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A carta de hoje foi escolhida pela maioria dos leitores na votação de ontem.

A vela que faltava no castiçal

A carta pra quem reza pelo nome de todo mundo e, na própria vez, só sabe agradecer.

Quatro velas acesas e uma apagada no castiçal da capela

As 4 velas acesas e o suporte vazio.

▼

Na capela lateral da Paróquia São Judas Tadeu, no Boqueirão, em Curitiba, às sete e quinze de um sábado, a sacristã Irene Bortolini parou com a lata de tocos de vela na mão e perguntou: “E pela senhora, Marlene, nenhuma?”. Marlene Aparecida Souza tinha acabado de acender a quarta vela do castiçal de ferro.

Marlene tem 61 anos e foi professora de alfabetização numa escola estadual do bairro por 32 anos. Aposentou em 2020. Desde então, todo sábado, sai de casa antes das sete, compra quatro velas brancas na banca da porta da igreja e reza na capela antes da missa das oito.

Cada vela tem dono. A primeira é do filho, Diego, que mora em Joinville e trocou de emprego em agosto. A segunda é da filha, Patrícia, que tenta engravidar há dois anos. A terceira é do marido, Nelson, diabético desde 2015. A quarta é da mãe, Dona Dirce, de 93 anos, que vive numa casa de repouso em Colombo.

Para cada nome, Marlene faz um pedido inteiro, com detalhe. Pede que o chefe novo do Diego seja paciente, que o exame da Patrícia venha bom, que o açúcar do Nelson baixe, que a mãe durma a noite sem chamar a enfermeira.

Irene trabalha na paróquia há dezenove anos e conhece o ritual de cor. Naquele sábado, pela primeira vez, ficou curiosa com a ponta vazia do castiçal, onde sempre sobrava um suporte.

Marlene sorriu e respondeu o que respondia a qualquer um que perguntasse por ela: “Eu só agradeço, Irene. Já tenho muito”. Depois ajoelhou, fez o sinal da cruz e tentou, por curiosidade, começar uma oração com as palavras “eu peço”.

Não conseguiu terminar a frase. A cabeça trazia o nome do Diego, o rosto da Patrícia, o glicosímetro do Nelson. Quando tentava se colocar na frase, a oração escorregava sozinha para “obrigada, Senhor, por tudo”.

Saiu da capela antes da missa, com as mãos ainda cheirando a cera. Em casa, foi procurar na gaveta da cômoda o caderno onde anotava as intenções desde 1998, para conferir quantas vezes o próprio nome tinha aparecido lá dentro.

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I  O Padrão

O caderno de capa verde

Marlene Aparecida Souza abriu o caderno na mesa da copa enquanto Nelson assistia ao jornal da manhã. Era um caderno universitário de capa verde, com a espiral torta, já no segundo refil de folhas coladas com fita.

Ela começou a anotar intenções em março de 1998, quando Diego teve pneumonia aos seis anos e passou onze dias internado no Hospital Pequeno Príncipe. A partir dali, toda novena (nove dias seguidos de oração por um mesmo pedido) ganhava uma linha, com data e nome.

O QUE AS PÁGINAS GUARDAVAM

Em 26 anos, o caderno tinha 214 linhas de intenção. Marlene contou uma por uma, com um lápis, marcando a inicial de quem era o pedido na margem.

Diego aparecia 51 vezes: provas, a carteira de motorista, o primeiro emprego, o casamento. Patrícia, 58 vezes. Nelson, 44. Dona Dirce, 37. O resto se dividia entre alunos com dificuldade de leitura, vizinhas doentes e o irmão dela, Valter, que perdeu o emprego numa metalúrgica em 2009.

O nome de Marlene aparecia 9 vezes. Nenhuma das nove era um pedido. Todas começavam com “obrigada”: pela cirurgia do Diego que deu certo, pelo neto que ainda não veio, mas ela já agradecia, pela aposentadoria sem atraso.

Em 214 linhas, ela tinha pedido por todos. Por ela mesma, só tinha agradecido.

Na segunda-feira, Marlene voltou à paróquia e pediu para ver o livro de intenções, o caderno grosso que fica na entrada, onde os fiéis escrevem os pedidos lidos na missa de domingo. Irene trouxe o livro do mês de setembro.

Marlene leu as páginas com a mesma atenção que dava às redações dos alunos. Os pedidos escritos por mulheres eram quase todos por outra pessoa: o filho no vestibular, o marido desempregado, a mãe na fila da cirurgia. Os poucos pedidos em primeira pessoa tinham letra de homem e assinatura masculina: emprego, saúde, a venda de um carro.

Uma linha chamou a atenção dela. Uma mulher chamada Rosângela tinha escrito “pela minha família” e, embaixo, em letra menor, começado “e por mim, para que eu”, sem terminar. O resto da linha estava em branco.

Marlene reconheceu a frase interrompida. Era a mesma que tinha travado na capela, dois dias antes, diante das quatro velas acesas.

Fechou o livro e perguntou a Irene se a sacristã rezava por si mesma. Irene pensou um pouco e confessou que não lembrava da última vez. Rezava pela paróquia, pelo padre, pelos netos. Por ela, agradecia.

II  A Ferida

O terço de Dona Dirce

Marlene Aparecida Souza aprendeu a rezar na cozinha da casa de madeira em Rio Negrinho, Santa Catarina, onde cresceu com os pais e quatro irmãos. Toda noite, depois da janta, a mãe, Dona Dirce, puxava o terço (a reza de cinquenta ave-marias contadas nas contas de um colar) com os filhos sentados no banco comprido.

Antes de começar, Dona Dirce dizia as intenções em voz alta. Pelo pai, que trabalhava na serraria. Pelos irmãos dela, que tinham ido para o Paraná. Pela vizinha viúva. Pelas crianças, uma por uma, pelo nome. Nunca por ela.

A NOITE DA BICICLETA

Em 1972, aos nove anos, Marlene quis rezar por uma bicicleta. Uma prima de Mafra tinha ganhado uma vermelha, e ela passou a semana imaginando o caminho da escola em cima de duas rodas.

Na hora das intenções, levantou a mão e disse: “E eu peço uma bicicleta”. Os irmãos riram. Dona Dirce esperou o riso acabar e respondeu, sem levantar a voz: “Pra gente não se pede, filha. A gente agradece o que tem”.

A bicicleta nunca veio, e a frase ficou. Marlene não lembra de ter pedido nada para si em oração depois daquela noite. Aprendeu que o pedido em primeira pessoa era um tipo de falta de educação diante de Deus.

“Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.”

Clarice Lispector, Perto do Coração Selvagem, 1943

Clarice pôs a frase na boca de Joana, a protagonista do romance, uma mulher que sente o próprio desejo antes de saber dizê-lo. Marlene tinha o problema ao contrário: sabia o que queria, mas tinha aprendido que o próprio desejo não merecia ser falado em voz alta.

A lição cobrou caro em 2019. Num exame de rotina, o médico encontrou um nódulo na tireoide (a glândula do pescoço que regula o metabolismo) e pediu uma punção. O resultado levaria três semanas.

Naquelas três semanas, Marlene acendeu as quatro velas de sempre. Rezou pelo açúcar do Nelson, que tinha subido, e pela gravidez da Patrícia. Não contou do nódulo para ninguém em casa. Não acendeu vela por ela.

O resultado saiu benigno, e o médico recomendou só acompanhamento anual. Marlene guardou o laudo na mesma gaveta do caderno verde e só contou à família seis meses depois, num almoço de domingo, como quem conta uma história boba.

Ela tinha carregado o medo sozinha por três semanas, porque pedir por si parecia egoísmo.

Patrícia ficou brava naquele almoço. Perguntou por que a mãe não tinha dito nada. Marlene respondeu que não queria preocupar ninguém. A filha devolveu: “Mãe, você reza pela minha gravidez há dois anos e não deixou a gente rezar pelo seu pescoço”.

A ferida não estava na fé de Marlene, que era firme. Estava na gramática da oração que ela aprendeu na cozinha de Rio Negrinho: os outros entravam como sujeito do pedido, e ela entrava só como quem diz obrigada.

 

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III  O Resgate

A quinta vela

Marlene Aparecida Souza decidiu aprender a pedir como ensinava os alunos a ler: uma sílaba de cada vez, com o caderno aberto e o lápis na mão. Começou pela parte mais difícil, escrever o pedido antes de dizê-lo.

Na terça-feira, sentou na copa e tentou escrever no caderno verde uma linha que começasse com o nome dela. Levou quarenta minutos e três rascunhos. O primeiro saiu “obrigada pela saúde”. O segundo, “peço pela minha família e por mim”. O terceiro ficou assim: “Eu, Marlene, peço para voltar a cantar no coral”.

O pedido tinha história. Ela cantou no coral da paróquia de 1994 a 2004, como contralto (a voz feminina mais grave), e saiu quando Dona Dirce adoeceu e as quintas à noite viraram dia de visita. A mãe hoje tem cuidadora, e as quintas estavam livres havia anos.

TRÊS PASSOS PARA REZAR EM PRIMEIRA PESSOA

1. Escrever antes de rezar: pôr no papel uma linha que comece com o próprio nome e o verbo pedir, e reescrever até ela não escorregar para obrigada.

2. Pedir algo que dá para ver acontecer: um pedido concreto, com ação e data, que ela mesma possa conferir depois.

3. Dar um lugar físico ao pedido: acender uma vela só para ele, no mesmo castiçal das outras, e dizer a frase escrita em voz baixa.

No sábado seguinte, Marlene comprou cinco velas na banca da porta. Acendeu as quatro de sempre, pelos quatro nomes de sempre. Depois acendeu a quinta, na ponta vazia do castiçal, e disse a frase inteira, sem trocar nenhuma palavra.

Irene viu da porta da sacristia. Esperou Marlene terminar, chegou perto e perguntou de quem era a vela nova. Marlene respondeu: “É minha, Irene. Pedi o coral de volta”.

Vinte e seis anos de caderno. A primeira linha dela levou nove palavras.

Na quinta-feira, Marlene foi ao ensaio do coral. A regente, Dona Lúcia, ainda era a mesma de 2004, e lembrou dela pelo timbre antes de lembrar pelo rosto. Marlene voltou para o naipe (o grupo de vozes de mesmo tipo) das contraltos e cantou de novo na missa de domingo.

O pedido não virou hábito sozinho. Nas semanas seguintes, ela ainda pegou a mão escrevendo “obrigada” no lugar de “peço” duas vezes. Riscou as duas linhas e reescreveu.

Irene também acendeu uma vela por ela mesma em outubro, pedindo a cirurgia do joelho que adiava havia três anos. Contou a Marlene no sábado, baixinho, como quem confessa travessura.

“Pelo nome de quantas pessoas você reza antes de chegar ao seu?”

Teste hoje: escreva num papel uma linha que comece com o seu nome e “peço”, com um pedido concreto que você mesma possa conferir. Reescreva até a frase sair sem nenhum “obrigada” e sem o nome de outra pessoa. Conte quantas tentativas levou. O resultado esperado é chegar à frase limpa em até três rascunhos e conseguir lê-la em voz alta uma vez, sem emendar com outro nome.

 
 
Quiz da edição

Quantas velas Marlene acendia todo sábado na capela da Paróquia São Judas Tadeu?

ADuas
BTrês
CQuatro
DCinco

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