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A data que o corpo lembra antes de você
A carta pra quem segurou tudo de pé no dia mais duro da família, e encontra no calendário a data que o corpo repete sozinho todo ano.
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O dedo para na data sem querer.
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São nove e dez da noite de uma terça e o copo continua na pia, do lado da esponja, a dois centímetros de dentro da máquina. Você olha o copo e sente subir uma raiva grande demais pro tamanho do copo.
A frase sai antes de você escolher a frase. Seu filho responde qualquer coisa do quarto, você bate a porta do armário mais forte do que precisava, e cinco minutos depois está sentada na beirada da cama sem reconhecer a mulher que acabou de falar daquele jeito.
Faz onze dias que você dorme mal. Não é noite virada, é acordar às três e vinte, olhar o teto e voltar num sono fino que não descansa. O ombro direito travou no sábado. Você cancelou o café de domingo dizendo que estava cansada, e não era mentira.
Você já explicou tudo pra si mesma várias vezes. Trabalho puxado, hormônio, idade, falta de exercício. No fim sempre sobra a explicação preferida: drama seu, porque nada de grave aconteceu nesse mês, nada mesmo.
Na manhã seguinte você abre o calendário do celular pra marcar o dentista. O dedo rola até setembro e para sozinho numa quinta-feira comum, dia 23. Você fica olhando o número por mais tempo do que um número comum precisa.
Três anos atrás, nesse mesmo 23 de setembro, você escolheu a roupa, recebeu as pessoas na porta, agradeceu as flores, respondeu quarenta vezes que estava bem, resolveu o papel do cartório e voltou pro trabalho na segunda seguinte.
O seu corpo abriu a agenda antes de você. Ele não lê o número do dia, mas reconhece a luz das seis da tarde em setembro, o cheiro de terra molhada e o jeito que a casa fica quando escurece mais cedo.
A carta de hoje não é sobre a perda em si. É sobre a conta que chega todo ano na mesma semana pra quem segurou tudo de pé e nunca teve uma hora livre pra sentar com o que aconteceu.
Antes de qualquer outra coisa, vale olhar as últimas quatro semanas do seu humor com a mesma frieza com que você olharia um extrato do banco.
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I O Padrão
Onze dias de pavio curto
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Abre o calendário do mês e volta quatro semanas. Marca com um traço os dias em que você foi dura com alguém que não merecia. Não julga nenhum ainda, só marca.
Repara se os traços estão espalhados ou em bloco. Irritação de vida corrida cai espalhada, uma numa segunda, outra na sexta seguinte. Irritação de data vem grudada num pedaço só do mês, começa sem aviso e passa sem ninguém consertar nada.
Repara na hora em que você acorda de madrugada dentro desse bloco. Costuma ser sempre a mesma hora, com precisão de despertador, e ela quase não aparece nas outras semanas do ano.
Repara no corpo por partes. O ombro, a mandíbula travada quando você acorda, a garganta apertada no fim da tarde, a dor de cabeça que chega às quatro, o intestino que muda sem você ter mudado nada na comida.
Repara nas coisas que você cancelou nas últimas duas semanas. O aniversário da colega, o almoço de domingo, a consulta que você mesma marcou. Cancelar tudo de uma vez raramente é preguiça, costuma ser corpo economizando energia pra alguma coisa.
Repara na taça a mais depois do jantar, no doce comido em pé na frente da geladeira, na série que fica rodando até uma da manhã sem você prestar atenção. São formas educadas de não ficar sozinha com você mesma.
O corpo cobra na mesma semana todo ano, e a agenda continua tratando essa semana como uma semana igual às outras. |
Repara nas frases que você usa pra explicar o seu humor pra quem pergunta. Estresse. TPM. Idade. Cansaço. Drama meu. Nenhuma delas tem data marcada, e o seu humor tem.
Agora abre a galeria do celular e vai pra mesma faixa de dias nos anos anteriores. Vê quantas fotos existem em cada uma. Corpo recolhido fotografa pouco, e o vazio na galeria é um dado tão bom quanto qualquer lembrança.
Procura a data exata em algum lugar que não seja a sua memória. Um email de setembro, um documento no drive, a última mensagem que ela te mandou, a foto que acabou sendo a última. A memória arredonda a data, o arquivo não.
Escreve num papel essa data e, embaixo dela, o que você fez nas setenta e duas horas seguintes. Se a lista tem tarefa, telefonema e cartório, e não tem uma linha de choro, você não estava de luto naquela semana. Você estava de plantão.
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II A Ferida
Luto vivido e luto adiado
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Vamos ser honestas?
Existem dois lutos, e eles não se parecem nem um pouco por dentro.
O primeiro é o que atravessa. Ele chega desorganizado, toma a casa por semanas, atrapalha o trabalho e a comida, e vai baixando sozinho. Custa caro na hora e cobra pouco depois.
O segundo é o adiado. Alguém precisa receber as pessoas na porta, escolher a roupa, ligar pra tia que mora longe, assinar o que precisa de assinatura e segurar a mão de quem está caindo. Enquanto existe tarefa na frente, não existe brecha.
A diferença entre os dois não está no tamanho do amor. Está em quem tinha permissão pra desabar naquele dia. Numa família a permissão é distribuída em silêncio, e quase nunca sobra pra mulher que está de pé na porta recebendo gente.
Repara na palavra que você usa quando conta aquele dia. Você diz que segurou. Segurou a sua mãe, segurou o seu irmão, segurou a papelada, segurou o velório inteiro. Ninguém escolhe o verbo segurar pra descrever uma coisa leve.
Repara no elogio que veio depois. Que você é forte. Que você é a coluna da família. Que sem você nada teria acontecido direito. O elogio é verdadeiro e é caro: ele confirma que o seu lugar naquele dia era o de quem trabalha.
O luto chega em ondas, paroxismos, apreensões súbitas que enfraquecem os joelhos e cegam os olhos e apagam o cotidiano da vida. Joan Didion, O Ano do Pensamento Mágico, 2005 |
A frase costuma ser lida como literatura. Na sua cozinha ela funciona como previsão do tempo: a onda vem de qualquer jeito, e quando ela não veio na época certa, ela volta marcando hora.
O corpo guarda o dia junto com o resto da cena. A temperatura, a luz da tarde, o cheiro do corredor do hospital, a música que tocava no carro na ida. Quando o ano devolve a mesma combinação, o estado chega antes da lembrança, e chega sem legenda nenhuma.
É a falta de legenda que faz a semana parecer sem motivo. Você recebe o peso e não recebe o nome junto, então procura um culpado do tamanho errado: o copo na pia, o volume da televisão, a pergunta repetida ao telefone.
E tem a parte mais funda. Você não deixou de sentir naquele dia. Você ficou sem hora pra sentir. Sentimento não evapora por falta de agenda, ele fica esperando na fila, e cobra a espera inteira na mesma semana todo ano.
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