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A samambaia que ela trouxe de volta
A carta pra quem sabe o que uma planta quase seca precisa, e não lembra quando bebeu água pela última vez.
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A samambaia de volta no parapeito.
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"Essa aqui ainda tem salvação", disse Denise à vizinha, com a samambaia encostada no peito, na garagem do prédio onde as duas moram, em Sorocaba. A planta tinha sido posta ao lado do lixo pelo pessoal do quarto andar, com as folhas marrons, o vaso rachado e a terra dura feito pedra. A vizinha ergueu os ombros e disse que aquilo já era.
Denise subiu com o vaso, pôs na pia da lavanderia e trabalhou nele até quase meia-noite. Cortou toda a parte seca com a tesoura de unha, uma folha de cada vez, porque a tesoura de jardim que ela tem arrebenta o talo. Tirou a terra velha inteira, misturou uma parte de terra nova com casca de arroz que sobrou do vaso da sala, replantou e regou até a água escorrer pelo furo de baixo.
Depois disso veio a rotina, e a rotina foi precisa. Rega às terças e às sextas, sempre por volta das seis e vinte da manhã, antes do café. Borrifador de água nas folhas todo dia, dois esguichos de cada lado. Três mudanças de lugar até achar a claridade que a planta aceitava, primeiro na janela da cozinha, depois no corredor, por fim no parapeito da lavanderia, onde o sol bate de lado até as dez.
Em seis semanas a samambaia soltou onze folhas novas, aquele verde claro que só folha nova tem. Denise mandou foto pra vizinha, pra irmã e pro grupo do prédio. Doze regas marcadas, quarenta e duas borrifadas, três mudanças de posição, e a conta inteira feita sem preguiça por uma mulher de cinquenta e um anos que trabalha oito horas e ainda cozinha à noite.
No mesmo intervalo de seis semanas, o copo de água que ela enche na pia toda manhã ficou parado até a noite na maioria dos dias, e ela mesma jogou fora a água morna antes de dormir. A consulta com a endocrinologista, marcada e desmarcada, completou oito meses de espera. O almoço virou pão com café em pé na bancada quatro dias de cada cinco.
A samambaia teve horário, calendário e alguém observando a recuperação. A dona da samambaia não teve nenhum dos três.
Vale começar contando as duas regas da casa, a que sai e a que entra.
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I O Padrão
O caderno das duas regas
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O trabalho desta semana é de contagem, dura sete dias e não pede que você mude nada enquanto conta. Mudar durante a medição estraga o dado, e o dado é o que vai doer na hora certa.
Pega um caderno pequeno ou abre uma nota no celular e faz duas listas por dia, sempre à noite, antes de deitar. A primeira lista chama cuidado que saiu: tudo o que você fez hoje pelo bem-estar de outro ser vivo, gente, bicho ou planta. A segunda chama cuidado que entrou: tudo o que você fez hoje pelo seu próprio corpo, e vale só o que teve gesto, não intenção.
TRÊS REGRAS PRA CONTA NÃO MENTIR
A primeira regra é anotar o gesto e o tempo dele, não a categoria. Não escreve "cuidei da casa". Escreve "pus a roupa do meu filho pra secar, doze minutos" e "levei a marmita do meu marido, oito minutos". Categoria esconde volume, gesto cronometrado mostra.
A segunda regra é a mais dura: pensamento não entra na lista de cuidado que entrou. "Pensei em marcar a consulta" fica de fora. "Liguei pra clínica e marquei" entra. Um copo de água bebido entra. Um copo de água enchido e esquecido na bancada não entra, e é aí que a maioria descobre que a lista de dentro está quase vazia.
A terceira regra é registrar quem viu. Ao lado de cada gesto da lista de fora, anota se alguém percebeu e comentou. Ao lado de cada gesto da lista de dentro, a mesma pergunta. O padrão aparece na terceira noite.
A lista de fora tem plateia. A lista de dentro tem só você, e você não estava aplaudindo. |
No sétimo dia, soma o tempo das duas colunas. Denise somou onze horas e quarenta minutos na coluna de fora e vinte e cinco minutos na de dentro, e as duas contas incluíam a samambaia, que saiu com uma hora e dez de cuidado registrado na semana.
Repara numa terceira informação que a contagem entrega de graça: a precisão. Olha como você descreve o cuidado que sai, com horário, quantidade, temperatura, marca do remédio, jeito exato de dobrar a roupa. Agora olha como descreve o que entra. Costuma sair vago, sem hora e sem medida, do tipo "tento comer melhor". A mesma mulher que sabe a hora da rega não sabe a hora da própria refeição, e vale entender por que o cuidado que sai vem com hora marcada e o que entra vem sem medida.
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II A Ferida
Quem cuida ganha o direito de ficar
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Vamos ser honestas?
Cuidar de fora tem resposta imediata. A planta solta folha nova, a criança dorme, o marido acha a camisa passada, a mãe atende o telefone mais leve. Cada gesto volta com um sinal de que você acertou. Cuidar de dentro não devolve nada visível em seis semanas, e um corpo que só recebe cansaço de volta é um investimento sem extrato.
E tem a segunda camada, que é a do pertencimento. Muita mulher aprendeu que a permanência dela num grupo se paga em serviço prestado. Enquanto tem alguém precisando dela, o lugar está garantido. Parar de cuidar assusta porque parece abrir mão da entrada, e ninguém abre mão da entrada por causa de um copo de água.
Quando uma mulher se afasta demais da própria natureza, ela passa a cuidar de tudo, menos daquilo que a mantém viva. Clarissa Pinkola Estés, Mulheres que Correm com os Lobos, 1992 |
Existe ainda um alívio real que a planta oferece, e não vale ridicularizar. A samambaia é um cuidado com fim visível, dentro de casa, sem discussão e sem gratidão devida a ninguém. Denise não precisou pedir licença pra ninguém pra trocar aquela terra. Pra marcar a consulta ela precisaria remarcar o turno, avisar o chefe, encaixar o filho, explicar em casa. Um cuidado custa doze minutos, o outro custa uma negociação.
O custo aparece devagar e sem cena. Água de menos por seis semanas vira dor de cabeça no fim da tarde e cansaço que ela credita ao trabalho. Oito meses sem consulta viram um exame que nunca foi feito. Almoço em pé quatro dias por semana vira azia que ela resolve com antiácido comprado na farmácia da esquina, sem contar pra ninguém.
Nenhuma dessas passagens vira queixa, porque nenhuma dói o bastante sozinha. O corpo pede baixinho, e ela aprendeu cedo a distinguir pedido urgente de pedido baixo, e a atender só o urgente dos outros.
Fica então um arranjo que se sustenta por anos: uma mulher com talento demonstrado pra manter vivo o que está quase seco, aplicando o talento inteiro fora do próprio corpo. Ela sabe a dose, sabe a hora, sabe reconhecer sinal de murcha em dois dias. A competência existe e está provada num vaso na lavanderia. O que falta é a permissão de apontar a mesma competência pra dentro.
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