como “mãe do” alguém.

O hábito não começou no banco da escolinha. Começou anos antes, numa ficha de matrícula com uma linha só para o nome do filho.

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I  O Padrão

O nome na tela

Juliana Prates Moura nasceu em 1987, em Limeira, no interior de São Paulo, filha de uma costureira e de um mecânico. Na escola, era a Ju Prates. Na faculdade, virou a Prates, porque havia mais duas Julianas na turma.

COMO O NOME SAIU DA AGENDA

Téo nasceu em março de 2016. Nos primeiros meses, Juliana manteve dois turnos na clínica de fisioterapia do bairro Cambuí. Em 2017, com o marido, Rodrigo, viajando a trabalho três semanas por mês, ela reduziu para um turno e depois saiu.

A primeira ficha que preencheu como mãe em tempo integral foi a do berçário, em 2017. O campo maior era o nome da criança. O dela vinha numa linha estreita, com o rótulo “responsável”.

Nos anos seguintes, o padrão se repetiu em cada formulário. O aplicativo da escola mostrava “Responsável 1”. A recepção do pediatra chamava “a mãe do Téo Moura”. A lista de presença da festa junina vinha com o nome dos alunos e um tracinho ao lado para a assinatura dos pais.

Cada ficha guardava o nome do filho e, para ela, um espaço de assinatura.

No futebol, o padrão ficou completo. Téo entrou na escolinha do Taquaral em fevereiro de 2024, com 7 anos. O grupo de pais foi criado pelo treinador, Marcelo, que adicionou os números sem pedir apresentação.

Na primeira semana, as mensagens chegavam com “quem é a mãe do Téo?” e “a mãe do Téo confirma o uniforme?”. Juliana respondia rápido, porque a pergunta era sobre o filho. Nunca se apresentou pelo nome, e ninguém perguntou.

As outras mães faziam o mesmo. Patrícia virou “mãe do Gabriel” no primeiro dia. Cláudia virou “mãe do Gui”. O registro nasceu da pressa e se manteve porque funcionava: a função dizia a quem ligar quando o treino mudasse de horário.

Juliana também salvou as outras assim. Contou depois que achava prático, porque em uma turma de 22 crianças decorar os nomes dos pais parecia tarefa demais.

Na reunião de pais de abril de 2025, o crachá de papel colado na camiseta dizia “Mãe do Téo, Sub-9”. Quem escreveu foi a própria Juliana, com a caneta da secretaria, seguindo o modelo da mãe que estava na frente dela na fila.

O problema apareceu só no banco, com o celular emprestado. A voz de Renata, alta e animada, chamava uma pessoa que não tinha nome, só filho.

II  A Ferida

A função no lugar

Juliana Prates Moura passou a noite daquela quinta-feira acordada, conferindo onde mais o próprio nome tinha sumido. Fez uma lista no bloco de notas do celular.

O QUE A LISTA MOSTROU

Na agenda dela, seis mães salvas como “mãe do”. No grupo do futebol, nenhuma mensagem com o nome Juliana em um ano e meio. No grupo da escola, o mesmo. No crachá do clube, o campo do nome dizia “acompanhante de Téo Moura”.

A lista seguiu pela casa. Rodrigo a chamava de “mãe” quando Téo estava perto, para dar o exemplo ao filho. A sogra perguntava “como está a mãe do meu neto?” nas ligações de domingo.

Ela tentou lembrar a última pessoa nova que a conhecera pelo nome. Achou a resposta no e-mail: uma ex-colega da clínica, em 2019, que a encontrou num congresso e gritou “Prates!” do fundo do corredor.

Seis anos sem ser apresentada pelo próprio nome a ninguém novo.

“O problema permaneceu enterrado, não dito, por muitos anos, na mente das mulheres americanas.”

Betty Friedan, A Mística Feminina, 1963

Betty Friedan, jornalista norte-americana, abriu o primeiro capítulo do livro com essa frase. Ela entrevistou ex-colegas de faculdade, donas de casa dos subúrbios, que não conseguiam dizer o que faltava. Friedan chamou a falta de “o problema sem nome”.

O caso de Juliana tinha um nome, e o nome era dela. Faltava alguém usá-lo. O apagamento chegou sem briga, em formulários, grupos e agendas, cada um com uma razão prática.

Na sexta de manhã, contou a lista para Rodrigo no café. Ele se espantou com o número da agenda dela. Disse que chamava de “mãe” por hábito e que nunca tinha reparado que ela também falava de si mesma desse jeito.

Juliana percebeu um detalhe enquanto contava. Ao ligar para o pediatra, ela mesma se apresentava como “a mãe do Téo”. Ninguém tinha pedido. Ela tinha aprendido o jeito em fichas e grupos, e repetia sozinha.

Rodrigo perguntou o que ela queria mudar. Ela respondeu com uma frase: “Quero que as mães do banco saibam o meu nome, e quero usar o delas.”

Ela também quis entender por que a troca doía tão pouco no começo. A resposta estava no próprio bloco de notas: cada registro, sozinho, era pequeno e útil. Somados, apagavam 38 anos de nome, 11 de profissão e uma cidade inteira de origem.

O plano saiu no mesmo dia, escrito no bloco de notas, abaixo da lista. Tinha três itens e um prazo: o treino do sábado seguinte.

 

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III  O Resgate

Juliana, com sobrenome

Juliana Prates Moura começou pela própria agenda, na sexta à noite. Levou 12 minutos para trocar os seis contatos. Para os dois nomes de que não lembrava, mandou mensagem perguntando.

O PLANO DO BLOCO DE NOTAS

1. Agenda dela primeiro: cada mãe da turma salva pelo nome e pelo sobrenome, com o filho entre parênteses depois.

2. Apresentação nova: em todo contato com gente nova, dizer “Juliana Prates” antes de dizer de quem é mãe.

3. Mensagem no grupo: uma apresentação curta no grupo dos pais, com o nome e a profissão dela.

A mensagem do item 3 saiu no sábado, às 8h15, antes do treino. Ela escreveu: “Oi, gente, sou a Juliana Prates, mãe do Téo. Sou fisioterapeuta. Se alguém quiser me salvar pelo nome, agradeço.”

Bastou uma mensagem com nome e profissão para o grupo devolver o nome dela.

Em uma hora, a mensagem tinha 14 respostas. Patrícia mandou um áudio pedindo desculpa e rindo. Cláudia contou que também estava salva como “Gui mãe” em metade dos celulares da turma.

Três mães seguiram o exemplo e se apresentaram pelo nome no mesmo dia. Uma delas, Simone Arruda, contou que era engenheira civil e que ninguém no grupo sabia.

No banco da escolinha, naquela tarde, a conversa mudou de assunto. Pela primeira vez, as mães falaram de trabalho, de faculdade e de cidade natal, e não só de uniforme e carona.

No sábado seguinte, Renata atendeu uma ligação de Juliana com um “Oi, Juliana”. No crachá novo do clube, pedido na secretaria, o campo do nome passou a dizer Juliana Prates Moura.

Rodrigo também trocou o hábito. Passou a dizer o nome dela na frente de Téo. Na terceira semana, Téo apresentou a mãe a um amigo novo do time: “Essa é a Juliana, ela é fisioterapeuta.”

Na agenda dela, a mudança também ficou. Simone virou “Simone Arruda (Lara)”, Patrícia virou “Patrícia Lemos (Gabriel)”. Na próxima mensagem do grupo, Juliana marcou as duas pelo nome, e as duas responderam pelo nome dela.

Em março de 2026, Juliana voltou a atender dois dias por semana, numa clínica do Taquaral. A primeira paciente foi indicação de Simone, do banco da escolinha.

Quantas pessoas da sua rotina sabem o seu nome completo?

Teste hoje: abra a agenda do celular e conte quantos contatos estão salvos pela função, como “mãe do”, “esposa do” ou “filha da”. Depois peça a uma mãe da turma do seu filho que mostre como salvou você. Se o seu nome não aparecer, o esperado é mandar ainda hoje uma mensagem com nome e sobrenome e, em uma semana, ouvir o seu nome numa ligação.

 
 
Quiz da edição

Como Renata atendeu a ligação feita do celular de Juliana?

ANo primeiro toque, perguntando quem estava ligando.
BNo segundo toque, chamando quem ligou de mãe do Téo e perguntando se ele estava bem.
CJá sabendo que era Patrícia, perguntando pela carona de sábado.
DDepois de várias chamadas perdidas, pedindo para a pessoa se identificar.

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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