|
|
A toalha boa que espera a visita
A carta pra quem guarda o melhor da casa pra quem dorme uma noite, e seca o próprio corpo no que já não seca mais.
|
A pilha boa em cima, a puída embaixo.
|
| ▼ |
|
"Essa aí não, essa é das boas", disse Marlene ao filho, com a mão na porta do armário do corredor, na casa dela em Contagem. O menino tinha catorze anos, tinha acabado de sair do banho e puxou a primeira toalha que viu na pilha de cima. Ela devolveu a peça pra prateleira, alisou o vinco com a palma, e tirou de baixo uma toalha fina, com a barra desfiada, que largava fiapo na pele.
A pilha de cima tem quatro toalhas brancas, compradas numa liquidação de julho, grossas, ainda com aquele cheiro de armário limpo. Elas moram na prateleira há sete anos. Foram usadas por uma prima que veio da Bahia passar dois dias, por uma amiga do marido que dormiu no sofá depois de um velório e por uma sobrinha que ficou uma semana num intercâmbio de curso. Somando tudo, catorze noites em sete anos.
A de baixo é a de Marlene. Já foi azul, hoje é de uma cor sem nome. O felpo caiu no meio, onde a mão passa, e sobrou o tecido de base, que não seca, só espalha a água pelas costas. Ela usa essa toalha todo dia, duas vezes em dia de calor, e nunca cogitou trocar, porque a toalha ainda funciona, mais ou menos, e as boas estão ali pra quando precisar.
A matemática do armário é o que salta. A toalha boa serve catorze noites em sete anos. A toalha puída serve mais de cinco mil banhos no mesmo período. O objeto melhor da casa foi alocado pra ocasião mais rara, e o objeto pior foi alocado pra rotina inteira, e ninguém na família viu nisso um erro de conta.
A toalha é só o começo. O mesmo armário guarda o lençol de linho, as taças que não vão à máquina, o roupão com etiqueta. Tudo esperando quem vem, dorme, agradece e vai embora. Marlene não é sovina: ela é caprichosa, e o capricho dela aponta pra fora de casa.
Vale começar abrindo o armário e fazendo a conta.
Continue lendo ↓
|
|
I O Padrão
O inventário das duas pilhas
|
|
O trabalho desta semana começa numa tarde de sábado, com o armário aberto e o celular na mão, e não pede que você jogue nada fora. É inventário, não faxina.
Abre o armário do corredor, o do quarto e o do banheiro. Tira tudo o que está guardado pra ocasião: toalha, lençol, colcha, roupão, tapete de banho, jogo americano, taça, louça, vela, sabonete, creme, camisola, bolsa, perfume. Põe em cima da cama, numa pilha só. Fotografa a pilha, porque a memória arruma a cena em dois dias. Do lado, faz a segunda pilha com o que você usa de fato: a toalha de todo dia, o lençol de todo dia, o copo de todo dia, o creme de todo dia.
QUATRO NÚMEROS QUE O INVENTÁRIO ENTREGA
Com as pilhas montadas, anota quatro dados, e nenhum deles exige precisão de contador.
O primeiro número é o tempo de estoque. Há quantos anos cada peça da pilha boa está guardada. Quatro anos, seis, dez. Muita gente descobre nessa hora que tem enxoval de casamento intacto, e que o casamento tem mais idade que o filho mais velho.
O segundo número é o de usos. Quantas vezes aquela peça foi realmente usada desde que entrou em casa. Não estima por cima, conta as ocasiões que você lembra: o Natal, a visita da sogra, o aniversário. Costuma dar entre três e vinte.
O terceiro número é o estado da peça gêmea, a que você usa. Escreve uma linha honesta: barra desfiada, elástico frouxo, mancha que não sai, alça arrebentada. Descrição crua, sem suavizar.
Uma pilha guarda o tempo de estoque. A outra guarda o tempo de uso. |
O quarto número é o mais desconfortável: quantas pessoas dormiram na sua casa no último ano. Some as noites. Quase sempre o total cabe numa mão, e quase sempre a pilha boa tem mais peças do que a casa teve visitas.
Com os quatro números na tela, o desenho aparece sozinho, e ele não fala de dinheiro. Marlene tem dinheiro pra comprar toalha, comprou quatro na liquidação. O que ela não tem é a permissão de usar o que comprou.
E o segundo desenho é ainda mais nítido: a pilha boa não está guardada pra uma data, está guardada pra um tipo de pessoa. Você olha as peças e consegue nomear quem tem direito a elas. A prima da Bahia tem. A amiga do marido tem. A sobrinha do intercâmbio tem. A dona da casa não aparece na lista, e é aí que vale entender quando essa lista foi escrita.
|
|
II A Ferida
A dona da casa não está na lista
|
|
Vamos ser honestas?
Ninguém guarda a toalha boa por avareza, e o hábito ainda por cima tem nome elogioso em casa: capricho. Guarda por uma conta silenciosa aprendida cedo: existe gente cujo conforto justifica gastar o bom, e existe gente cujo conforto não justifica. A menina que cresce vendo a mãe servir o café na xícara de porcelana pra visita e beber o dela na caneca lascada aprende a conta inteira sem uma palavra de aula.
O ponto cego do arranjo é o valor da testemunha. O bom só se justifica quando existe alguém pra ver o bom. Toalha macia usada sozinha, com a porta do banheiro fechada, não vira elogio, não vira história contada na mesa, não vira nada que alguém comente. Vira só uma mulher confortável, e conforto sem testemunha parece desperdício pra quem foi treinada assim.
A mulher aprende a se avaliar pelos olhos de quem a observa, e trata a si mesma como objeto de apreciação alheia. Simone de Beauvoir, O Segundo Sexo, 1949 |
Repara na inversão que se instala. O objeto bom não serve pra dar conforto, serve pra provar cuidado. E prova de cuidado precisa de plateia. Por isso a toalha grossa vai pro hóspede que fica duas noites e a toalha desfiada fica com quem toma banho ali todos os dias do ano: uma sai da casa como recado, a outra ficaria só como bem-estar.
O custo não aparece no armário, aparece no corpo. Cinco mil banhos secando as costas num pano que já não seca, cinco mil noites num lençol áspero enquanto o de linho descansa dobrado, cinco mil cafés numa caneca com a alça remendada. Nenhuma dessas passagens dói o suficiente pra virar queixa. Elas somam, e o que somam é uma frase que ela nunca disse em voz alta: eu aguento o pior porque eu aguento.
E tem uma parte pior, que é a do tempo. Peça guardada apodrece. Toalha de sete anos fechada amarela na dobra, o elástico do lençol resseca, o creme separa, o perfume vira álcool, a vela derrete torta no calor de janeiro. No fim, ninguém usou. A visita não usou o bastante pra gastar, e a dona da casa não usou porque não se autorizou, e o objeto morre na prateleira sem ter servido a ninguém.
Fica um resíduo que é difícil de explicar pra quem não sente. É abrir o armário, ver a pilha branca e intacta, sentir orgulho e sentir uma pontada junto, na mesma respiração. O orgulho é de ter uma casa preparada. A pontada é a suspeita de que você preparou a casa pra todo mundo, menos pra pessoa que mora nela.
|
|