In partnership with

Resgate do Feminino   Resgate do Feminino
ED 131
{{saudacao | Bom te ver por aqui.}} {{saudacao_nome | }}
              
{{ofensiva_curta | comece hoje}}
Ver ofensiva →

Você escolhe a carta de amanhã: a votação está no fim desta edição.

Às 2h, na beirada da cama do filho

A carta pra quem só pega no sono quando o filho dorme, e no colchão errado.

Beirada de uma cama infantil de madeira, com um abajur de estrela aceso

Vinte centímetros de colchão e um braço dormente.

▼

No quarto de parede azul de um apartamento do Bacacheri, em Curitiba, às oito e quarenta de uma terça-feira, Theo, de quatro anos, puxou a manga da mãe e pediu: “Fica só até eu dormir”. Camila Ferraz Duarte, trinta e seis anos, deitou de lado na beirada da cama infantil, com o braço esquerdo dobrado sob a cabeça do filho.

A cama de Theo tem noventa centímetros de largura. O menino dorme atravessado, como dormem as crianças dessa idade, e sobra para Camila uma faixa de uns vinte centímetros entre o colchão e a grade de madeira.

Ela planejava ficar dez minutos. Na cabeça, a lista da noite já estava montada: lavar a garrafinha da escola, responder dois e-mails do escritório de contabilidade onde trabalha, separar o uniforme, tomar banho com calma e ler o romance que está na mesa de cabeceira desde julho, parado na página 41.

Theo apagou às oito e cinquenta e dois. Camila apagou às oito e cinquenta e quatro.

Às duas e dez da manhã, ela acordou com o braço esquerdo formigando do ombro até os dedos, sem sentir a mão. O abajur de estrela continuava aceso. O pescoço estava torto, o pé direito pendia para fora da cama e o celular, ainda no bolso do moletom, mostrava onze mensagens não lidas.

Ela se levantou devagar para não acordar o filho, sacudiu o braço no corredor e foi para a própria cama, onde o marido, Rafael, dormia desde as onze. Ficou acordada até as três e meia, olhando o teto, fazendo de cabeça a lista que não tinha feito.

Camila contou as noites assim no calendário da cozinha, com um x vermelho, durante todo o mês de setembro. Foram vinte e três.

O sono dela, nessas vinte e três noites, só veio de carona no sono de Theo, no horário dele, no colchão dele e no espaço que ele deixou. A história dessa carona começa numa rotina que parece cuidado e esconde uma conta.

Continue lendo ↓

 
 

I  O Padrão

Vinte centímetros de colchão

Camila Ferraz Duarte começou a deitar ao lado do filho em março de 2024, quando Theo trocou o berço pela cama infantil e chorava toda vez que ela saía do quarto. A pediatra disse que a fase duraria umas semanas. Durou dezenove meses.

No começo, Camila saía do quarto em quinze minutos, contando a respiração do filho. Com o tempo, o roteiro ficou mais longo: história, água, xixi, outra história, a música do jacaré e a mão dela no cabelo dele até o corpo amolecer.

Ela trabalha das oito às cinco como analista fiscal num escritório de contabilidade no Centro Cívico. Busca Theo na escola às cinco e meia, faz o jantar, dá banho e, às oito e meia, começa a rotina do quarto. Fora o trajeto de carro, não sobra no dia nenhum intervalo em que ela fique sozinha.

A NOITE QUE ELA NÃO ESCOLHEU

Em setembro, além dos x vermelhos, Camila anotou a hora em que acordava na cama de Theo. A mais cedo foi meia-noite e vinte. A mais tarde, quatro e cinco. A média ficou perto das duas.

Cada despertar trazia o mesmo corpo: braço dormente, pescoço travado, quadril dolorido do lado que ficou para fora. E trazia a mesma pressa, a de recuperar a noite que tinha ido embora sem ela perceber.

Ela dormia a noite dele, no colchão dele, e acordava devendo a dela.

Na volta para a própria cama, o sono não vinha. Camila abria o celular, respondia o e-mail do escritório, conferia a agenda da escola, colocava a garrafinha na pia. A lista da noite, que deveria ter cabido entre as nove e as onze, acontecia entre as duas e as três e meia.

Rafael Duarte, engenheiro de manutenção, dorme às onze e acorda às seis e quarenta. Em setembro, não acordou nenhuma madrugada. Quando Camila mostrou a ele os x vermelhos, ele perguntou por que ela não colocava Theo para dormir e saía logo.

Ela não soube responder na hora. Só conseguiu dizer que, quando deitava, o corpo desligava junto com o do filho, como se tivesse esperado o dia inteiro por uma permissão que só chegava quando ele fechava os olhos.

II  A Ferida

O sofá da sala às dez da noite

A mãe de Camila, Iolanda Ferraz, criou três filhos em Ponta Grossa, nos Campos Gerais do Paraná, e trabalhou vinte e dois anos como merendeira numa escola estadual. Camila não guarda uma única lembrança da mãe indo dormir na própria cama antes dos filhos.

A lembrança que ficou é a do sofá. Iolanda sentava para ver a novela das nove com o pano de prato no ombro e cochilava sentada, de boca entreaberta, antes de o capítulo acabar. Acordava quando alguém desligava a televisão e ia para o quarto arrastando o chinelo.

Quando Camila tinha onze anos, perguntou por que a mãe não deitava logo. Iolanda respondeu: “Se eu deito, não levanto mais, e ainda tem a marmita do seu pai”. A marmita ficava pronta à meia-noite. O sono de Iolanda começava quando a última tarefa da casa terminava, nunca antes.

O SONO QUE VEM POR ÚLTIMO

A socióloga Arlie Russell Hochschild, da Universidade da Califórnia em Berkeley, acompanhou durante oito anos casais em que os dois trabalhavam fora e publicou o resultado em 1989. Ela chamou de segundo turno o trabalho da casa e dos filhos que começa quando o expediente acaba, e registrou que esse turno caía quase inteiro sobre as mulheres.

Elas falavam do sono como uma pessoa com fome fala de comida.

Arlie Russell Hochschild, The Second Shift (O Segundo Turno), 1989

No mesmo livro, Hochschild somou as horas de trabalho pago e doméstico dos casais que acompanhou e concluiu que as mulheres trabalhavam, ao longo do ano, o equivalente a um mês extra de dias de vinte e quatro horas. O sono era o lugar de onde esse mês saía.

Camila repete o gesto da mãe com um ajuste de geração. Iolanda dormia no sofá porque a casa ainda não tinha terminado. Camila dorme na beirada da cama infantil porque o filho ainda não terminou de precisar dela. Nas duas, o sono da mulher só chega quando outra pessoa libera.

Iolanda tem hoje sessenta e oito anos, está aposentada e ainda cochila no sofá antes de a novela acabar. Numa ligação de domingo, em setembro, Camila contou dos x vermelhos. A mãe riu e disse que era assim mesmo, que mãe dorme quando dá.

Camila desligou e percebeu que tinha ouvido a frase a vida inteira e nunca tinha discordado. Também percebeu que nunca tinha visto a mãe escolher a hora de deitar.

 

Quem banca a edição de hoje

Free Workshop: Monetize Your Newsletter This Month

We've helped newsletter owners turn small lists into $2K-$10K/month, without quitting their job or getting on camera. See the exact system inside this free workshop, no experience required.

Patrocinadores mantêm a edição gratuita

 

III  O Resgate

O alarme das nove e cinco

No primeiro dia de outubro, Camila Ferraz Duarte programou o celular para vibrar às nove e cinco da noite, guardado no bolso do moletom, com o som desligado. O alarme chegaria antes do próprio sono.

Ela também mudou a posição. Passou a sentar no chão, encostada na cama, com a mão no peito de Theo, sem deitar no colchão. Sentada, o corpo dela não desligava junto com o dele.

TRÊS PASSOS PARA DEVOLVER A NOITE

1. Programar um alarme de vibração para quinze minutos depois do início da rotina do quarto e guardar o celular no bolso antes de apagar a luz.

2. Ficar sentada ao lado da cama, com a mão na criança, sem deitar no colchão dela.

3. Ao sair, ir direto para um compromisso de vinte minutos só seu, escrito num papel colado na porta do quarto: banho, livro ou a própria cama.

Na primeira noite, Theo acordou quando ela levantou e chorou por seis minutos. Camila voltou, sentou no chão outra vez e saiu às nove e vinte. Na segunda noite, ele chorou dois minutos. Na quarta, nenhum.

A noite dela começou às nove e vinte, com a porta do quarto do filho encostada.

O papel na porta do quarto diz “página 42”. Na terceira noite, Camila leu até a página 63 do romance parado desde julho e foi deitar às dez e quarenta, na própria cama, ao lado de Rafael.

Rafael assumiu a garrafinha e o uniforme nas noites de terça e quinta. Ele não sabia que a lista existia até ver Camila escrevendo os itens num post-it na geladeira.

O desfecho, até aqui, cabe no calendário da cozinha: nos primeiros cinco dias de outubro, nenhum x vermelho. Na quinta noite, Theo teve febre e Camila dormiu com ele de propósito, num colchonete no chão. Ela marcou essa noite com um círculo azul, porque foi escolha dela.

Iolanda soube da mudança pelo telefone e perguntou se o menino não ficava triste. Camila respondeu que ele dormia em doze minutos e que ela acordava às seis e meia sem o braço formigando.

*“Em que horário o seu sono começa quando ninguém mais precisa de você?”*

Teste esta noite: programe um alarme de vibração no bolso para quinze minutos depois de entrar no quarto da criança e saia quando ele tocar, mesmo que ela ainda esteja acordada. Anote a hora em que você deitou na sua cama. O resultado esperado é deitar antes das onze, no seu colchão, e acordar sem dormência em nenhum braço.

 
 
Sorteia a sua permissão de hoje. Oito permissões, uma por dia. O ebook ensina, o app cobra. Sortear minha permissão de hoje.

Sortear minha permissão de hoje →

 
Quiz da edição

Quantas noites de setembro Camila marcou com um x vermelho no calendário da cozinha?

A15 noites
B19 noites
C23 noites
D28 noites

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
Sua avaliação

Como foi a carta de hoje?

🌹🌹🌹🌹🌹  ótima 🌹🌹🌹🌹  boa 🌹🌹🌹  ok 🌹🌹  ruim 🌹  péssima
 
Escolha a edição de amanhã

Qual carta você quer ver amanhã?

Voto aberto até 06/10, 15h30

A Os quarenta reais do jantar →
B O prato que veio errado →
C A sobremesa dividida →
D A ata de toda reunião →
 
Sua ofensiva
🔥 {{streak_atual | 0}} {{streak_titulo | Comece sua ofensiva hoje}} recorde {{streak_recorde | 0}}
Seus últimos 6 dias e hoje
{{ouro_linha | Cada edição vale 10 de ouro: voto, quiz e clique.}}

missão de hoje

📨 Mandar seu link pra 1 pessoa (1x por dia) +10
WhatsApp   Copiar link

Confirmou? +100 de ouro: entra no seu ouro à noite.

{{streak_cta | Começar minha ofensiva}}
{{rank_simbolo | Ⅰ}} {{rank_nome | Aprendiz}} · {{moedas | 0}} de ouro · loja e missões →
 

Quem banca a edição de hoje

Become an email marketing GURU.

Is your email strategy due for a tune-up? GURU Conference (powered by Constant Contact) is back Nov 12–13, 100% free and virtual. You'll get email tactics you can steal the same day from top B2B and B2C marketers. Last year, 29,000+ marketers showed up. Save your free spot.

Patrocinadores mantêm a edição gratuita

 
Recomendação de Newsletter
Conspiração do Dia

Conspiração do Dia

Uma teoria por dia, contada como você nunca ouviu: onde nasceu e por que pegou, em dois minutos. No seu email todo dia às 20:20.

Quero receber →

Volte para você.

RESGATE DO FEMININO

O feminino não precisa ser reconstruído. Precisa ser curado.

Continue lendo

View more
caret-right