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A chave do salão calou Rosângela

A carta pra soprano que virou zeladora do coral e passou 11 anos contando partituras.

Cadeiras em meia-lua e um armário com pastas pretas num salão paroquial

O salão paroquial antes do ensaio, em Juiz de Fora.

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Dona Ilda Ferreira estendeu o chaveiro no salão paroquial da Igreja de São José, em Juiz de Fora, numa quinta-feira de março de 2014, e disse: “Rô, fica com a chave, você é a única que chega cedo.” Rosângela Maria Tavares, então com 41 anos, guardou o chaveiro de plástico azul no bolso da calça.

Ilda cuidava do coral da paróquia havia 19 anos e estava de mudança para a casa da filha, em Belo Horizonte. A função dela não tinha nome oficial. No grupo, chamavam de zeladora do coral: abrir o salão, ligar o ventilador, pôr as cadeiras em meia-lua e contar as pastas de partitura antes e depois de cada ensaio.

Eram 32 pastas pretas, uma por cantor, numeradas à mão com caneta prateada. Cada uma saía do armário de ferro no começo e voltava para ele no fim. Se faltasse uma, alguém tinha levado para casa, e a zeladora telefonava no mesmo dia.

Rosângela cantava ali desde 1998. Era soprano (a voz feminina mais aguda do coral) e ficava na primeira fila, à esquerda do regente, Ademir Coutinho, professor de música aposentado. A pasta dela era a de número 9.

Na primeira quinta com a chave, chegou às 19h, quarenta minutos antes do ensaio. Abriu o salão, contou as pastas, viu que faltava a 17 e ligou para o tenor que tinha levado a dele. Quando o regente deu a primeira nota, ela ainda estava no armário, conferindo a lista de presença.

Entrou atrasada no aquecimento e ficou na última fila, perto da porta, de onde dava para ver o armário aberto.

Em abril, deixou de pegar a pasta 9. Em maio, parou de cantar nos ensaios. Ninguém percebeu na hora, porque o salão seguia aberto às 19h, as cadeiras em meia-lua e as 32 pastas no lugar.

Onze anos depois, numa quinta de chuva de outubro de 2025, o chaveiro azul continuava no mesmo bolso. Naquela noite, Ademir parou o ensaio no meio de um canto de Natal e chamou Rosângela pelo nome, na frente das 31 pessoas do coral.

O que ele perguntou começou a se armar muito antes, na primeira lista de presença que ela assinou como zeladora.

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I  O Padrão

As 32 pastas do armário

Rosângela Maria Tavares nasceu em 1973, em Juiz de Fora, a filha do meio de um ferroviário e de uma costureira. Aprendeu a cantar na missa das 10h de domingo, ao lado da mãe, Zélia, que conhecia de cor todos os hinos do livro de cantos da paróquia.

COMO A CHAVE FOI CRESCENDO

A chave do salão veio sozinha em março de 2014. Em junho, Ademir pediu que ela guardasse também a chave da sacristia, porque o coral ensaiava ali antes das missas de festa. Em agosto, o padre Lauro pediu que ela fizesse o café do intervalo, com o pó comprado pelo caixa da paróquia.

Em dezembro, na primeira cantata de Natal com ela no posto, Rosângela passou a apresentação no corredor lateral da igreja. Segurava as 32 pastas extras, a garrafa de água do regente e um rolo de fita crepe para colar o repertório nas estantes. Cantata é a apresentação de canto com vários números seguidos, e a do São José tinha onze.

Ela sabia todas as onze de cor. Não cantou nenhuma.

A rotina da quinta ficou assim por onze anos: 19h, salão aberto; 19h10, ventilador e cadeiras; 19h20, café; 19h30, contagem das pastas; 19h40, ensaio; 21h20, contagem de novo; 21h40, salão fechado. Ela anotava num caderno espiral as pastas que saíam e as que voltavam.

Na quinta-feira, o coral tinha 31 vozes e uma chave.

O caderno espiral guardou o tamanho da troca. Entre 2014 e 2025, Rosângela registrou 497 ensaios. Contou as pastas duas vezes em cada um, perto de mil contagens. Foi atrás de 64 pastas esquecidas no carro, na bolsa ou na casa de algum cantor.

Nas reuniões do coral, o nome dela aparecia sempre na mesma frase. “A Rô cuida”, dizia Ademir, quando alguém perguntava quem abriria o salão na Semana Santa, quem buscaria as cópias na papelaria, quem guardaria as túnicas vermelhas depois do Natal.

O coral também mudou em volta dela. Em 2017, entraram duas sopranos novas, Débora e Cleide, que nunca a ouviram cantar. Para as duas, Rosângela era a moça da chave, a que sabia onde ficava a tomada do teclado.

Em 2019, o coral gravou um CD para a festa do padroeiro. No encarte, a lista de vozes trazia 30 nomes. O de Rosângela estava no fim, numa linha separada: “Apoio: Rosângela Tavares”.

Ela pegou um exemplar, leu o encarte em pé, ao lado do armário, e guardou o CD na bolsa sem ouvir.

II  A Ferida

A voz parada na garganta

Rosângela Maria Tavares percebeu o tamanho do silêncio num domingo de março de 2025, no aniversário de 5 anos da neta, Alice, no quintal da casa da filha.

O PARABÉNS DO QUINTAL

Na hora do bolo, a filha pediu que ela puxasse o parabéns, como fazia nas festas da família até os anos 2000. Rosângela começou no tom de sempre. Na subida do “muitas felicidades”, a voz falhou e saiu num fio rouco. Os primos riram, a família entrou junto e o canto seguiu sem ela.

Ela ficou com a faca do bolo na mão, parada. Fazia onze anos que não cantava uma música inteira em voz alta, nem no carro, nem no chuveiro.

Na quinta seguinte, antes de abrir o armário, ela perguntou a Ademir o que tinha acontecido com a voz dela. O regente explicou que voz parada perde extensão (a distância entre a nota mais grave e a mais aguda que a pessoa alcança) e perde fôlego, mas volta com vocalize, o exercício de aquecimento que o coral fazia no começo de cada ensaio.

Ela não fazia o vocalize desde 2014. Na hora dele, estava sempre no armário.

“Vai carregar bandeira. Cargo muito pesado pra mulher, esta espécie ainda envergonhada.”

Adélia Prado, Com licença poética, em Bagagem, 1976

Adélia Prado, poeta de Divinópolis, em Minas Gerais, escreveu esses versos no poema que abre o primeiro livro dela. No poema, a mulher recebe o cargo no nascimento e aceita sem reclamar, mas termina dizendo que inaugura linhagens e funda reinos.

Rosângela leu o poema numa revista da paróquia, em 2016, e recortou a página. Gostou da palavra cargo. Em casa, dizia “meu cargo no coral” quando falava da chave.

O cargo tinha dono, horário e caderno. A voz não tinha nada disso. Ninguém anotava a ausência de uma soprano na última fila, porque o salão abria certo, o café saía às 19h20 e as pastas voltavam completas.

Em abril de 2025, ela fez uma conta no verso do caderno espiral. Cada ensaio durava 1h40. Em 497 quintas, eram mais de 820 horas de canto ao lado dela, todas ouvidas da porta.

A filha, Juliana, perguntou depois da festa por que ela não largava a chave. Rosângela respondeu que, sem ela, o salão não abria. Juliana disse que o salão tinha aberto por 19 anos antes dela, com a Dona Ilda, e ia continuar abrindo.

Rosângela não respondeu. Guardou o caderno e voltou para a quinta seguinte, com a chave no bolso.

 

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III  O Resgate

A chave no prego da sacristia

Ademir Coutinho, regente do coral da Igreja de São José desde 1996, parou o ensaio daquela quinta de chuva de outubro de 2025 depois de ouvir as sopranos falharem três vezes na mesma passagem de “Noite Feliz”.

Ele se virou para a porta e perguntou, na frente de todos: “Rosângela, cadê a sua pasta?” Ela respondeu do lugar dela, ao lado do armário: “A 9 é minha e está lá desde 2014.”

O salão ficou quieto. Débora, uma das sopranos novas, perguntou baixinho à vizinha se a Rô cantava.

A pasta 9 passou onze anos fechada no armário que ela mesma abria.

Ademir não esperou a resposta. Pediu que ela tirasse a pasta 9 do armário e ocupasse o lugar vazio da primeira fila, à esquerda dele. Depois, ainda com o coral parado, desmontou o cargo de zeladora em partes, na frente de todo mundo.

COMO A CHAVE SAIU DO BOLSO

1. A chave do salão foi para um prego na sacristia, ao lado da chave das túnicas, com uma escala na parede.

2. A escala ganhou quatro nomes, um por quinta do mês: Cleide, Débora, o tenor Marcos e o baixo Sebastião, a voz masculina mais grave.

3. A contagem das pastas acabou: cada cantor passou a assinar a própria pasta na saída e na volta, numa folha presa na porta do armário.

4. O café do intervalo passou para a garrafa térmica, feito em casa por quem estivesse na escala da semana.

Rosângela entregou o chaveiro azul a Cleide no fim daquele ensaio. Na quinta seguinte, chegou às 19h40, junto com o resto do coral, e fez o vocalize inteiro pela primeira vez em onze anos.

A voz voltou aos poucos. Nas primeiras semanas, ela alcançava as notas do meio e falhava nas mais altas. Ademir a colocou para fazer os exercícios de respiração em casa, dez minutos por dia, com uma garrafa de água e um canudo.

Na cantata de Natal de dezembro de 2025, ela cantou as onze músicas da primeira fila, com a pasta 9 aberta nas mãos. No corredor lateral, segurando a fita crepe, ficou Sebastião, da escala daquela semana.

Juliana levou Alice para assistir. Na saída, a neta perguntou à avó desde quando ela sabia cantar. Rosângela respondeu: “Desde os seis anos, ao lado da sua bisavó.”

Em fevereiro de 2026, o caderno espiral foi para a gaveta da sacristia. A última linha escrita por ela não era uma contagem: “Pasta 9, retirada por Rosângela, soprano.”

Qual chave você guarda no bolso no lugar da sua voz?

Teste hoje: escreva num papel todas as tarefas que você faz num grupo do qual participa (igreja, família, escola, trabalho) e marque com um círculo as que ninguém pediu por escrito. Escolha uma marcada e passe a alguém do grupo nesta semana. O esperado: na próxima reunião desse grupo, você ficar pelo menos 20 minutos fazendo a atividade pela qual entrou ali, sem levantar para resolver nada.

 
 
Quiz da edição

Quantas pastas de partitura ficavam guardadas no armário de ferro, uma para cada cantor do coral?

A24 pastas
B28 pastas
C32 pastas
D40 pastas

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Clímax da temporada

Maratona dos 7 dias finais

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Dia 5 de 7 · a temporada de outubro fecha 31/10

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