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Marlene Aparecida Souza decidiu aprender a pedir como ensinava os alunos a ler: uma sílaba de cada vez, com o caderno aberto e o lápis na mão. Começou pela parte mais difícil, escrever o pedido antes de dizê-lo.
Na terça-feira, sentou na copa e tentou escrever no caderno verde uma linha que começasse com o nome dela. Levou quarenta minutos e três rascunhos. O primeiro saiu “obrigada pela saúde”. O segundo, “peço pela minha família e por mim”. O terceiro ficou assim: “Eu, Marlene, peço para voltar a cantar no coral”.
O pedido tinha história. Ela cantou no coral da paróquia de 1994 a 2004, como contralto (a voz feminina mais grave), e saiu quando Dona Dirce adoeceu e as quintas à noite viraram dia de visita. A mãe hoje tem cuidadora, e as quintas estavam livres havia anos.
TRÊS PASSOS PARA REZAR EM PRIMEIRA PESSOA
1. Escrever antes de rezar: pôr no papel uma linha que comece com o próprio nome e o verbo pedir, e reescrever até ela não escorregar para obrigada.
2. Pedir algo que dá para ver acontecer: um pedido concreto, com ação e data, que ela mesma possa conferir depois.
3. Dar um lugar físico ao pedido: acender uma vela só para ele, no mesmo castiçal das outras, e dizer a frase escrita em voz baixa.
No sábado seguinte, Marlene comprou cinco velas na banca da porta. Acendeu as quatro de sempre, pelos quatro nomes de sempre. Depois acendeu a quinta, na ponta vazia do castiçal, e disse a frase inteira, sem trocar nenhuma palavra.
Irene viu da porta da sacristia. Esperou Marlene terminar, chegou perto e perguntou de quem era a vela nova. Marlene respondeu: “É minha, Irene. Pedi o coral de volta”.
Vinte e seis anos de caderno. A primeira linha dela levou nove palavras. |
Na quinta-feira, Marlene foi ao ensaio do coral. A regente, Dona Lúcia, ainda era a mesma de 2004, e lembrou dela pelo timbre antes de lembrar pelo rosto. Marlene voltou para o naipe (o grupo de vozes de mesmo tipo) das contraltos e cantou de novo na missa de domingo.
O pedido não virou hábito sozinho. Nas semanas seguintes, ela ainda pegou a mão escrevendo “obrigada” no lugar de “peço” duas vezes. Riscou as duas linhas e reescreveu.
Irene também acendeu uma vela por ela mesma em outubro, pedindo a cirurgia do joelho que adiava havia três anos. Contou a Marlene no sábado, baixinho, como quem confessa travessura.
“Pelo nome de quantas pessoas você reza antes de chegar ao seu?”
Teste hoje: escreva num papel uma linha que comece com o seu nome e “peço”, com um pedido concreto que você mesma possa conferir. Reescreva até a frase sair sem nenhum “obrigada” e sem o nome de outra pessoa. Conte quantas tentativas levou. O resultado esperado é chegar à frase limpa em até três rascunhos e conseguir lê-la em voz alta uma vez, sem emendar com outro nome.
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