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Às 2h, na beirada da cama do filho
A carta pra quem só pega no sono quando o filho dorme, e no colchão errado.
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Vinte centímetros de colchão e um braço dormente.
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No quarto de parede azul de um apartamento do Bacacheri, em Curitiba, às oito e quarenta de uma terça-feira, Theo, de quatro anos, puxou a manga da mãe e pediu: “Fica só até eu dormir”. Camila Ferraz Duarte, trinta e seis anos, deitou de lado na beirada da cama infantil, com o braço esquerdo dobrado sob a cabeça do filho.
A cama de Theo tem noventa centímetros de largura. O menino dorme atravessado, como dormem as crianças dessa idade, e sobra para Camila uma faixa de uns vinte centímetros entre o colchão e a grade de madeira.
Ela planejava ficar dez minutos. Na cabeça, a lista da noite já estava montada: lavar a garrafinha da escola, responder dois e-mails do escritório de contabilidade onde trabalha, separar o uniforme, tomar banho com calma e ler o romance que está na mesa de cabeceira desde julho, parado na página 41.
Theo apagou às oito e cinquenta e dois. Camila apagou às oito e cinquenta e quatro.
Às duas e dez da manhã, ela acordou com o braço esquerdo formigando do ombro até os dedos, sem sentir a mão. O abajur de estrela continuava aceso. O pescoço estava torto, o pé direito pendia para fora da cama e o celular, ainda no bolso do moletom, mostrava onze mensagens não lidas.
Ela se levantou devagar para não acordar o filho, sacudiu o braço no corredor e foi para a própria cama, onde o marido, Rafael, dormia desde as onze. Ficou acordada até as três e meia, olhando o teto, fazendo de cabeça a lista que não tinha feito.
Camila contou as noites assim no calendário da cozinha, com um x vermelho, durante todo o mês de setembro. Foram vinte e três.
O sono dela, nessas vinte e três noites, só veio de carona no sono de Theo, no horário dele, no colchão dele e no espaço que ele deixou. A história dessa carona começa numa rotina que parece cuidado e esconde uma conta.
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I O Padrão
Vinte centímetros de colchão
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Camila Ferraz Duarte começou a deitar ao lado do filho em março de 2024, quando Theo trocou o berço pela cama infantil e chorava toda vez que ela saía do quarto. A pediatra disse que a fase duraria umas semanas. Durou dezenove meses.
No começo, Camila saía do quarto em quinze minutos, contando a respiração do filho. Com o tempo, o roteiro ficou mais longo: história, água, xixi, outra história, a música do jacaré e a mão dela no cabelo dele até o corpo amolecer.
Ela trabalha das oito às cinco como analista fiscal num escritório de contabilidade no Centro Cívico. Busca Theo na escola às cinco e meia, faz o jantar, dá banho e, às oito e meia, começa a rotina do quarto. Fora o trajeto de carro, não sobra no dia nenhum intervalo em que ela fique sozinha.
A NOITE QUE ELA NÃO ESCOLHEU
Em setembro, além dos x vermelhos, Camila anotou a hora em que acordava na cama de Theo. A mais cedo foi meia-noite e vinte. A mais tarde, quatro e cinco. A média ficou perto das duas.
Cada despertar trazia o mesmo corpo: braço dormente, pescoço travado, quadril dolorido do lado que ficou para fora. E trazia a mesma pressa, a de recuperar a noite que tinha ido embora sem ela perceber.
Ela dormia a noite dele, no colchão dele, e acordava devendo a dela. |
Na volta para a própria cama, o sono não vinha. Camila abria o celular, respondia o e-mail do escritório, conferia a agenda da escola, colocava a garrafinha na pia. A lista da noite, que deveria ter cabido entre as nove e as onze, acontecia entre as duas e as três e meia.
Rafael Duarte, engenheiro de manutenção, dorme às onze e acorda às seis e quarenta. Em setembro, não acordou nenhuma madrugada. Quando Camila mostrou a ele os x vermelhos, ele perguntou por que ela não colocava Theo para dormir e saía logo.
Ela não soube responder na hora. Só conseguiu dizer que, quando deitava, o corpo desligava junto com o do filho, como se tivesse esperado o dia inteiro por uma permissão que só chegava quando ele fechava os olhos.
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II A Ferida
O sofá da sala às dez da noite
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A mãe de Camila, Iolanda Ferraz, criou três filhos em Ponta Grossa, nos Campos Gerais do Paraná, e trabalhou vinte e dois anos como merendeira numa escola estadual. Camila não guarda uma única lembrança da mãe indo dormir na própria cama antes dos filhos.
A lembrança que ficou é a do sofá. Iolanda sentava para ver a novela das nove com o pano de prato no ombro e cochilava sentada, de boca entreaberta, antes de o capítulo acabar. Acordava quando alguém desligava a televisão e ia para o quarto arrastando o chinelo.
Quando Camila tinha onze anos, perguntou por que a mãe não deitava logo. Iolanda respondeu: “Se eu deito, não levanto mais, e ainda tem a marmita do seu pai”. A marmita ficava pronta à meia-noite. O sono de Iolanda começava quando a última tarefa da casa terminava, nunca antes.
O SONO QUE VEM POR ÚLTIMO
A socióloga Arlie Russell Hochschild, da Universidade da Califórnia em Berkeley, acompanhou durante oito anos casais em que os dois trabalhavam fora e publicou o resultado em 1989. Ela chamou de segundo turno o trabalho da casa e dos filhos que começa quando o expediente acaba, e registrou que esse turno caía quase inteiro sobre as mulheres.
Elas falavam do sono como uma pessoa com fome fala de comida. Arlie Russell Hochschild, The Second Shift (O Segundo Turno), 1989 |
No mesmo livro, Hochschild somou as horas de trabalho pago e doméstico dos casais que acompanhou e concluiu que as mulheres trabalhavam, ao longo do ano, o equivalente a um mês extra de dias de vinte e quatro horas. O sono era o lugar de onde esse mês saía.
Camila repete o gesto da mãe com um ajuste de geração. Iolanda dormia no sofá porque a casa ainda não tinha terminado. Camila dorme na beirada da cama infantil porque o filho ainda não terminou de precisar dela. Nas duas, o sono da mulher só chega quando outra pessoa libera.
Iolanda tem hoje sessenta e oito anos, está aposentada e ainda cochila no sofá antes de a novela acabar. Numa ligação de domingo, em setembro, Camila contou dos x vermelhos. A mãe riu e disse que era assim mesmo, que mãe dorme quando dá.
Camila desligou e percebeu que tinha ouvido a frase a vida inteira e nunca tinha discordado. Também percebeu que nunca tinha visto a mãe escolher a hora de deitar.
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