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A cidade que ela ainda chama de casa
A carta pra quem mudou pela carreira dele e deixou a raiz no caminhão da mudança.
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Uma caixa de mudança que ninguém abriu.
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Na calçada do prédio da Rua Moysés Marcondes, no Juvevê, em Curitiba, numa manhã de março de 2023, Marcelo Kremer viu o caminhão da mudança fechar a porta e disse à mulher: "São dois anos, Lu, depois a gente vê". Luciana Bertoldi Kremer fez que sim com a cabeça e segurou a mão da filha, Helena, então com quatro anos.
Marcelo, engenheiro agrônomo, tinha sido promovido a gerente regional de uma cooperativa de grãos. O escritório novo ficava em Goiânia, a mil e duzentos quilômetros dali. O salário subia, o carro vinha da empresa e o aluguel do primeiro ano também. Para a cooperativa, a família toda cabia numa linha do contrato, sob o título de ajuda de mudança.
Luciana era fonoaudióloga e atendia crianças com atraso de fala num consultório dividido com duas colegas, no Alto da Glória. Tinha onze anos de agenda montada, uma fila de espera de três meses e um coral de bairro que ensaiava às quintas.
Ela encerrou a agenda em seis semanas. Mandou carta para cada família, indicou colegas, vendeu a cadeira do consultório para a sócia mais nova. A decisão da mudança levou uma conversa de jantar. A desmontagem da vida dela levou um mês e meio.
Os dois anos viraram três. Marcelo foi efetivado no cargo em 2025 e hoje fala do Setor Bueno, em Goiânia, como quem nasceu lá. Helena tem sotaque goiano e torce para o Vila Nova.
Luciana ainda diz "lá em casa" quando fala de Curitiba. O aplicativo do tempo no celular dela abre primeiro na previsão do Juvevê. O casaco de lã que usava em julho continua dobrado numa caixa que nunca foi aberta, em cima do guarda-roupa.
Quem reparou foi uma vizinha de andar, numa tarde de setembro, e a pergunta dela levou Luciana a contar quantas partes da própria vida ainda moravam no Paraná.
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I O Padrão
O casaco que nunca saiu da caixa
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A vizinha se chama Patrícia Mendonça, é goiana de Inhumas e mora no apartamento da frente há dois anos. As duas se encontraram no elevador, Luciana com uma sacola de pinhão comprada numa feira de produtos do Sul, e Patrícia perguntou quando ela ia voltar para casa.
Luciana respondeu que em dezembro, para o Natal. Patrícia riu e disse que estava falando da casa dela, do apartamento do sétimo andar. Luciana demorou a entender a confusão, e a vizinha completou: "Você sempre chama Curitiba de casa".
Naquela noite, depois de Helena dormir, Luciana pegou um caderno e fez uma lista de onde estava cada parte da vida dela. Escreveu em duas colunas, Curitiba e Goiânia, e foi preenchendo sem pensar muito.
O registro profissional continuava no conselho regional de fonoaudiologia que atende o Paraná. A conta do banco tinha agência no Juvevê. O título de eleitor votava em Curitiba, e ela viajava para votar. A ginecologista era a mesma de antes, consultada por vídeo.
O QUE FICOU EMBALADO
Na coluna de Goiânia, havia a escola de Helena, o supermercado, a academia do condomínio e o trabalho de Marcelo. Nenhuma linha era só dela. A cidade nova tinha entrado na vida da família pela agenda dos outros.
Ela também contou o trabalho. Em três anos, tinha atendido por vídeo quatro famílias antigas de Curitiba, duas horas por semana. Em Goiânia, não tinha aberto agenda, não tinha procurado consultório e não conhecia nenhum fonoaudiólogo da cidade pelo nome.
A promoção veio com endereço novo para ele e com mala sem desfazer para ela. |
Marcelo não tinha pedido que ela ficasse parada. Quando Luciana mostrou o caderno, ele disse que achava que ela gostava de atender de longe, porque nunca tinha reclamado. Ele tinha razão sobre a reclamação: ela não tinha falado nada.
O casaco na caixa era a peça mais clara da lista. Goiânia não pede lã em julho. Luciana sabia disso desde o primeiro inverno e mesmo assim não doou, não vendeu e não abriu a caixa.
Naquela semana, Luciana abriu o caderno de novo e acrescentou uma terceira coluna, sem título. Escreveu ali o coral das quintas, a fila de espera e o nome das duas colegas do Alto da Glória. Era a lista do que não tinha vindo no caminhão.
Faltava entender por que ela tinha guardado a vida inteira na mala e chamado a espera de paciência.
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II A Ferida
A mala da mãe em Erechim
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A resposta estava em 1986, num apartamento de dois quartos no Bacacheri, em Curitiba. A mãe de Luciana, Ivone Bertoldi, era professora de história em Erechim, no norte do Rio Grande do Sul, quando o marido, gerente do Banco do Brasil, foi transferido para a capital paranaense.
Ivone pediu exoneração da escola estadual gaúcha e prometeu que ia prestar concurso no Paraná. Não prestou. Primeiro, Luciana nasceu. Depois veio o irmão, Rafael. Depois o pai foi transferido mais duas vezes dentro de Curitiba, de agência, e cada mudança de bairro adiava o concurso mais um ano.
Luciana cresceu ouvindo a mãe dizer "lá em Erechim" sobre tudo: o pão, o frio, o chimarrão, as amigas. Ivone guardava as provas antigas de alunos numa pasta de elástico, no fundo do armário, e às vezes relia em voz alta, sozinha, na mesa da cozinha.
A PROMESSA ADIADA
Ivone nunca voltou a dar aula. Quando o pai se aposentou, em 2009, os dois chegaram a planejar a volta para Erechim e desistiram porque os netos já estavam em Curitiba. A mãe tem hoje setenta e quatro anos e ainda chama a cidade gaúcha de casa.
Luciana aprendeu ali uma regra que ninguém disse em voz alta: quando a carreira do marido chama, a mulher vai e espera. Desfazer a mala seria admitir que a volta não vinha, e manter a mala fechada parecia mais leal à vida que ela tinha deixado.
O enraizamento é talvez a necessidade mais importante e mais desconhecida da alma humana. Simone Weil, O Enraizamento, 1949 |
A filósofa francesa escreveu o livro em Londres, durante a guerra, longe da própria terra, e definiu raiz como a participação real numa comunidade, por meio de lugar, ofício e convívio. Luciana tinha os três em Curitiba. Em Goiânia, tinha só o lugar.
Havia ainda um segundo motivo, que ela contou para Patrícia semanas depois. Abrir agenda em Goiânia significava começar do zero aos trinta e oito anos, sem indicação, sem fila de espera, sem nome conhecido. Atender de longe as famílias antigas mantinha a sensação de que ela ainda era a fonoaudióloga de antes.
A mãe nunca soube dizer se o concurso não veio por falta de tempo ou por medo de começar de novo. Luciana não queria descobrir a mesma resposta trinta anos depois.
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