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A colher que ela pede emprestada
A carta pra quem pede só uma colher da sobremesa alheia porque a taça inteira, pedida em voz alta, parece exagero.
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Ela raspando a taça que está no lugar do marido.
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"Eu como só uma colher da sua, não precisa pedir outra", disse Rosana ao marido, na mesa do fundo de uma pizzaria em Maringá, quando o garçom veio perguntar se ela queria sobremesa.
O garçom anotou uma taça de mousse. Veio uma. Ela ficou no lugar dele. Rosana esticou o braço quatro vezes ao longo da conversa, cada vez raspando um pouco mais fundo, e o marido empurrou a taça pro meio da mesa por educação, sem entender direito o que estava acontecendo.
No fim, ela tinha comido perto de metade. O marido comeu a outra metade meio apressado, do jeito de quem percebe que a porção encolheu e não sabe se pode reclamar. Ninguém falou nada. A conta veio com uma sobremesa só.
Rosana faz o mesmo movimento há uns quatorze anos. Não é falta de dinheiro: eles jantam fora duas vezes por mês e a taça custa dezoito reais. Não é falta de vontade: ela pensa na mousse desde que o cardápio chegou à mesa e chega a virar a página da sobremesa duas vezes durante o jantar.
O que trava está no tamanho do pedido. Uma taça inteira, pedida em voz alta, com o garçom parado esperando, soa como querer demais. Uma colher da taça alheia soa razoável, discreta, sem incomodar ninguém. Então ela pede a versão pequena de um desejo que é do tamanho inteiro, e come a metade escondida dentro da porção de outra pessoa.
O nome que ela dá pro movimento é sempre o mesmo em casa: "eu não estava com fome". Ela repete a frase com naturalidade, e quem está na mesa acredita, porque a frase é curta e não pede investigação.
Repare que ninguém negou nada a ela. O garçom teria trazido a segunda taça. O marido teria pedido a segunda taça sem pestanejar. O corte aconteceu antes, na cabeça dela, entre querer e falar, num espaço de dois segundos que ninguém na mesa consegue ver.
Vale medir esse espaço de dois segundos durante uma semana, com papel e caneta, para ver o tamanho que ele tem.
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I O Padrão
Sete dias medindo o tamanho do que você pede
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O trabalho de hoje dura sete dias e ocupa três minutos por noite. Precisa de um caderno pequeno, daqueles de bolsa, ou das notas do celular. No alto da primeira página escreve a palavra PEDIDOS e a data de hoje.
Toda noite, antes de dormir, você anota as vezes do dia em que quis alguma coisa concreta e disse alguma coisa menor. Só o concreto entra: comida, bebida, um dia de folga, um pedaço de tempo sozinha, o banho demorado, o assento da janela, o cobertor inteiro na sua metade da cama.
DUAS COLUNAS E UM CARIMBO
A primeira coluna é o que você quis de verdade, na primeira versão, aquela que apareceu na sua cabeça antes de qualquer cálculo. Escreve com o número junto. Não "descansar", mas "duas horas de sábado sem ninguém me chamar". Não "sobremesa", mas "a taça inteira do mousse".
A segunda coluna é o que saiu da sua boca. Escreve palavra por palavra, sem melhorar e sem explicar. "Só uma colher da sua." "Se sobrar tempo eu vejo." "Pode ser depois, não tem pressa." "Deixa, eu fico com o pedaço menor." Frases que você já disse hoje e que já esqueceu, porque saem sem esforço.
O carimbo vem depois das duas colunas. Ao lado de cada linha, escreve quem disse não. Na maior parte das linhas não vai haver ninguém pra escrever, porque ninguém foi consultado. O espaço em branco nessa terceira coluna é o número mais importante da página.
O pedido não encolheu na hora da resposta. Encolheu no caminho entre o querer e a boca, e quem cortou estava do lado de dentro. |
Rosana fez o registro numa semana comum de agosto. Vinte e duas linhas em sete dias, uma média de três por dia. Na terceira coluna, uma pessoa apenas, uma vez: a chefe, que negou a folga de sexta por causa do fechamento do mês. Vinte e uma linhas em branco.
Repara ainda numa quarta informação que a página entrega sozinha, sem você procurar: o tamanho médio do corte. Rosana pediu perto de metade do que queria em quase todas as linhas. Metade da porção, metade das horas, metade do que caberia. O corte dela tinha um tamanho fixo, quase um hábito de medida.
Guarda o caderno. A leitura que ele pede não trata de gente egoísta em volta da mesa. Trata do lugar exato onde o seu desejo é revisado, e de quem faz essa revisão todos os dias sem ser pago pra ela.
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II A Ferida
O desejo que ela serve em porção emprestada
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Vamos ser honestas?
Pedir metade tem uma vantagem imediata e real. Metade quase nunca é negada. Quem pede uma colher da sobremesa alheia não corre o risco de ouvir um não, não atrasa a conta, não faz o garçom voltar à cozinha, não obriga ninguém a esperar. A porção pequena é segura porque ela é aceitável de saída.
E existe uma segunda vantagem, mais silenciosa: a mulher que pede pouco nunca precisa descobrir o quanto ela vale pra quem está na mesa. Enquanto o pedido for do tamanho de uma colher, a resposta não informa nada. Um sim a uma colher é barato. Um sim a uma taça inteira, pedida com o garçom parado ali, custaria alguma coisa pra outra pessoa, e é justamente esse preço que ela evita descobrir.
Não se nasce mulher: torna-se mulher. Simone de Beauvoir, O Segundo Sexo, 1949 |
A conta que ela faz na cabeça tem uma lógica antiga. Menina que pede pouco é elogiada de comportada. Menina que pede a porção inteira ouve que é exagerada, gulosa, folgada, e ouve na frente dos outros, o que dói mais do que ouvir sozinha. A palavra exagero encosta cedo e não desencosta. Anos depois, adulta, com dinheiro no próprio cartão, ela ainda mede a mousse pela palavra que ouviu aos sete anos.
O estrago não está na sobremesa. Está no treino. Um desejo cortado pela metade três vezes por dia, durante quatorze anos, deixa de aparecer no tamanho verdadeiro. Ela começa a querer pela metade de origem, já encolhido na largada, e depois se pergunta com sinceridade por que anda sem vontade de nada.
Tem ainda um efeito colateral que quase ninguém liga ao pedido pequeno: a irritação de fim de noite. A mulher come metade da mousse alheia, dorme com uma sensação vaga de estar devendo alguma coisa a si mesma, e acorda mais dura com quem mora na casa. O marido não faz ideia do que aconteceu, porque na versão dele a esposa não estava com fome e comeu um pouco da sobremesa dele.
Repara no arranjo estranho de olhar de perto. Uma mulher que sabe exatamente o que quer, com precisão de cardápio, capaz de descrever a mousse antes de ela chegar. A clareza está provada vinte e duas vezes na primeira coluna do caderno. O que falta é a passagem entre a primeira coluna e a segunda.
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