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Resgate do Feminino   Resgate do Feminino
ED 104

A colher que ela pede emprestada

A carta pra quem pede só uma colher da sobremesa alheia porque a taça inteira, pedida em voz alta, parece exagero.

Mulher alcançando com a colher a taça de sobremesa que está no lugar de outra pessoa, com o próprio lugar vazio

Ela raspando a taça que está no lugar do marido.

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"Eu como só uma colher da sua, não precisa pedir outra", disse Rosana ao marido, na mesa do fundo de uma pizzaria em Maringá, quando o garçom veio perguntar se ela queria sobremesa.

O garçom anotou uma taça de mousse. Veio uma. Ela ficou no lugar dele. Rosana esticou o braço quatro vezes ao longo da conversa, cada vez raspando um pouco mais fundo, e o marido empurrou a taça pro meio da mesa por educação, sem entender direito o que estava acontecendo.

No fim, ela tinha comido perto de metade. O marido comeu a outra metade meio apressado, do jeito de quem percebe que a porção encolheu e não sabe se pode reclamar. Ninguém falou nada. A conta veio com uma sobremesa só.

Rosana faz o mesmo movimento há uns quatorze anos. Não é falta de dinheiro: eles jantam fora duas vezes por mês e a taça custa dezoito reais. Não é falta de vontade: ela pensa na mousse desde que o cardápio chegou à mesa e chega a virar a página da sobremesa duas vezes durante o jantar.

O que trava está no tamanho do pedido. Uma taça inteira, pedida em voz alta, com o garçom parado esperando, soa como querer demais. Uma colher da taça alheia soa razoável, discreta, sem incomodar ninguém. Então ela pede a versão pequena de um desejo que é do tamanho inteiro, e come a metade escondida dentro da porção de outra pessoa.

O nome que ela dá pro movimento é sempre o mesmo em casa: "eu não estava com fome". Ela repete a frase com naturalidade, e quem está na mesa acredita, porque a frase é curta e não pede investigação.

Repare que ninguém negou nada a ela. O garçom teria trazido a segunda taça. O marido teria pedido a segunda taça sem pestanejar. O corte aconteceu antes, na cabeça dela, entre querer e falar, num espaço de dois segundos que ninguém na mesa consegue ver.

Vale medir esse espaço de dois segundos durante uma semana, com papel e caneta, para ver o tamanho que ele tem.

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I  O Padrão

Sete dias medindo o tamanho do que você pede

O trabalho de hoje dura sete dias e ocupa três minutos por noite. Precisa de um caderno pequeno, daqueles de bolsa, ou das notas do celular. No alto da primeira página escreve a palavra PEDIDOS e a data de hoje.

Toda noite, antes de dormir, você anota as vezes do dia em que quis alguma coisa concreta e disse alguma coisa menor. Só o concreto entra: comida, bebida, um dia de folga, um pedaço de tempo sozinha, o banho demorado, o assento da janela, o cobertor inteiro na sua metade da cama.

DUAS COLUNAS E UM CARIMBO

A primeira coluna é o que você quis de verdade, na primeira versão, aquela que apareceu na sua cabeça antes de qualquer cálculo. Escreve com o número junto. Não "descansar", mas "duas horas de sábado sem ninguém me chamar". Não "sobremesa", mas "a taça inteira do mousse".

A segunda coluna é o que saiu da sua boca. Escreve palavra por palavra, sem melhorar e sem explicar. "Só uma colher da sua." "Se sobrar tempo eu vejo." "Pode ser depois, não tem pressa." "Deixa, eu fico com o pedaço menor." Frases que você já disse hoje e que já esqueceu, porque saem sem esforço.

O carimbo vem depois das duas colunas. Ao lado de cada linha, escreve quem disse não. Na maior parte das linhas não vai haver ninguém pra escrever, porque ninguém foi consultado. O espaço em branco nessa terceira coluna é o número mais importante da página.

O pedido não encolheu na hora da resposta. Encolheu no caminho entre o querer e a boca, e quem cortou estava do lado de dentro.

Rosana fez o registro numa semana comum de agosto. Vinte e duas linhas em sete dias, uma média de três por dia. Na terceira coluna, uma pessoa apenas, uma vez: a chefe, que negou a folga de sexta por causa do fechamento do mês. Vinte e uma linhas em branco.

Repara ainda numa quarta informação que a página entrega sozinha, sem você procurar: o tamanho médio do corte. Rosana pediu perto de metade do que queria em quase todas as linhas. Metade da porção, metade das horas, metade do que caberia. O corte dela tinha um tamanho fixo, quase um hábito de medida.

Guarda o caderno. A leitura que ele pede não trata de gente egoísta em volta da mesa. Trata do lugar exato onde o seu desejo é revisado, e de quem faz essa revisão todos os dias sem ser pago pra ela.

 
 

II  A Ferida

O desejo que ela serve em porção emprestada

Vamos ser honestas?

Pedir metade tem uma vantagem imediata e real. Metade quase nunca é negada. Quem pede uma colher da sobremesa alheia não corre o risco de ouvir um não, não atrasa a conta, não faz o garçom voltar à cozinha, não obriga ninguém a esperar. A porção pequena é segura porque ela é aceitável de saída.

E existe uma segunda vantagem, mais silenciosa: a mulher que pede pouco nunca precisa descobrir o quanto ela vale pra quem está na mesa. Enquanto o pedido for do tamanho de uma colher, a resposta não informa nada. Um sim a uma colher é barato. Um sim a uma taça inteira, pedida com o garçom parado ali, custaria alguma coisa pra outra pessoa, e é justamente esse preço que ela evita descobrir.

Não se nasce mulher: torna-se mulher.

Simone de Beauvoir, O Segundo Sexo, 1949

A conta que ela faz na cabeça tem uma lógica antiga. Menina que pede pouco é elogiada de comportada. Menina que pede a porção inteira ouve que é exagerada, gulosa, folgada, e ouve na frente dos outros, o que dói mais do que ouvir sozinha. A palavra exagero encosta cedo e não desencosta. Anos depois, adulta, com dinheiro no próprio cartão, ela ainda mede a mousse pela palavra que ouviu aos sete anos.

O estrago não está na sobremesa. Está no treino. Um desejo cortado pela metade três vezes por dia, durante quatorze anos, deixa de aparecer no tamanho verdadeiro. Ela começa a querer pela metade de origem, já encolhido na largada, e depois se pergunta com sinceridade por que anda sem vontade de nada.

Tem ainda um efeito colateral que quase ninguém liga ao pedido pequeno: a irritação de fim de noite. A mulher come metade da mousse alheia, dorme com uma sensação vaga de estar devendo alguma coisa a si mesma, e acorda mais dura com quem mora na casa. O marido não faz ideia do que aconteceu, porque na versão dele a esposa não estava com fome e comeu um pouco da sobremesa dele.

Repara no arranjo estranho de olhar de perto. Uma mulher que sabe exatamente o que quer, com precisão de cardápio, capaz de descrever a mousse antes de ela chegar. A clareza está provada vinte e duas vezes na primeira coluna do caderno. O que falta é a passagem entre a primeira coluna e a segunda.

 
 
 

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III  O Resgate

A taça inteira pedida em voz alta

O exercício desta semana não pede que você peça tudo o que quiser, nem que discuta com alguém. Pede duas mudanças pequenas, as duas mensuráveis, e as duas cabem dentro da sua rotina normal.

A primeira mudança é dizer a primeira coluna em voz alta, sem revisar. Três vezes nos próximos sete dias, você pede o que quis na versão original, com o número junto. "Eu quero uma taça de mousse pra mim." "Vou querer duas horas do sábado de manhã sozinha em casa." "Quero o assento da janela na volta." Frase curta, no presente, sem "se der", sem "se você não se importar", sem rir no final pra aliviar o peso.

O tom importa mais do que as palavras. Pedido dito como informação chega como informação. Pedido dito como desculpa chega como negociação aberta, e aí a conversa vira sobre o tamanho do que você merece, terreno onde você já perdeu quatorze anos de discussões.

A segunda mudança é aguentar os três segundos seguintes sem preencher. Depois de pedir a taça inteira, vem um silêncio curto na mesa, e o corpo pede pra você amaciar o pedido com uma piada ou com um "mas se for complicado, deixa". Fica quieta e conta até três. A frase que você não disser nesses três segundos é exatamente a que anularia o pedido.

Você já sabe com precisão de cardápio o que quer. Falta pedir no tamanho em que quer, com o garçom parado ali.

Prepara-se pra uma reação estranha em casa, porque ela costuma vir. Alguém vai dizer "nossa, hoje você pediu a sua". Responde curto, sem abrir debate: "pedi porque eu queria." Frase de informação, dita com naturalidade, sem justificativa longa, porque justificativa longa convida negociação e não existe nada a negociar sobre uma sobremesa de dezoito reais.

Prepara-se também pra um desconforto físico na primeira vez, que é normal e passa. A taça inteira na sua frente, só sua, sem dividir, costuma dar uma sensação de excesso nos primeiros minutos. Rosana comeu a primeira devagar, com a mão um pouco travada, e no meio dela riu sozinha de uma coisa que não sabia explicar.

Teste nos próximos sete dias, com o caderno aberto na mesa de cabeceira: peça três vezes o que apareceu na primeira coluna, no tamanho original, e anote em cada uma delas a resposta que chegou, escrita em uma linha. No fim da semana, conte quantos desses três pedidos foram atendidos. O resultado esperado é dois ou três atendidos, e o número que sobrar em branco na coluna de quem disse não vai te mostrar quantos anos você passou negociando sozinha com uma pessoa que nunca esteve na mesa.

"Quanto do que você quer some no caminho entre a sua cabeça e a sua boca?"

 
 

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Segundo a carta, o que a segunda coluna do registro de sete dias anota?

AO que ela quis de verdade, na primeira versão que apareceu na cabeça
BO que saiu da boca dela, palavra por palavra, sem melhorar
CQuem disse não pra cada pedido
DO valor gasto em cada jantar fora

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