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Qual é o seu filme favorito?
Não o que a família assiste junto. Não o que você coloca porque agrada todo mundo. O seu.
Se você travou, respira. A pergunta não veio pra te constranger. Veio pra abrir a conversa de hoje.
Porque a gente já falou do corpo que ficou sem cuidado e das amigas que a vida engoliu. E existe um sumiço mais silencioso que esses dois: os seus gostos.
Você sabe o lanche de cada filho, o prato que o marido pede, o bolo que a sua mãe ama. E na sua vez, sai um "tanto faz" no automático.
Tanto faz virou a sua resposta padrão. E hoje a gente vai olhar pro que ela esconde.
I · O PADRÃO
A mulher que come o que sobrou
Repara nos detalhes, porque é neles que o padrão mora.
Você monta o próprio prato por último, com o que restou na travessa. A playlist do carro é dos outros. O passeio do fim de semana é votado por todo mundo, menos por você, que "vai na maioria".
Quando alguém pergunta o que você quer de aniversário, você responde "não precisa de nada". Não por humildade. Porque procurou a resposta dentro e não achou.
E se uma amiga insiste, "mas o que VOCÊ prefere?", vem um desconforto estranho, quase uma irritação. Como se preferir fosse uma prova pra qual você não estudou.
Tem um teste ainda mais fino. Quando você finalmente fica sozinha em casa, uma tarde inteira sua, o que acontece? Você trava. Anda pela casa sem saber o que fazer com a liberdade, e termina adiantando tarefa dos outros. O tempo livre virou um idioma que você não fala mais.
Não foi sempre assim. Teve uma época em que você tinha banda favorita, cor de esmalte certa, pedido decorado na lanchonete. Aquela menina sabia do que gostava sem pensar duas vezes.
Ela não sumiu de um dia pro outro. Foi desbotando, um "tanto faz" de cada vez.
II · A FERIDA
O gosto que foi embora de tanto se adaptar
Vamos ser honestas?
O "tanto faz" não é preguiça de decidir. É o resultado de anos se moldando pra caber na necessidade dos outros.
Em algum momento, você aprendeu que ter preferência dava trabalho. Que pedir diferente atrapalhava. Que a filha boa, a esposa tranquila, a mãe dedicada era a que se adaptava sem reclamar. Cada vez que você engoliu uma vontade pra facilitar a vida de alguém, o músculo de preferir atrofiou um pouco.
Talvez na sua casa a vontade de alguém ocupava o ambiente inteiro, e a paz dependia de você não ter nenhuma. Talvez o dinheiro fosse curto e desejar já parecesse abuso. Você aprendeu cedo a desejar baixinho, depois a não desejar.
E tem uma camada mais funda: preferir revela. Quem diz "eu gosto disto aqui" se expõe, pode ser julgada, pode dar despesa, pode decepcionar. O "tanto faz" é um esconderijo. Ninguém critica o gosto de quem não mostra gosto nenhum.
Só que o preço é alto demais: a mulher que nunca aparece nas próprias escolhas vai desaparecendo delas também.
Isso não é fraqueza. É ferida. A ferida de quem aprendeu que ocupar espaço custava amor, e resolveu ocupar o mínimo possível.
O "tanto faz" não nasceu de você não ter vontade. Nasceu de você aprender que a sua vontade pesava. |
III · O RESGATE
Reaprender o próprio paladar
A boa notícia: gosto não morre. Fica soterrado.
E ele não volta com uma decisão grandiosa. Volta com escolhas do tamanho de um gole.
Essa semana, uma vez por dia, faz a pergunta proibida: "o que EU quero agora?". E responde de verdade, mesmo que seja pequeno. O pão que VOCÊ gosta na padaria. A música que VOCÊ quer no carro, com todo mundo dentro. O primeiro prato da travessa, não o que sobrou.
Vai parecer bobagem. Não é. Cada escolha pequena é um recado que você manda pra si mesma: "a minha vontade existe e tem lugar".
E repara que ninguém precisa aplaudir. O resgate do gosto não é um anúncio pra família, é uma conversa sua com você. Escolher em silêncio já conta. Provar de novo um sabor que você abandonou já conta. Ficar dois minutos a mais na loja olhando o que TE chamou já conta.
E quando vier a culpa, porque ela vem, repara no tamanho do que você está fazendo: você escolheu um pão. Ninguém foi ferido. A culpa que grita por causa de um pão não está falando do pão. Está defendendo a regra antiga de que a sua vez é sempre a última.
Duas coisas vão acontecer no caminho. Primeira: você vai errar. Vai escolher o filme e achar ruim, pedir o prato e não gostar. Ótimo. Errar o próprio gosto também é conhecê-lo. Segunda: alguém pode estranhar. "Desde quando você liga pra essas coisas?" Desde sempre. Só estava guardado.
Aos poucos, as respostas voltam. A cor favorita. O cheiro que acalma. O canto da casa que é seu. E com elas volta uma mulher que os outros conhecem pouco, mas que você conhecia bem.
Ela sempre soube do que gostava.
Ela só estava esperando você perguntar.
Preferir é um jeito de existir. Começa escolhendo a próxima música.
Com ternura, Resgate do Feminino
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