|
|
|
1 leitor escolheu O vermelho que ela aposentou. Sai em 29/09.
|
A massagem remarcada duas vezes
A carta pra quem marca o próprio cuidado e desmarca na véspera pra caber a agenda da casa.
|
Um calendário, sete borrões, uma caneta.
|
| ▼ |
|
Na recepção da clínica Mãos de Lavanda, na Rua Mármore, em Santa Tereza, Belo Horizonte, a recepcionista Jussara disse ao telefone: "É a terceira vez que eu escrevo seu nome a lápis, dona Luciana". Na cozinha de casa, com o telefone preso no ombro, Luciana riu, pediu desculpa e perguntou se havia vaga na quarta seguinte.
Era uma segunda-feira, oito e quarenta da noite. A sessão estava marcada pra terça, às quatro da tarde: cinquenta minutos de massagem relaxante, a primeira da vida dela. O vale-presente tinha chegado em julho, no aniversário de quarenta e quatro anos, dado pela irmã caçula, Débora, com um bilhete preso no envelope: "pra você usar em você".
O vale custou duzentos e dez reais e vencia no último dia de outubro. Luciana guardou o envelope na gaveta dos talheres, porque ali não se perde. Marcou a primeira data em agosto, para uma quinta. Desmarcou na quarta à noite: o filho, Caio, de doze anos, tinha treino extra de futsal, e o marido, Rogério, ficaria preso numa reunião em Contagem.
A segunda data foi a terça que ela acabava de desmarcar. O motivo agora era a filha, Bia, de quinze anos, cujo ortodontista tinha trocado a manutenção do aparelho pra terça às quatro e meia. Só Luciana dirige na casa durante a tarde.
Ninguém pediu que ela desmarcasse. Rogério soube da massagem só depois, e disse que ela podia ter falado com ele. Bia não sabia. Caio não sabia. A decisão foi dela, tomada em menos de um minuto, entre lavar a panela do arroz e conferir a mochila do filho.
Na geladeira da família há um calendário de papel com uma cor por pessoa: azul pro Rogério, verde pro Caio, laranja pra Bia. Luciana escreve com lápis preto, e o lápis dela é o único que tem borracha na ponta.
A primeira parte abre esse calendário e conta quantos compromissos de Luciana foram apagados por ali em três meses.
Continue lendo ↓
|
|
I O Padrão
Três meses a lápis
|
|
Luciana Prado Guimarães, professora de geografia numa escola estadual do bairro Floresta, montou o calendário da geladeira em 2021, quando Bia entrou no sexto ano. A ideia era evitar que duas pessoas precisassem do carro na mesma hora. Funcionou: a família não perdeu nenhum treino, nenhuma consulta, nenhuma reunião de pais desde então.
Depois da ligação com Jussara, ela tirou da gaveta as folhas de julho, agosto e setembro, que guarda presas por um clipe, e contou as marcas de borracha. Contou compromissos só dela: a massagem, uma aula experimental de cerâmica, um café com a amiga Neide, uma consulta de rotina na ginecologista.
SETE MARCAS DE BORRACHA
Foram sete compromissos dela em três meses. Seis viraram borrão cinza no papel e foram remarcados ou cancelados. O único que aconteceu foi a consulta na ginecologista, porque caiu numa manhã em que ninguém mais tinha nada.
Nas cores dos outros, a conta saiu diferente. Rogério teve dezenove compromissos no período e remarcou dois, os dois por pedido do chefe. Caio e Bia, juntos, somaram trinta e um, e nenhum foi mexido. A caneta colorida não apaga, e a agenda dos três ficou do jeito que nasceu.
Sete marcas de borracha no preto, nenhuma no azul, no verde ou no laranja. |
O lápis foi escolha dela, e ela lembra de ter pensado nele como gentileza. O compromisso de Luciana era o único que podia sair do lugar sem prejudicar ninguém, então nasceu apagável. Quando surgia um conflito, a solução já estava na ponta do lápis.
A remarcação também tinha um roteiro fixo. Ela ligava pro lugar, pedia desculpa duas vezes, dizia que tinha surgido um imprevisto e aceitava a primeira data livre. Nunca explicou qual era o imprevisto, e ninguém em casa perguntou por que a massagem da mãe tinha mudado de dia. Não havia pergunta, porque ninguém sabia que havia massagem.
No trabalho, Luciana segue outra lei. O diário de classe da escola é preenchido a caneta, e o horário das provas bimestrais é fixo: pai que pede pra trocar a data ouve, com educação, que a prova já está marcada. Ela defende o calendário dos alunos com a firmeza que não usa no dela.
|
|
II A Ferida
O ombro que esperou
|
|
A massagem tinha um motivo além do presente. Desde maio, Luciana sente uma dor que começa no ombro direito e sobe pela nuca, pior nos dias de corrigir prova. Ela dá cinco turmas de quarenta alunos e passa as noites de domingo curvada sobre a mesa da cozinha, com a caneta vermelha na mão.
Débora sabia da dor. Foi por causa dela que escolheu a massagem. Em setembro, a irmã mandou mensagem perguntando como tinha sido a sessão. Luciana respondeu com um emoji de risada e a frase "ainda não deu".
O PREÇO DO CANCELAMENTO NA VÉSPERA
A primeira conta é de corpo. A dor que a massagem ia tratar em agosto continuou lá em setembro, e foi piorando nas semanas de fechamento de notas. Luciana passou a dormir com uma bolsa de água quente no ombro e a tomar analgésico nas noites de domingo.
A segunda conta é de dinheiro. O vale vencia em outubro, e a clínica não devolve o valor. Cada remarcação empurrava a sessão pra mais perto do prazo, e a terceira data possível já caía na última semana de validade. Os duzentos e dez reais da irmã estavam a uma colisão de virar papel.
A terceira conta é invisível e tem a ver com quem fica sabendo. Como ela desmarcava sem contar a ninguém, a família nunca teve chance de se reorganizar. Rogério podia ter saído mais cedo numa terça. Bia podia ter ido ao ortodontista de ônibus com uma amiga, trajeto que faz sozinha todo sábado pro curso de inglês.
A mulher precisa amadurecer sozinha. Precisa encontrar sozinha o seu verdadeiro centro. Anne Morrow Lindbergh, Presente do mar, 1955 |
Lindbergh escreveu o livro numa casa de praia, em duas semanas longe dos cinco filhos, e contou ali como a vida de mãe e esposa se espalhava em pedaços pequenos entregues a todo mundo. Luciana não precisava de duas semanas. Precisava de cinquenta minutos que não fossem apagáveis.
Quando ela contou a Rogério sobre a terceira data, ele perguntou por que ela não tinha pedido ajuda nas duas primeiras. Luciana não soube responder na hora. Depois, lavando a louça, achou a resposta: pedir ajuda exigia dizer que a massagem era importante, e ela ainda não tinha dito a frase nem pra si mesma.
| |